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(A) :: “Matar ou ser morta": Diallo escolheu a primeira opção e tornou-se medalha de bronze europeia em 400 metros barreiras

“Matar ou ser morta": Diallo escolheu a primeira opção e tornou-se medalha de bronze europeia em 400 metros barreiras

A atleta de 26 anos cumpriu a promessa que tinha feito antes da prova: queria um recorde pessoal e uma medalha. À sua frente ficaram as atletas eslovaca Emma Zapletalová e a britânica Emily Newnham.

Manuel Conceição Carvalho
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Fatoumata Diallo acabou de escrever mais um capítulo de uma das mais improváveis histórias do atletismo português. Na final dos 400 metros barreiras dos Campeonatos da Europa, em Birmingham, a atleta de 26 anos, natural da Guiné-Conacri e formada no Clube Oriental de Pechão, conquistou a medalha de bronze na final da prova e ainda melhorou o recorde nacional, elevando a fasquia de 54,31 para os 53,55 segundos.

“Eu sonhei e eu trabalhei por isso. Não consigo acreditar que aconteceu, mas eu trabalhei. Acredito e, ao mesmo tempo, não acredito. Nunca me senti tão apoiada pela equipa. Muita gente estava aqui da equipa e muitos deles têm de competir amanhã. Sinto-me incrível. Todo este trabalho e sofrimento não foram em vão. Nada muda, vou continuar a trabalhar e vou continuar a sonhar. Estou muito motivada e o meu treinador tornou as coisas mais fáceis”, afirmou poucos minutos depois da prova. Questionada pela RTP se já tinha trincado a medalha e a que esta sabia, a atleta revelou que sabia a “suor, sofrimento e dor de todos os dias, mas também sabe a reconhecimento”.

A qualificação para a final já tinha sido, por si só, um feito. Na última terça-feira de manhã, no Alexander Stadium, Diallo terminou em segundo lugar na sua série com o tempo de 54,34 segundos, resultado que lhe valeu o sétimo lugar da classificação geral e o apuramento direto para a final. Esta foi a segunda final em Europeus ao ar livre para Fatoumata Diallo, depois do oitavo lugar em Roma, em 2024. Antes de entrar na pista para as meias-finais, revelou uma conversa com o seu treinador Felipe Siqueira: “O meu treinador disse-me que tinha de matar ou ser morta. Se não desse tudo, ficava fora e isso ficou-me na cabeça. Tinha de dar tudo e dei, para conseguir o mais importante que era passar à final. Agora, espero um recorde pessoal ou uma medalha”. Conseguiu as duas coisas.

A história de Fatoumata Diallo até esta medalha é mais longa do que uma corrida — e mais difícil do que qualquer barreira numa pista. Nascida na Guiné-Conacri, chegou a Portugal em 2012, para se juntar aos pais em Olhão, depois de ter crescido sem eles: vieram para Portugal quando ela tinha cinco anos. “Não tive uma infância como toda a gente. Em África já era adulta”, disse numa entrevista à agência Lusa, em 2023. A infância incluiu episódios de maus-tratos e abusos, e Diallo guarda “cicatrizes no corpo” desse período. “Transformei toda esta raiva no atletismo, sempre a trabalhar, trabalhar, e a não ligar ao que os outros dizem”, afirmou.

O atletismo entrou na sua vida por acidente feliz. Foi Paulo Murta, treinador do Clube Oriental de Pechão, quem a abordou depois de a ver correr no desporto escolar: “Perguntou-me se queria fazer atletismo. Eu disse que sim, sempre quis fazer atletismo, já em África, em que corria muito, até porque a escola era longe”. A partir desse momento, Diallo percorria a pé a distância de Olhão até Pechão para poder ir aos treinos — mesmo sem o apoio dos pais. Murta não foi apenas o treinador: “Ajudou muito dentro e fora do desporto. Lembro-me que, quando ia a um campeonato da Europa com a Ana Cabecinha, comprava-me umas sapatilhas. Nunca me tinham dado umas prendas assim”, recordou.

Quando a avó sofreu um AVC no Algarve, no final de 2018, Diallo começou a acumular lesões enquanto dividia o tempo entre a escola, os treinos e o hospital. Decidiu seguir os pais para Paris, onde conheceu o treinador Joel Batori e onde hoje treina. Em 2025, já com Felipe Siqueira como técnico, bateu o recorde nacional nas meias-finais dos Mundiais de Tóquio, com 54,45 segundos, sem avançar para a final. Em maio de 2026, venceu os 400 metros barreiras no Irena Szewińska Memorial, na Polónia, com o tempo de 55,27 segundos. Chegou a Birmingham com o recorde nacional partilhado em 54,31 segundos e com a ambição declarada de uma medalha.

“Posso mesmo sonhar ir longe. A cada esforço que faço sei que posso ir muito mais longe“, disse à Lusa. Esta quarta-feira, no Alexander Stadium, em Birmingham, Fatoumata Diallo provou que tinha razão.

Diallo não foi a única portuguesa a competir em mais um dia de Europeus de atletismo em Birmingham. De manhã, Liliana Cá garantiu presença na final do lançamento do disco, marcada para sexta-feira, com um arremesso de 61,86 metros na primeira tentativa — o quinto melhor da qualificação. Irina Rodrigues, na mesma prova, encerrou a sua sétima presença nos Europeus, um recorde entre as portuguesas, eliminada na 16.ª posição com 57,46 metros. Diogo Barrigana ficou pelas meias-finais dos 400 metros barreiras: depois de se ter estreado em Europeus com 49,77 segundos nas eliminatórias de terça-feira, correu hoje em 50,01 e não chegou à final. Carina Vanessa foi eliminada nas eliminatórias dos 400 metros, terminando em 18.º. Pedro Pablo Pichardo, que procurava o segundo título europeu do triplo salto, conseguiu a qualificação para a final num único salto de 17 metros e 16 centímetros. Tiago Pereira, que saltou na mesma qualificação, falhou a final.

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