Duas famílias palestinianas estão cercadas desde domingo, na vila de Qusra, na Cisjordânia, por colonos israelitas. As Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla inglesa) dizem que estão a proceder à retirada dos atacantes, mas ainda se encontram algumas infraestruturas no local, assim como alguns colonos.
“Fomos surpreendidos quando colonos montaram uma tenda diretamente em frente à nossa casa e bloquearam a estrada de acesso, tornando extremamente difícil chegar a casa ou trazer necessidades básicas. Eles também impediram qualquer pessoa de entregar alimentos, medicamentos ou outros bens essenciais às pessoas que estão dentro de casa“, denuncia Qusai Ridi, uma das pessoas que se encontra refém, no Facebook. A publicação é acompanhada de um vídeo, gravado a partir da sua casa, que mostra vários colonos do lado de fora, com uma tenda montada.
Encontram-se cercadas duas famílias, num total de sete pessoas, incluindo duas menores. Os colonos cortaram a eletricidade e a água às famílias, denunciou a organização israelita de direitos humanos Yesh Din na terça-feira, no X. A organização também lamenta que o exército israelita “tenha falhado em terminar o cerco ou aplicar a lei contra os colonos” e denunciou que um dos soldados foi filmado a orar com os colonos antes de sair, algo também referido pela agência de notícias palestiniana Wafa no domingo.
A Yesh Din pediu também ao chefe do Comando Central das IDF para que o exército “proteja os residentes cercados, evacue o posto avançado e que responsabilize os colonos”.
Na manhã desta quarta-feira, os comandantes do Comando Central das IDF, da divisão regional e da Polícia de Fronteira deslocaram-se à aldeia. Segundo a BBC e a Reuters, as forças israelitas retiraram-se do local após confrontos com os colonos, que envolveram a utilização de gás lacrimogéneo e granadas de atordoamento contra os atacantes.
As autoridades militares e policiais afirmam que falaram com uma das famílias cercadas que lhes terá assegurado que “a casa dispõe de infraestruturas de eletricidade e água”, apesar das denúncias feitas pela Yesh Din e pelos residentes nas redes sociais.
No entanto, as IDF asseguram no X que a tenda onde se encontravam os colonos foi evacuada e que “estão a atuar para retirar os cidadãos que lá se encontravam”. Além disso, “foi decidida a aplicação de medidas disciplinares contra a força envolvida que foi filmada no local há alguns dias”, referindo-se à denúncia feita pela organização de direitos humanos que relatou que um dos soldados foi filmado a orar com os colonos.
“Durante a visita, os comandantes consideraram com gravidade as ações praticadas por cidadãos israelitas contra a família palestiniana e ordenaram uma série de medidas a serem tomadas”, acrescentam as IDF.
https://twitter.com/idfonline/status/2087436597507567951
No dia anterior, na terça-feira, as IDF tinham condenado nas redes sociais o cerco, afirmando que se tratava de “uma atividade ilegal, repreensível e inválida que prejudica os moradores das aldeias e o seu quotidiano”, e que iria proceder às diligências necessárias para punir os responsáveis, incluindo militares que tenham participado no cerco a Qusra e noutras localidades. Além disso, o exército israelita anunciou o controlo de entradas na área.
Qusai Ridi, um dos reféns que tem denunciado a situação nas redes sociais, apela também às autoridades, organizações de direitos humanos e internautas para intervirem na situação, e afirmou na terça-feira que os bens estavam a escassear. Num vídeo divulgado pela Yesh Din, o palestiniano mostrava que a água foi cortada pelos colonos e que os únicos alimentos que sobraram foram pão e alguns vegetais.
https://twitter.com/Yesh_Din/status/2087262075525411179
Outra das reféns, Aysha Hassan, que vive noutra das casas cercadas, disse à Reuters que tentaram arrombar o portão da casa. “Começaram a atirar-nos pedras e a insultar-nos. Estamos a morrer de medo”, denuncia.
O cerco começou no domingo, quando um grupo de colonos derrubou um muro em frente à casa da família de Ridi e bloqueou a estrada com pedras, explicam Qusai e a BBC. A casa do palestiniano, que pertence ao irmão que vive nos Estados Unidos, já tinha sido alvo de ataques há quatro meses, refere a Wafa. A área está cercada, tendo jornalistas do jornal israelita Haaretz sido também impedidos de entrar para reportar o caso.
As famílias cercadas vivem na chamada Área B da Cisjordânia, cuja administração é assegurada pelas autoridades palestinianas e a segurança é garantida por Israel. A zona específica onde se encontram foi declarada zona militar fechada pelas IDF em junho, refere o The Times of Israel, mas “os colonos foram autorizados a permanecer” pelo exército, afirma a Al Jazeera. No entanto, no final do dia de terça-feira, foi permitida a entrada de uma ambulância na área para entregar alimentos e dar tratamento médico a uma das menores, refere a BBC.
A vila de Qusra, assim como outras localidades da Cisjordânia, tem sido alvo de repetidos ataques por parte de colonos israelitas. No mês passado, uma mesquita foi incendiada, lembram a Al Jazeera e a BBC.
Na terça-feira, o coordenador especial adjunto da ONU para o Processo de Paz no Médio Oriente, Ramiz Alakbarov, alertou que a Cisjordânia está “à beira do colapso” devido à ocupação israelita e referiu que, desde o início do ano, foram registados mais de 1.430 incidentes com colonos na região. Os ataques provocaram 76 mortos, incluindo 18 menores, e cerca de 3.800 deslocados.
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