Foi ali, em Lagos, que a 28 de Julho de 1415 Mestre Frei João de Xira anunciou aos 20.000 homens de armas e de outras artes que espalhados pelo vasto areal da praia assistiam à missa por ele celebrada, que o destino de todos era Ceuta. Fizera-o em nome do Rei, D. João I, de quem era confessor. Também ele estava ali, num palanque partilhado com os seus três filhos mais velhos: Duarte, Pedro e Henrique.
Era domingo. A armada em que toda aquela gente vinha embarcada fora chegando à baía de Lagos na véspera. Os 200 navios que a compunham haviam zarpado de Lisboa quinta-feira, 25, assim se cumprindo o que estava destinado havia tempo. Nem o luto carregado em que dez dias antes, a 15, o Reino mergulhara, por morte da Rainha, Dª Filipa de Lencastre, nem nisso o Rei viu razão bastante para alterar os planos.
“Lá do alto”, onde agora estava, ela haveria de sentir-se tomada de júbilos. No dia certo, que era aquele, a armada tinha alevantado âncoras e aparelhado velas para se fazer ao mar, em vencendo a boca do Tejo. Como ela quis que fosse, de tal vontade dando conhecimento ao Rei, que fazia dias a acompanhava no seu leito de morte no convento de Odivelas.
A revelação em Lagos do destino de tão grossa armada, quebrara um segredo ciosamente guardado havia quatro anos. Para bom sucesso da conquista de Ceuta, decidida em 1411, era preciso guardar dela grande segredo. A construção de tantos navios nas terecenas de Lisboa e Porto havia de dar nas vistas e, por via disso, fazer despertar naturais curiosidades, como de facto aconteceu: a que servia tamanho afã?
A guarda do segredo, tão cerrada se quis que ela fosse, servia um fim superior: evitar que os mouros e a mourama soubessem que se preparava a conquista da sua Cepta – a antiga e famosa Ábila romana, por eles tomada em 709. Em tempos como aqueles, ainda tão dominados pelo espírito das cruzadas – Constantinopla só cairia em 1453 – haveriam de reunir quanta força fosse preciso para não abrir mão de praça tão famosa.
Nunca em tempo algum se reunira tamanha armada, levando nela tanta gente de guerra, toda ela tomada de fervores religiosos. O poder que nela vai – todo o poder que o Rei e o Reino puderam reunir, como dirá Zurara – é esmagador. Mas a “defenção” de um alvo em que a aproximação é por mar tem sempre vantagem, mais ainda quando devidamente preparada.
É uma história sublime, de engenho, imaginação e arrojo, a das dissimulações a que anos a fio houve que recorrer para manter aferrolhado um segredo que poderosas abelhudices estrangeiras tentaram devassar. Entra na mesma categoria o reconhecimento do terreno a que houve que proceder in loco, estando a aproximar-se a data em que a armada zarparia. Foi obra de gente de uma nau portuguesa que por ilusórios motivos ali aportou.
A ponta do pequeno istmo em que está Ceuta é o lado sul do estreito que liga o Mar Oceano ao Mar Medio Terreno, como era conhecido. Os vigias que do alto das suas torres enxergam o que se aproxima do estreito, vindo de um lado ou de outro, deram-se plena conta da armada que dele começou a aproximar-se a 10 de Agosto, vinda do golfo da Égua. Aos avisos que disso se apressaram a dar seguiram-se preparativos para a batalha.
O dia 12 de Agosto devia ter ser aquele em que o ataque a Ceuta seria filhado. Se os dois dias que se previa viesse a ser preciso até a batalha chegar ao fim viessem a ser cumpridos, era a 14 que Ceuta mudaria de mãos. Era uma homenagem a Aljubarrota, a batalha que há 30 anos o Rei e outros que ali vinham, entre eles D. Nuno Álvares Pereira, tinham vencido.
O esbater da ameaça de Castela a que o bom sucesso de Aljubarrota dera azo, permitira olhar para o mar como parte para que o Reino se podia estender. Não havia outra maneira desse fortalecer. “Cá nós de uma parte nos cerca o mar e de outra temos por muro o Reino Castela”, deixou escrito Gomes Eanes de Zurara, cronista-mor do Reino, na sua Crónica dos Feitos da Guiné.
Duas borrascosas intempéries, ao tempo chamadas cerrações, ambas dispersando a armada quando ela já havia sido dada pronta para o combate, impedem, porém que as datas de 12 e 16 venham a ser cumpridas. A data de 16 correspondendo ao tempo que fora preciso esperar para reagrupar e voltar a aprontar a armada desbaratada na primeira intempérie.
Foi a 21 de Agosto que a batalha finalmente se feriu. Ainda antes do anoitecer Ceuta é dada como tomada. Os seus defensores jazem nas fortificações que guarneciam e em que se bateram; ou abandonaram a cidade escapando pela porta das suas muralhas que dá para os campos à volta onde semeiam trigo e pasta o gado. Fica para o outro dia a entrada no castelo do governador, em cuja torre altaneira é içado o pavilhão real.
