Não falou até aos onze anos. Não leu nem escreveu uma palavra até aos dezoito. Diagnosticado com autismo e atraso global do desenvolvimento aos três, submetido a quatro ou cinco horas diárias de terapia da fala, filho de uma super-mãe com cinco licenciaturas que se recusou a aceitar o prognóstico que lhe tinham dado. A história deste super-homem DEI, tal como Cambridge a contou ao mundo em 2023, não parava aí. Um tumor cerebral benigno, removido duas semanas antes da defesa da tese, apagou-lhe da memória o trabalho de anos, que ainda assim recuperou a tempo de defender. Trinta maratonas em trinta e cinco dias, as últimas nove já com uma fractura de stress. Trezentas milhas em três dias numa passadeira, seiscentas em seis, mais de cinco milhões de libras angariadas para instituições de caridade, poços de água em África e na América do Sul. Aos trinta e sete anos, Jason Arday tornou-se o professor negro mais jovem da história de Cambridge. Como não podia deixar de ser, a BBC contou a história. A CBS contou a história. A Good Morning America contou a história. Um editor da Simon & Schuster comprou as memórias. Faltou um programa na SIC e uma reportagem na VISÃO, mas foi, é claro, distracção. Ninguém, durante quase dois anos, sentiu necessidade de verificar nenhuma destas historietas. Afinal, um símbolo é um símbolo. E Hilary Cremin tinha canonizado Jason.
Cambridge tinha todas as ferramentas para descobrir a fraude e, durante quase dois anos, pareceu não querer usá-las. Uma universidade que ensina a citar fontes, a ser transparente com o trabalho e com a criação do saber, e a submeter cada ideia à revisão de um par que a destrua, se puder, decidiu que este caso dispensava o exercício. Talvez porque, depois de uma santificação em vida, ninguém se atrevesse a pedir provas. Nathan Cofnas, filósofo de Cambridge acusado de racismo por um artigo que citava dados internos da própria Harvard e mais tarde ilibado pela universidade das cinquenta e oito queixas de discriminação apresentadas contra ele, foi quem alertou um colega para a possibilidade de haver um plagiador e fabulista no corpo docente. As conferências do próprio Arday, nas quais desvalorizava números e dados quando contrariavam as suas teses, foram entretanto levantando dúvidas em círculos cada vez mais amplos. Cofnas não foi, portanto, o primeiro a desconfiar. Em Setembro de 2025, um jornalista do Times Higher Education tinha preparado um dossier de sessenta e três páginas com comparações de texto. Os advogados de Arday, de um escritório especializado em difamação e com custos bem acima do habitual para um académico, enviaram uma carta prévia à publicação e o dossier ficou dez meses na gaveta. Entretanto, o castelo de cartas começou a ruir. Os cinco milhões e meio de libras angariados para caridade, uma das historietas que ajudaram a construir o símbolo, tinham como único registo verificável uma página de angariação de 2010 com 6.285 libras. Perante a acumulação de sinais, contradições e denúncias documentadas, Cambridge manteve-se firme. Não abriu um inquérito. Afinal, Arday era mais do que um académico: era um apóstolo, peça útil na imagem de uma Cambridge moderna, diversa e racialmente inclusiva que a universidade queria projectar para o mundo. Preferiu chamar às acusações uma campanha vil. Apoiando-se numa carta de solidariedade, coordenada pelo Good Law Project, reuniu seiscentas e cinco assinaturas nos primeiros dias e chegou às catorze mil. Não refuta um único facto verificado. Chama-lhe campanha da direita. Foi também discretamente reescrita a meio, sem nota de correcção, de tal modo que o documento que os primeiros seiscentos assinaram já não é o documento que hoje está na página. Assim seguira a novela com uma petição sobre integridade académica que não sobrevive à verificação da própria versão. Até que, na quarta-feira, 5 de Agosto, Depois de novos e mais polémicos elementos sobre o seu percurso académico serem publicados pelo The Times, Cambridge deixou de poder ignorar o caso e anunciou uma investigação às qualificações do professor. Arday demitiu-se nessa mesma noite.
Cambridge já tinha visto este filme, só que passado em Cambridge, Massachusetts. Claudine Gay tornou-se, em 2023, a primeira presidente negra de Harvard e teve o mandato mais curto da história da universidade, seis meses. Caiu depois de um testemunho desastroso no Congresso, em que não conseguiu responder com um sim ou um não se apelos ao genocídio de judeus violavam o código de conduta de Harvard. Caiu também porque se confirmou que várias passagens da sua tese de 1997 e de artigos posteriores reproduziam texto de outros autores sem citação adequada. Harvard nunca escreveu a palavra plágio no relatório que encomendou a si própria. Chamou-lhe citação inadequada, o eufemismo em que os grémios politicamente correctas se tornaram verdadeiras especialistas. Um é professor, a outra era presidente. Um está em Inglaterra, a outra estava nos Estados Unidos. A mesma peça avariada, a funcionar dos dois lados do Atlântico. Escolhe-se o símbolo antes de se verificar os fundamentos, e quando a verificação chega, chega tarde, chega feia e chega sempre depois da instituição ter apostado a própria credibilidade na história que contou ao mundo.
