Passou parte da tarde a observar o eclipse com os óculos de proteção e, quando tudo acabou, ficou com os olhos cansados, uma sensação de peso sobre as pálpebras, alguma pressão na cabeça ou uma dorzinha que não estava lá antes? Isso não significa que tenha lesionado os olhos ao olhar para o Sol. Depois de uma observação tão fora do habitual, há sintomas de fadiga e desconforto ocular que podem surgir sem existir uma queimadura da retina. A questão mais importante é perceber se alguma coisa mudou na maneira como vê. Os outros sintomas vão desaparecer.
A dúvida foi partilhada por muita, muita gente. Enquanto milhões de europeus acompanhavam o eclipse desta quarta-feira, as pesquisas no Google por “eyes hurt” — “doem-me os olhos” — aumentaram 5.000% em relação ao mesmo período da semana anterior, segundo dados do Google Trends citados pelo The Guardian na cobertura em direto do eclipse. O pico ocorreu às 19h08 em Londres, praticamente em simultâneo com o máximo do eclipse na região. O número, naturalmente, não mede lesões: mede pesquisas. Mas mostra que, enquanto o Sol desaparecia, muitos começaram a fazer exatamente a mesma pergunta, porque sentiam algum incómodo ou algum medo.
Porque podem os olhos ficar cansados mesmo quando usamos proteção?
A primeira coisa importante é não confundir desconforto ocular com uma lesão da retina. A Academia Americana de Oftalmologia, através da EyeWiki, inclui no amplo conjunto de manifestações de desconforto ocular o esforço visual, a sensação de peso, dor em redor dos olhos, fadiga e dor de cabeça. Existe até um nome médico para a fadiga ou desconforto associados ao uso dos olhos: astenopia. Pode manifestar-se através de olhos cansados ou doloridos, dificuldade em mantê-los abertos, sensibilidade à luz e cefaleias.
E um eclipse obriga-nos a fazer algo muito diferente da nossa rotina visual. Durante bastante tempo procuramos o Sol no céu, fixamos repetidamente o olhar no mesmo ponto, tiramos os óculos para olhar em redor e voltamos a colocá-los para observar o eclipse e, muitas vezes, mantemos a cabeça inclinada para trás durante períodos prolongados. Tudo isto pode contribuir para uma sensação de esforço ou desconforto. Olhos cansados, peso em redor dos olhos ou uma dor de cabeça isolados não são, portanto, um diagnóstico de retinopatia solar.
Há outra distinção essencial: se os óculos eram próprios para observar o Sol, estavam intactos e foram utilizados corretamente, foram concebidos precisamente para permitir essa observação em segurança. O National Eye Institute, dos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos, recomendava os filtros solares específicos que cumprissem a norma internacional ISO 12312-2. Óculos de sol normais, por mais escuros que sejam, não oferecem a mesma proteção.
Isto ajuda a explicar por que alguém pode terminar o eclipse com uma sensação estranha nos olhos apesar de ter feito tudo corretamente. Sentir desconforto não equivale a ter sofrido uma queimadura solar da retina ou outra lesão grave.
Mas há um limite importante para ficar completamente tranquilo.
Quando é que deixa de ser apenas desconforto?
Mais do que perguntar “doem-me os olhos?”, há outra pergunta que ajuda a distinguir as duas situações: está a ver exatamente da mesma maneira que via antes do eclipse?
A retinopatia solar — também conhecida como retinopatia fótica ou, historicamente, “retinopatia do eclipse” — é uma lesão dos tecidos da retina provocada por uma exposição intensa à luz. Está particularmente associada a olhar diretamente para o Sol e à observação inadequadamente protegida de eclipses. Os sintomas aparecem geralmente nas horas seguintes e podem atingir um ou, mais frequentemente, os dois olhos. A Academia Americana de Oftalmologia refere sobretudo visão desfocada e o aparecimento de uma zona cega central ou próxima do centro da visão; podem também ocorrer alterações das cores, objetos que parecem mais pequenos e linhas ou formas que passam a parecer distorcidas.
O National Eye Institute enumera igualmente visão desfocada, sensibilidade à luz, manchas escuras ou pontos cegos no centro da visão, alterações na perceção das cores e sensação de pressão no olho. E deixa um aviso sobre esta noite: os sintomas podem não aparecer imediatamente. Podem desenvolver-se gradualmente ao longo das horas ou mesmo dos dias seguintes.
É por isso que convém distinguir peso ou tensão à volta dos olhos e da cabeça, que podem acompanhar a fadiga ocular, de uma sensação persistente de pressão no próprio olho, sobretudo quando surge juntamente com alterações visuais. Esta última não deve ser automaticamente atribuída ao cansaço.
Existe ainda outra lesão possível, diferente da retinopatia: a fotoceratite, uma espécie de queimadura da superfície ocular provocada por radiação ultravioleta intensa. Nesse caso, os sintomas são diferentes e podem incluir dor, olhos vermelhos, lacrimejar e sensação de areia nos olhos. Geralmente é temporária, mas pode ser bastante desconfortável.
E se os óculos eram mesmo certificados?
É uma das perguntas que provavelmente muita gente fará depois desta quarta-feira: “Usei os óculos durante todo o eclipse. Posso ter feito mal aos olhos na mesma?”