Ceuta entra na história de Portugal como feito precursor absoluto da sua parte mais engrandecedora: a expansão marítima. Só depois nela entraram a Madeira, os Açores, Arguim, Goré, Cacheu, Cabo Verde ou a Mina. O enguiço vindo do aforismo de Zurara quebrara-se finalmente. Para consolação dos visionários que viam no mar o espaço em que o Reino se podia acrescentar, entre eles o próprio Rei.
O longe que voou a fama de Portugal por haver tirado Ceuta aos infiéis que tanto a veneravam e a ela se agarravam, foi pasto de admiração e respeito, especialmente na Cristandade, como então a Europa também era conhecida. Mais ainda depois de se aventurar a levar a expansão marítima cada vez mais longe, assim chegando ao Índico dobrado que antes fora o cabo que o ligava ao Atlântico.
Acrescentar conhecimento ao escasso conhecimento que havia de partes do mundo dessa forma trazidas para a história do próprio mundo – o Atlântico sul, o Ìndico meridional e as terras que lhes eram ribeirinhas – valeu como admirável feito da expansão portuguesa. O que se ficou a saber dos céus, das estrelas, das marés e dos mares então entrados; das terras que os bordejavam, das gentes que as habitavam, da fauna e da flora que nelas havia, era diferente das teorias de Santo Agostinho ou de Ptolomeu. O conhecimento científico avançara como nunca na História da Humanidade.
Ter-se-ia Portugal afirmado como Nação se não se tivesse espalhado pelo mundo, levado por um movimento que o espírito do tempo via como benfazejo? Muito do que daí reverteu em seu proveito, em termos de poder e prestígio, foram “trunfos” que faltaram à Catalunha para nunca se haver se ter afirmado como nação independente na sua luta contra um vizinho que era o mesmo de Portugal. Até a universalização da língua portuguesa, contrastante com a pequenez do catalão, fora fruto da expansão.
Se a conquista de Ceuta foi um feito épico, a sua conservação foi-o ainda mais. Até a Espanha a apanhar à má fila, 253 anos depois, em 1668 – única praça portuguesa a que tal destino estava reservado depois da Restauração de 1640. Todos os dias era preciso defendê-la de razias, assaltos e cercos dos mouros. Em 1419 só uma armada mandada à pressa do Reino impediu a sua queda. Da escola de cavalaria em que por isso Ceuta se transformou saem muitos dos que ao depois seguem embarcados nas armadas que demandam a Índia.
O olvido da história apagou dela o feito de Ceuta. Em 2015, foi completa a indiferença do Estado e da sociedade ante a passagem dos 600 anos da conquista de uma terra que ainda hoje tem como bandeira aquela que D. João I mandou que fosse a sua: feita de gomos pretos e brancos, lembrando Lisboa, o escudo de Portugal ao centro.
Já Lagos, terra entrada no feito da conquista de Ceuta pelo que ali se passou naquele domingo, 28 de Julho, a lembrança que dela está a impor-se resume-a à existência ali de um mercado de escravos. Para provar tão nefanda realidade e por via dela ligar Lagos à escravatura, sucedem-se escavações e mais escavações. A uma delas, custeada pelo município, é atribuído o achamento de uma manilha de cobre, logo apresentada como “exclusivamente destinada a comprar escravos”.
Das estranhas tentações do tempo presente de olhar para Lagos como um mero símbolo da escravatura, isso e mais nada, nem sequer escapou Lídia Jorge, nas vestes de oradora oficial das comemorações do 10 de Junho de 2025. O tráfico negreiro intercontinental em larga escala que ali se inaugurou, segundo o seu ponto de vista inaugurando um modelo de exploração de seres humanos que outros haviam de copiar – era mácula que lhe merecia remorsos.
Quantas naus, no torna viagem de aventurosas navegações por mares longínquos não terão ido parar a Lagos – de tão velhas e gastas já incapazes já de aportar a Lisboa? Como acontecia com a Terceira, coisa assinalada por Gaspar Corrêa nas suas Lendas da Índia: “Cousa d’espanto como (as naus, de tão velhas e gastas) se sostinhão sobre o mar e muita gente morta e outros doentes que morrerão chegando a terra”.
Se calhar por que as suas vítimas não entram na categoria das que hoje contam (na terminologia actual chamar-lhes-iam colonos), também não merece evocação alguma a tragédia que em Lagos esperava os 4.000 mazaganistas, em 1667 ali despejados de uma frota de 14 navios que os retirara de Mazagão, antes do abandono da praça. Entregues à sua sorte, vivendo tristes misérias, muitos acabariam a esmolar. Os restantes, a esses esperava-os a mortandade provocada pelo clima agreste de uma parte do Brasil para onde foram levados com o fim de fundar uma nova cidade – Nova Mazagão.