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Festa do Pontal - Meio século de histórias

O PSD é um partido eclético. Popular na sua génese, interclassista na sua composição, equilibrado e moderado no seu programa.

José Mendes Bota
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Cumprem-se em 2026 cinquenta anos sobre a primeira edição dos dois principais eventos políticos com relevância nacional, fora de períodos eleitorais: a Festa do Pontal, organizada pelo PPD/PSD, e a Festa do Ávante, da responsabilidade do PCP.

Isto, sem desprimor para a Festa do PSD/Madeira que conheceu a sua primeira edição em 18 de Maio de 1975 no Chão dos Louros. Entretanto, mudou-se para o Chão da Lagoa, e mantém o seu carácter de afirmação regional.

Pontal e Ávante não são comparáveis, nem no modelo, nem na duração, tampouco na localização geográfica. Mas ambos constituem factores de afirmação e mobilização partidária que perduraram meio século, o que não deixa de ser assinalável.

A Festa do Ávante iniciou-se de 24 a 26 de Setembro de 1976, dura três dias e é um festival de política e cultura de cariz comunista, que compreende muitos palcos, campismo, debates, gastronomia regional e uma forte componente ideológica internacionalista. Realiza-se desde 1990 na Quinta da Atalaia (Seixal)

Pouco menos de um mês antes, a 29 de Agosto de 1976, por iniciativa e com a presença de Francisco Sá Carneiro, decorreu no Pinhal do Pontal, nos arredores de Faro, uma festa popular que procurava reforçar a implantação dos social-democratas no Algarve, recuperando de um atraso organizativo inicial no pós-25 de Abril, que condicionou por muitos anos a expansão do partido e a captação de quadros políticos nesta Região. Trata-se de um evento de um só dia, que se traduz num comício/convívio, com actividades recreativas ocasionais, restauração e música, ficando o ponto alto reservado às intervenções políticas, normalmente com a oratória dos líderes do PPD/PSD em funções.

Com mais altos do que baixos ao longo da sua existência, a Festa do Pontal também conheceu algumas evoluções. Da dimensão de uma simples confraternização destinada aos militantes, simpatizantes e votantes algarvios, evoluiu para um ponto de encontro da diáspora social-democrata vinda de todo o País e das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e que fazem do Algarve, em pleno Verão, o seu destino privilegiado de férias. Nenhum outro local cumpriria este desiderato com tanta propriedade.

Mudou de sítio. Entre 1976 e 1986 realizou-se no Pinhal do Pontal, com muita poeira e areia. Com a urbanização do local, em 1987 passou para a Baixa de Faro, nem sempre com grande atractividade de pessoas. Finalmente, em 2006 deu-se um passo decisivo, ao estabelecer-se no Calçadão de Quarteira em data fixa (14 de Agosto), com o mar ao lado, e melhores condições de conforto, de serviço e acessibilidade para a assistência, até aos dias de hoje, descontadas três edições infelizes noutros locais e duas ausências por motivo do Covid.

Também em termos de responsabilidade organizativa houve uma alteração a assinalar. Até há poucos anos o evento era colocado de pé por dezenas de militantes algarvios voluntários, que tomavam a seu cargo múltiplas funções: vendedores de bilhetes para o jantar, porteiros, afixação de publicidade, cartazes, outdoors, ajudar na distribuição de comida e bebida, organização de eventos colaterais (do tiro aos pratos, às corridas de motos, aos jogos populares, futebol entre “Urbanos” e “Rurais”, etc), e que assim angariavam as receitas necessárias para sustentar a organização. Progressivamente, a estrutura nacional foi recorrendo a prestadores de serviços externos para assegurar todas essas funções.

A intervenção política, sobretudo a partir de Cavaco Silva, em 1985, afirmou-se até aos dias de hoje como o que se convencionou chamar de “rentrée” política. Ou seja, aproximando-se o final do período de férias, essa mensagem do líder do PSD funciona como o regresso ao debate político, quiçá o início de um novo ciclo.

