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(A) :: Como foi viver o eclipse no ponto de escuridão total. Entre lágrimas e abraços, a experiência “inacreditável” de quem esteve em Rio de Onor

Como foi viver o eclipse no ponto de escuridão total. Entre lágrimas e abraços, a experiência “inacreditável” de quem esteve em Rio de Onor

Centenas de pessoas viveram um momento histórico na pequena aldeia de Rio de Onor, em Bragança, o sítio onde o eclipse foi total em Portugal. “Faltam-me palavras para descrever o que aconteceu”.

Martim Andrade
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Diogo Ventura
photography

E, durante menos de 20 segundos, o dia fez-se noite. O céu passou a estar iluminado por Vénus, já que a Lua avançou até bloquear o Sol. Nesses 17 segundos, instalou-se a escuridão, a temperatura desceu, e ao silêncio ensurdecedor que precedeu a totalidade e aos soluços dos mais comovidos, seguiram-se os aplausos da multidão reunida no alto de um monte. Numa estrada entre Rio de Onor e Guadramil, todos partilharam um sentimento de insignificância cósmica.

“Não tenho palavras” foi a descrição mais comum entre as centenas de pessoas que tinham abandonado a aldeia de Rio de Onor rumo à encosta onde se juntavam os telescópios dos mais aficionados, aos projetores de cartão e filtros improvisados dos amadores. Nesta pequena porção de território português, o momento do eclipse total desta quarta-feira, 12 de agosto, foi o desfecho de meses de planos para presenciar uma raridade astronómica em Portugal. Não faltaram lágrimas e abraços.

Antes, o calor abrandou. Foi esse o primeiro sinal sentido não só pelos curiosos, mas também pelos vários agentes da Guarda Nacional Republicana (GNR) e do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) destacados para manter a segurança na encosta onde os termómetros dos telemóveis chegaram a registar cerca de 32ºC que, na pele de cada um, pareciam bem mais intensos. Minutos antes das 19h30, quando a luz começou a perder intensidade, toda a gente sabia que estava quase no momento mais esperado.

De um momento para outro, a luz deixou de incomodar tanto os olhos e o calor tão inconveniente ao longo do dia desapareceu de repente. A mudança de temperatura foi clara. Não havia vento, como aconteceu noutras zonas do país, mas o dia quente de verão transformou-se num ameno final de tarde, mesmo que só durante breves instantes. Quando o Sol ficou totalmente ocultado pela Lua, todos hesitaram em tirar os óculos para observar o eclipse. A intensa discussão que decorria às margens da estrada apaziguou-se como a força da luz solar e, de repente, a multidão ficou em silêncio. O Sol já não estava minguante. Com uma coroa brilhante a surgir por detrás de uma Lua aparentemente opaca, ouviram-se os apitos, os aplausos e a celebração. “Nunca vi nada assim”, afirmou uma pessoa. “É inacreditável.”

Na escuridão, revelou-se Vénus. Ao longe, brilhante, um planeta solitário no céu. As aves calaram-se e, apesar dos lamentos de todos, a Lua continuou o seu caminho e tornou a expor o Sol quase no horizonte. Voltaram os aplausos, ficaram os arrepios à mistura com a tranquilidade e muitos suspiraram de alívio, especialmente os que traziam equipamentos mais avançados. Muitos fotógrafos, amadores ou profissionais, imortalizaram o momento que, em Portugal, só voltará a acontecer daqui a mais de um século. “No próximo as imagens ficam ainda melhores”, prometeu um deles.

As caminhadas de reconhecimento e a “ansiedade” de véspera

Num dia normal, vivem na aldeia transmontana de Rio de Onor não mais de 50 pessoas. Mas o 12 de agosto não ia ser um dia como os outros e, por isso, na véspera, os rio-onorenses misturaram-se com as centenas que viajaram de todos os cantos do mundo para experienciar os 26 segundos previstos de eclipse.

José conseguiu, “por milagre”, um espaço no parque de campismo com pouco mais de uma semana de antecedência. Com os filhos e a mulher, avista a sua tenda azul do topo do monte onde fica a escola, na outra margem do rio. Os quatro vieram de Vila Nova de Famalicão para ver o eclipse e estavam, exatamente 24 horas antes, à procura do melhor local para assistir. “Sabemos que o Sol vai lá estar amanhã, mas queremos ter a certeza”, partilha, ansioso. Os segundos avançam até às 19h31, hora prevista para o eclipse. Quando é essa a hora do relógio que continua a oscilar entre o fuso horário português e espanhol devido à proximidade da fronteira, o alívio é notório. “Vai dar para ver. Sim, vai dar para ver”, repetem.

Como a família famalicense, vários visitantes também quiseram ter a garantia de que, no dia seguinte, o fenómeno seria visível. Perto da antiga escola, existe um trilho para subir até ao campo de futebol. Pelo caminho, os visitantes não se conhecem mas trocam cumprimentos com um sorriso, entusiasmados com as 24 horas que se seguem. “Cuidado que a GNR já está lá em cima”, brinca um grupo de homens que desce, aludindo ao controlo previsto dos acessos à aldeia.