Michael Young cunhou a palavra meritocracia em 1958 como aviso, não como elogio. Imaginava uma sociedade que substituía o nascimento pelo mérito e descobria, horrorizada, que a nova aristocracia era tão fechada como a antiga, só que sem culpa, porque agora tinha provas. Cambridge e Harvard fizeram o movimento oposto e chegaram ao mesmo sítio, ao decidirem que para certos candidatos a prova podia ser dispensada em nome de um bem maior. Thomas Sowell chamou a isto o efeito real contra o efeito pretendido. Colocar alguém num patamar de escrutínio mais baixo do que o dos seus pares não o protege, expõe-no, porque o sucesso alcançado sem a mesma verificação nunca é lido como mérito pleno. É lido, mais cedo ou mais tarde, como um favor que se pode revogar. Quem paga o preço mais alto não são os críticos do DEI, que na pior das hipóteses perdem um argumento à mesa do café. São os próprios promovidos a símbolo, expostos sem rede a um escrutínio que devia ter acontecido antes, em privado, entre colegas que verificam fontes por profissão, e que aconteceu depois, em público, entre acusadores com agenda própria e uma imprensa que precisa de um vilão antes do intervalo.
Mas esta velha lógica do poder não é propriedade do DEI. Quando a lealdade vale mais do que os factos, os sinais podem ser ignorados, as perguntas incómodas abafadas e os protegidos mantidos a salvo. Portugal já tinha descoberto a receita muito antes de Cambridge, no Reino Unido ou nos Estados Unidos. Em bom rigor, fomos pioneiros. O diploma de licenciatura em Engenharia Civil de José Sócrates, pela Universidade Independente, foi assinado a 8 de Setembro de 1996, um domingo, com as notas de quatro exames finais lançadas no mesmo dia, segundo revelou o muito sábio e eloquente semanário Expresso. Já em 1993, três anos antes, a Biografia dos Deputados o dava como licenciado em engenharia civil. Quando se inscreveu na Independente, não apresentou qualquer documento que comprovasse as cadeiras que fizera no ano anterior no ISEL e que lhe deram equivalências. Em 2015, o Ministério Público considerou ilegal a conclusão do curso e decidiu na mesma não pedir a nulidade, invocando entre outros argumentos a conduta notoriamente omissiva do ministério na fiscalização daquela universidade. A universidade foi encerrada compulsivamente em 2007, por despacho do ministro do próprio primeiro-ministro. Em Outubro de 2017, a Ordem dos Engenheiros esclareceu que José Sócrates não está nem nunca esteve inscrito na Ordem. Em Agosto de 2007 descobriu-se ainda que todas as referências ao caso na Wikipédia inglesa tinham sido apagadas a partir de um computador da rede do Governo. Cambridge precisou de chegar a 2026 para ver um único homem, com um advogado muito acima das suas posses, atrasar o escândalo. Nós já fazíamos gestão de reputação por supressão de registo em 2007.
Cinco anos depois veio o caso Relvas, com a mesma coreografia num partido e universidade diferentes. Das trinta e seis cadeiras do curso de Ciência Política, o ministro adjunto de Passos Coelho fez quatro. O tribunal administrativo acabaria por declarar a licenciatura nula em 2016. E aqui está a parte que ninguém guardou. A inspecção desencadeada pelo caso obrigou a Lusófona a rever centenas de processos e cento e cinquenta antigos alunos perderam o grau que já tinham. Nenhum deles era ministro. Nenhum deles pediu nada a ninguém. É esta a diferença entre nós e eles. Em Inglaterra, demite-se o professor. Em Portugal, encerra-se a universidade, cassam-se os diplomas dos alunos que lá andaram a sério e o diploma que originou tudo aquilo continua exactamente onde estava.
Há mais um capítulo nesta novela portuguesa, e conheço o protagonista há décadas. Em 2009, o ISEG escolheu quatro professores catedráticos, entre eles Francisco Louçã, coordenador do Bloco de Esquerda durante treze anos. Pedro Telhado Pereira ficou de fora. Recorreu aos tribunais e, só em Maio de 2025, dezasseis anos depois, viu o concurso anulado por vício processual. Jubilado entretanto, nunca chegará a catedrático no ISEG. Tornou-se catedrático na Universidade da Madeira. Não sei se Telhado Pereira teria sido escolhido em 2009 se fosse, como Louçã, uma referência da esquerda portuguesa. Sei o que vi e ouvi naquela sala entre 1996 e 1998. Ouvi Louçã falar mais de campanhas autárquicas para Lisboa, do PSR, e do referendo do aborto que se avizinhava do que de macroeconomia. Não estava ali a formar economistas. Estava a catequizar. É essa vergonha, não a anulação do concurso dezasseis anos depois, que fica na memória de quem perdeu o tempo à espera de aprender economia.
Cambridge, Harvard e as universidades portuguesas não precisam de ser perfeitas. Basta que apliquem a mesma regra a todos. Uma regra que funciona para os anónimos e deixa de funcionar para os símbolos não é meritocracia. É a fraude em forma de privilégio.