Esta característica fez da Festa do Pontal um acontecimento único, distinto de qualquer outro. Percorrendo a sucessão de temas, de propostas e de frases marcantes ali proferidas, é possível fazer uma reposição histórica do Portugal político dos últimos 50 anos.

A importância da Festa do Pontal mede-se pelo grau de cobertura que merece na comunicação social. Começa a ser falada nas semanas que a antecedem, e o efeito dessas intervenções prolonga-se nos meses, e por vezes, nos anos que se seguem. “Festa do Pontal” é, para quem queira dela dizer bem ou mal, um “brand name” do Partido, uma marca, faz parte do seu património político. Sem grande exagero, poder-se-á afirmar que “toda” a gente em Portugal, do Norte ao Sul, da raia fronteiriça às Regiões Autónomas, sabe o que o Pontal significa.

Foi também um tempo de antena raro e precioso para as lideranças do PSD/Algarve apresentarem perante o País o seu caderno reivindicativo de medidas e obras estruturantes de que o Algarve carecia.

Abdicar desse património, seria um péssimo acto de gestão, jogar pela janela algo que levou cinquenta anos a consolidar-se na realidade portuguesa. Ao longo da sua História, o PPD/PSD já conheceu 19 lideranças. Nem todas passaram pela Festa do Pontal. Algumas, tudo fizeram até para a desvalorizar, ignorar, mudar de sítio, fazer desaparecer. E não foram apenas esses (poucos) líderes. Alguns dirigentes, ou detentores de cargos importantes do PSD, descarregaram sobre a Festa do Pontal o seu arsenal de “fogo amigo”. Ficou para a posteridade o artigo publicado no Diário de Notícias de 20 de Agosto de 2008, pelo então eurodeputado Vasco da Graça Moura que, entre outras pérolas de uma inesperada acrimónia, escreveu o seguinte: “Toda a gente sabe que o Pontal não tem hoje importância nenhuma. De há muito que perdeu todo o interesse ou projecção nacional no plano político. (…) O País teve a confirmação de que o Pontal está morto e enterrado.” Como os factos provaram posteriormente, Graça Moura não estava exagerando quando noticiou o óbito do Pontal. Estava apenas redondamente enganado.

Permito-me destacar os cinco líderes social-democratas que, na minha modesta e subjectiva opinião como testemunha da Festa do Pontal nestas cinco décadas, e organizador de 14 das suas edições, mais contribuíram para o seu sucesso e continuidade.

Desde logo, Francisco Sá Carneiro. Porque esteve na ideia original, e no conceito da Festa do Pontal, como evento popular capaz de mobilizar multidões e reforçar a implantação do partido no Algarve, bastante incipiente nos primeiros tempos do pós-Revolução, como atrás se referiu. E, claro, porque esteve na primeira edição realizada no pinhal do Pontal em 1976, presença que repetiria dois anos depois. O carisma da sua pessoa e da sua palavra transmitiu-se ao evento em si, muito contribuindo para a sua projecção nacional. Foi um grito de resistência democrática.

Recém-chegado à liderança do PSD no Congresso da Figueira da Foz, Aníbal Cavaco Silva depressa compreendeu o potencial mobilizador da Festa do Pontal, e dali fez em 25 de Agosto de 1985 a rampa de lançamento para a sua primeira vitória eleitoral nas legislativas de 6 de Outubro. Nos 10 anos que se seguiram (à excepção de 1991, em que o evento não se realizou por estratégia da campanha legislativa que lhe daria a segunda maioria), Cavaco sempre compareceu, consolidando definitivamente a importância do evento como o momento-chave da “rentrée” política nacional. Em 1993 ficou famosa, a título de exemplo, a frase: “Mesmo aqueles que discordam de nós não têm dúvidas de que o barco tem um rumo, e de que há uma pessoa ao leme”.