“Lá em cima” não estavam as autoridades; apenas duas balizas sem rede e já enferrujadas. Mas é este o ponto de encontro dos entusiastas da astronomia como Maria, que se mudou de Belo Horizonte para os Países Baixos há mais de 40 anos. Entre o português e o neerlandês que reserva para o marido (que também dá “uns toques” da sua língua materna), explica ao Observador que vieram de propósito até ao extremo nordeste de Portugal para assistir ao eclipse. Munidos de dois pares de bastões de caminhada, procuravam o melhor local de observação que não exigisse um grande esforço físico. É que um dos seus amigos — que por esta altura faz anos — tem problemas de mobilidade.

“Ainda vai dar para ver mais algum tempo”, diz outro viajante. Mesmo assim, há quem continue a subir os montes que ladeiam o pequeno vale de Rio de Onor para conseguir “mais uns minutinhos” de Sol. Não é a primeira vez que José, um aficionado dos astros nos seus tempos recreativos, visita Rio de Onor. Além de partilhar o entusiasmo pelos fenómenos astronómicos — que observou parcialmente nas últimas décadas —, relata o seu fascínio pelas particularidades da aldeia.

“Aqui, não se consideram nem portugueses nem espanhóis”, comenta. Na aldeia de xisto que, em 2017, foi eleita a 7.ª Maravilha de Portugal, portugueses e espanhóis coabitam em união. Quem por lá anda, entra em território do país vizinho sem dar por nada. As vizinhas conversam num castelhano perfeito mas pelas janelas abertas das casas, vê-se e escuta-se a emissão em direto do telejornal da RTP. Nas ruas estreitas, crianças que brincam à apanhada comunicam umas com as outras em castelhano, mas param para falar em português fluente com outros moradores.

Numa terra onde a fronteira “é um tracejado”, como explica José, centenas de visitantes estrangeiros foram recebidos de braços abertos. O parque de campismo de Rio de Onor estava cheio na véspera do eclipse e a fila de carros estacionados ultrapassava os limites da aldeia: antes da placa indicativa de chegada, amontoavam-se à beira da estrada os veículos com matrículas portuguesas, espanholas ou francesas.

Nas tendas, cafés ou no bar, o tema das conversas rondava sempre o eclipse, e o mesmo aconteceu na cidade de Bragança. Na véspera, a população juntou-se no Teatro Municipal para assistir a uma sessão de palestras sobre astronomia, arte e a vida no Espaço, protagonizada pelo astrónomo e comissário nacional do Eclipse 2026, Pedro Mota Machado, pelo poeta Rui Lage e ainda pelo diretor de operações do módulo europeu da Estação Espacial Internacional, João Lousada. Durante duas horas e com “casa cheia”, tornou-se claro que Bragança era, de facto, a “capital do eclipse”, como cunhada pela presidente da Câmara, Isabel Ferreira.

Um Sol (e o entusiasmo) em crescente antes da escuridão

Na tarde do eclipse, todos esperavam a “mordida”, o momento em que a Lua se começaria a impor sobre o Sol. Poucos segundos após as 18h35, foi essa a palavra ouvida vinda detrás de um telescópio volumoso. “Temos mordida” — e era finalmente altura de, num frenesim, todos colocarem os óculos nos olhos. Júlia veio dos Estados Unidos para isso.

“Estive em Brooklyn no eclipse de 2024. Não foi total, foi quase, mas foi emocionante ver uma cidade como Nova Iorque a parar, durante breves momentos, para olhar para o Sol”, relata. Quando descobriu por um amigo em Maiorca que iria haver uma ocultação do Sol na Península Ibérica, decidiu que ia assistir ao eclipse total. Veio visitar a mãe que vive em Valença, mas levou-a para passar algumas noites em Bragança. “Olhei para os dados da NASA e este é o melhor sítio no país para ver”, explica ao Observador.

Deixou a mãe entusiasmada para ver o que a natureza tem para lhe oferecer e, à margem da multidão, sentam-se numa rocha rodeada por silvas a observar o Sol e também as pessoas. A poucos metros, um casal neerlandês confessa ter sido apanhado de surpresa pelo eclipse que, “felizmente”, coincidiu com as suas férias no norte de Portugal. “Felizmente, eu trago sempre o meu equipamento de fotografia comigo. Adoro estas coisas”, partilha Jan, enquanto mostra algumas fotografias que a sua câmara, com filtro solar equipado e uma pintura camuflada, captou naqueles primeiros instantes de eclipse. Ao mesmo tempo, os especialistas da Ciência Viva mostram aos interessados o que os telescópios têm para revelar. “Está a andar mesmo rápido”, diz um deles.

