“Soy Cuba”
Realizado em Cuba em 1963 pelo russo Mikhail Kalatozov (Quando Passam as Cegonhas) ao abrigo da amizade entre este país e a URSS, mas numa altura em que as relações entre Havana e Moscovo estavam tensas por causa da Crise dos Mísseis, Soy Cuba é um filme de exaltação da revolução cubana e do comunismo, composto por quatro histórias, que vão dos últimos dias do regime de Fulgencio Batista ao triunfo dos castristas, e realizado com enorme arrojo técnico e inventividade visual. Foi, no entanto, mal recebido em Cuba, por “estereotipar os cubanos”, e na URSS, por ser “insuficientemente revolucionário”, e nunca estreou no Ocidente. Nos anos 90, após Soy Cuba ter passado em festivais nos EUA e sido visto por Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, estes começaram a promovê-lo com entusiasmo, o que levou à compra dos seus direitos e ao restauro digital por uma distribuidora de Nova Iorque, em 2005. A Mosfilm faria também um restauro, em 2020. Se o seu conteúdo ideológico é raso e simplista, por vezes até embaraçoso de tão ridículo (ver a sequência em que o estudante rebelde lidera uma multidão furiosa em Havana, levando nas mãos uma pomba branca morta a tiro pela polícia), mesmo que apresentado em tom épico, Soy Cuba, inspirado pelo cinema soviético vanguardista e revolucionário dos anos 20 e 30, permanece uma fita notável de imaginação, destreza e impacto cinematográfico puro.
https://www.youtube.com/watch?v=BwEabZrGFfI
“Reflexo num Diamante Morto”
De James Bond e dos seus muitos epígonos a OSS 117, Hitchcock e aos filmes policiais italianos dos anos 70 e 80, os giallos, passando por bandas desenhadas como Diabolik ou Modesty Blaise, Reflexo num Diamante Morto, assinado pela dupla Hélène Cattet/Bruno Forzani, é parte pastiche, parte homenagem, parte desconstrução “pós-contemporânea” de todas estas referências cinematográficas e gráficas, feita em estilo de Bimby caleidoscópico-psicadélico-estroboscópico, com várias camadas “meta” e inspiração tarantinesca. O quase nonagenário Fabio Testi interpreta John D., um famoso e distinto agente secreto reformado que vive num hotel de luxo na Côte d’Azur. Quando a misteriosa mulher do quarto ao lado desaparece, ele vê-se confrontado com os demónios, os acontecimentos e as paixões do seu aventuroso passado, sobretudo os combates com a enigmática e mortífera Serpentik. Durante 20 minutos, Reflexo num Diamante Morto tolera-se enquanto exercício de estilo cinéfilo, pop e estetizante. Mas depois, e como dizia o outro, “desconstrução a mais, é demais”, e a fita torna-se repetitiva e fatigante, para já não dizer incompreensível. Cattet e Forzani, sempre mantendo este registo, podiam perfeitamente ter feito um filme mais “clássico”, linear e legível se assim tivessem querido, porque não lhes faltam nem ideias, nem capacidade cinematográfica. Maria de Medeiros aparece num pequeno papel.
https://www.youtube.com/watch?v=sdZXSyrdiEI
“O Fim de Oak Street”
Realizado por David Robert Mitchell (autor de Vai Seguir-te e de O Mistério de Silver Lake) e produzido por J.J. Abrams, O Fim de Oak Street passa-se nos anos 80, num característico e plácido subúrbio de classe média americana, em pleno Verão. É lá que mora a família Platt: o pai Greg (Ewan McGregor), a mãe Denise (Anne Hathaway) e os dois filhos adolescentes, Audrey e Brian, mais o cão Starbucks. As coisas não vão bem entre Greg e Denise. Ele foi despedido e está a entregar pizzas para trazer algum dinheiro para casa, e ela sente-se cada vez mais frustrada e está a escrever um livro às escondidas. Uma noite, após uma enorme tempestade estival, dá-se um estranho acontecimento cósmico, e quando os Platt, e os seus vizinhos, acordam, percebem que o bairro foi transportado para o mundo pré-histórico. A família e os outros moradores vão ter que fazer tudo para conseguirem sobreviver aos dinossauros que andam pelo bairro. O Fim de Oak Street foi escolhido como filme da semana pelo Observador.