Marcelo Rebelo de Sousa foi protagonista de um momento crucial e emblemático para a sobrevivência do evento como acontecimento político. Quando assumiu a liderança do PSD, encontrou o partido financeiramente exaurido. Perante a possibilidade de a Festa do Pontal deixar de se realizar, não hesitou, e entregou um cheque pessoal de 5.000 contos para que o PSD/Algarve pudesse garantir a sua organização. Estávamos em 1997.

Em 2010, Pedro Passos Coelho, também ele recém-chegado à liderança do PSD, fez da Festa a rampa de lançamento para a vitória eleitoral de 2011. Restaurou a tradição da presença do líder como ponto fundamental para o sucesso do partido. Primeiro na oposição, e já depois como primeiro-ministro, lançou dali em 2013 a meta a que se propunha: “Nunca estivemos tão próximos de chegar ao nosso objectivo: concluir o programa de assistência financeira e reconquistar a nossa total soberania.” Palavra dada, palavra cumprida.

Em 2022, Luis Montenegro , reforçou o papel da estrutura nacional na organização da Festa do Pontal e proclamou: “A máquina laranja está de volta para tornar a governar Portugal”. E acertou, dois anos depois venceu as eleições. Não é questão de ser uma festa milagreira, noutras ocasiões também se perdeu. Tudo depende das conjunturas políticas, dos momentos e do carisma do candidato a primeiro-ministro. Montenegro provou que o PSD estava vivo, e de volta ao caminho das vitórias. Cabe-lhe mostrar que é capaz de manter esse rumo.

Ao longo destes 50 anos vi de tudo um pouco em termos de participação. A comunicação social, sempre de “pontalómetro” em riste, procurava comparações impossíveis de fazer com edições passadas. Houve índices de participação altos e baixos, quando se estava no poder. E o mesmo se passou, quando se estava na oposição.

Assisti à debandada geral do público no final das intervenções políticas, alheando-se completamente do espectáculo de artistas famosos e caros que se seguiria. E o contrário também, com uma multidão a chegar no final dos discursos, só para assistir à actuação musical que se seguiria.

Houve anos de “seca oposicionista”, em que quase implorava pela presença de uma ou duas figuras nacionais do PSD, para compor a Mesa de Honra, e houve edições, já com o PSD no poder, em que 200 lugares de destaque sentados não chegaram para as encomendas.

Entre 400 e 4.000 participantes, assim vi o balanço das assistências. Em 2007, em plena disputa Luis Filipe Menezes/Luis Marques Mendes pela liderança do PSD, venderam-se seguramente mais de 3.500 bilhetes para o jantar. As respectivas claques compareceram em força. O ano passado, num modelo de portas abertas e livre acesso, é muito possível que aquele número tenha sido ultrapassado.

Muitas vezes se questionou se ainda se justificava haver uma “rentrée política”. A resposta acaba de ser dada pelo próprio Partido Socialista que, desde esse duelo até agora único, ocorrido em 1995, em que contrapôs ao Pontal, a sua festa da Pontinha, a 300 metros, e nunca mais teve uma festa de Verão, eis que este ano decidiu organizar o seu evento em Olhão, dois dias depois do Pontal.

O PSD é um partido eclético. Popular na sua génese, interclassista na sua composição, equilibrado e moderado no seu programa. É um partido com lugar para a “intelligentsia” dentro de quatro paredes, e para a afirmação de força na rua. Na liturgia do Pontal, aquele povo ali presente, gosta de ver o líder de mesa em mesa, contactando, cumprimentando, tocando as pessoas, usufruindo o momento também. A presença de tanta juventude garante um encontro entre gerações, de convívio, de partilha e de proximidade. O PSD também é multidão, agitação, bandeiras no ar e corações em terra, pronto para combates eleitorais que, mais cedo ou mais tarde, aí estarão.