Fátima partilha que não foi fácil estar presente no melhor ponto de observação do país. “Viemos de propósito do Porto para isto. Chegámos ontem, conseguimos um alojamento em Bragança em março e vimos a coisa preta, quando nos disseram que os acessos iam ser cortados”, confessa ao Observador. Para chegar a Rio de Onor, foi preciso passar por dezenas de checkpoints da GNR, que questionavam sempre o motivo da deslocação. Só pessoas com autorizações expressas ou residentes daquelas localidades é que podiam passar às barreiras impostas pelas autoridades, colocadas devido a um elevado risco de incêndio poucos dias antes do eclipse. “Ainda passámos pelo aeródromo, mas aquilo parecia um castigo. Por isso, fomos almoçar a Varge [localidade entre Bragança e Rio de Onor] e fomos falando com a polícia e pronto, aqui chegámos”, acrescenta. Em 1999, só viu o eclipse parcial e soube-lhe “a pouco”. Agora, espera que no momento da totalidade “fique tudo escuro”.

Se naquela curta faixa de estrada estavam dezenas, talvez poucas centenas de curiosos, o aeródromo de Bragança, a cerca de 20 minutos de distância de carro de Rio de Onor, albergava milhares. As pessoas começaram a chegar logo depois de almoço e, com toalhas, chapéus de sol e, num caso particular, uma tenda de campismo, cidadãos de toda a parte, entre portugueses, espanhóis e franceses marcavam os seus lugares na “primeira fila”. O calor foi o maior inimigo naquelas primeiras horas no recinto e levou a que grande parte da multidão se aglomerasse numa pequena tenda onde decorriam atividades didáticas organizadas pela Ciência Viva e diferentes ramos militares. Numa delas, era possível fazer uma máscara — óculos incluídos — para conseguir ver o eclipse e, ao mesmo tempo, honrar a tradição transmontana dos caretos. Cá fora, vendiam-se farturas e sandes.

Sentado na “primeira fila” atrás das grades que davam acesso à pista de aterragem e descolagem, estava Pedro, a filha e a neta. A sua máquina fotográfica estava equipada com um filtro improvisado: entre duas placas de esferovite, colocou uma folha de papel certificado que conferia todas as condições de segurança para a captação de imagens. Fez ainda outros dois engenhos semelhantes para a filha poder tirar fotografias com o telemóvel. “E ainda não lhe cobrei pelo trabalho!”, diz ao Observador. Aos 85 anos, Pedro coleciona centenas de relógios solares. Desde a idade do bronze até dispositivos mais modernos, guarda os símbolos do seu fascínio pela astronomia numa cave. “Chamo-lhe o meu pequeno estúdio. Mas para lá entrar é preciso ir com cuidado, porque aquilo está muito desorganizado”, conta. Não se recorda exatamente do eclipse total que viu, apenas que foi em França, mas visitou várias vezes uma cidade perto da fronteira espanhola para eventos de observação organizados pela sociedade astronómica francesa. Este 12 de agosto, só quer partilhar o momento com a filha e com a neta, que “tiveram” de o levar a Bragança desde Viseu para ver o eclipse.

Do “foi porreiro” ao “once in a lifetime”. Sol pôs-se ao som das palmas

Do alto do monte entre Rio de Onor e Guadramil, com vista para Bragança e Espanha, também se viu o Sol esconder-se atrás da Lua. “Foi porreiro”, soltou Rúben, de Castelo Branco, na reta final de ocultação. Os amigos pediram ao Observador para ignorar os comentários porque, ao contrário do que o jovem disse, tinha sido “maravilhoso”. “Faltam-me palavras para descrever aquilo que aconteceu”, continuou, incrédula, uma rapariga ainda sentada na toalha onde passou o final de tarde.

Os fotógrafos amadores e os donos de telescópios relaxaram depois do “momento mais tenso”. “Agora ainda tenho de ir ver o filme todo quando voltar, mas acho que para primeiro eclipse fizemos um bom trabalho”, confessa um dos profissionais da Ciência Viva. Com um fundo totalmente negro e uma auréola prateada — porque a câmara só dispara a preto e branco —, veem-se imagens de um Sol quase incolor, mas marcado pelas características explosões solares vermelhas que conseguiram escapar à ocultação da Lua.

Júlia afirma, com convicção, que aquilo que acabou de viver foi, “sem dúvida”, melhor que o momento em Brooklyn há cerca de dois anos. “Não há nada que se compare àquilo que acabámos de ver”, partilha. Mostrou, também, uma série de Polaroids que tirou ao longo do período em que o Sol ia “perdendo as forças”. Mesmo sem um filtro equipado na câmara, não se mostra preocupada. “Isto é um evento once in a lifetime. Não é pelos 100 dólares da máquina que vou ficar chateada”, comenta, enquanto empunha as várias fotografias impressas.

Ainda o Sol estava crescente quando as pessoas começaram a abandonar o monte. “Quando é que voltaremos a ter uma oportunidade como esta?”, questionou uma delas. O relógio já marcava as 20h19 quando o Sol, ainda parcialmente coberto pela Lua, fugiu para lá dos montes de Bragança. Poucos restavam, mas, ainda assim, escutaram-se as últimas palmas. Em Portugal, o próximo eclipse solar total só chegará em 2144.