Quando o filtro é adequado, está intacto e é utilizado corretamente, a observação é considerada segura. É precisamente para isso que existem estes filtros. A recomendação do National Eye Institute é clara: os filtros destinados à observação solar devem cumprir a ISO 12312-2, enquanto óculos de sol comuns, filtros danificados ou métodos improvisados não permitem olhar diretamente para o Sol em segurança.
Há um episódio histórico relativamente recente que ajuda a perceber a diferença. Depois do eclipse total de 11 de agosto de 1999, França criou um sistema nacional de vigilância das lesões oculares. Mais de 30 milhões de óculos adequados tinham sido distribuídos e os investigadores pediram informação aos 5.600 oftalmologistas e a cerca de 500 serviços hospitalares de urgência do país. Foram notificados 147 casos de lesão da retina relacionada com o eclipse, 17 dos quais graves.
Mas o dado talvez mais esclarecedor é outro. Entre as pessoas estudadas, 100 tinham observado o eclipse sem qualquer proteção, 74 disseram ter retirado os óculos durante a observação e 32 recorreram a dispositivos inadequados. Entre os doentes com lesão da retina, apenas quatro declararam ter usado os óculos próprios durante todo o tempo em que observaram o eclipse. Os investigadores concluíram que a qualidade e disponibilidade dos óculos não tinham contribuído de forma significativa para as lesões registadas.
Ou seja: os óculos não são um mero acessório para tornar o Sol menos brilhante. São a barreira que impede que uma quantidade perigosa de radiação chegue à retina.
1912: quando Portugal ainda não tinha estes óculos
Portugal conhece há mais de um século o outro lado desta história. A 17 de abril de 1912, outro eclipse solar atravessou a Península Ibérica e levou multidões para as ruas e para os locais de observação. Em Portugal, o fenómeno ficou particularmente associado a Ovar, onde se concentraram expedições científicas portuguesas e estrangeiras.
A diferença para 2026 era enorme: não existiam os filtros solares certificados que esta quarta-feira vimos espalhados pelo país depois de uma procura insana e constantes dias esgotados. A observação popular recorria a soluções improvisadas que hoje sabemos não oferecerem garantias de segurança — entre elas vidros escurecidos ou fumados e outros materiais que diminuíam o brilho aparente do Sol sem assegurar a filtragem necessária da radiação.
O Jornal de Notícias, ao recuperar a história do eclipse de 1912, refere que aquele eclipse ficou associado na Europa a um dos maiores surtos históricos de lesões oculares relacionadas com a observação de eclipses, com milhares de pessoas afetadas.
Não há dados concretos sobre esses “milhares de portugueses cegos”. Nem “lesão ocular” significa necessariamente cegueira total. A expressão popular “cegueira do eclipse” abrange aquilo a que hoje chamamos retinopatia solar, cuja gravidade varia e que pode provocar desde défices relativamente ligeiros até alterações permanentes da visão.
É precisamente o contraste entre 1912 e 2026 que torna o episódio tão revelador. Há 114 anos, uma multidão podia olhar para um eclipse através de um vidro fumado convencida de que estava protegida porque o Sol já não encandeava. Hoje sabemos que reduzir a luz visível não basta. A proteção tem de bloquear a radiação solar até níveis considerados seguros.
O que aconteceu em 1999 também mostra que preocupação não é o mesmo que lesão
Os eclipses produzem ainda um fenómeno que não acontece dentro do olho: produzem medo de ter lesionado os olhos.
Isso ajuda a interpretar o aumento de 5.000% nas pesquisas por “eyes hurt” desta quarta-feira. Depois do eclipse europeu de 1999 houve igualmente uma enorme procura de informação e de cuidados médicos. A experiência francesa mostrou que existiram lesões reais e algumas graves, mas também que os casos estavam fortemente associados a observação sem proteção, retirada dos óculos ou utilização de métodos inadequados.
Portanto, o pico do Google desta quarta-feira não nos diz quantas pessoas lesionaram os olhos. Diz-nos quantas começaram a preocupar-se com eles.
O que devo fazer se estou a sentir alguma coisa?
Se usou corretamente óculos próprios para o eclipse e neste momento sente apenas algum cansaço, peso em redor dos olhos ou dor de cabeça, mas continua a ver normalmente, esses sintomas isolados não permitem concluir que sofreu uma lesão da retina.
Pode fazer uma verificação simples daquilo que vê — não para fazer um diagnóstico em casa, mas para perceber se existe alguma alteração evidente. Tape alternadamente um olho e depois o outro e observe um texto ou um objeto familiar. A nitidez é igual nos dois olhos? Existe alguma mancha no centro? Alguma zona parece desfocada? As linhas direitas continuam direitas? As cores parecem iguais? Se a resposta for sim e não existe nenhuma alteração visual, isso é tranquilizador.
Mas se aparecer visão desfocada persistente, uma mancha cinzenta ou escura, um ponto cego no centro da visão, linhas que parecem onduladas, alteração das cores ou perda de visão, deve procurar um oftalmologista. E atenção que uma lesão da retina não tem necessariamente de provocar uma dor proporcional ao dano, e os sintomas podem surgir algum tempo depois da exposição.
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