Há fenómenos curiosos na natureza. O movimento dos planetas, as marés, as migrações das aves, as formigas a trabalhar em fila e, aparentemente, a nossa extraordinária capacidade de formar filas sem fazer a mais pequena ideia do que estamos à espera.
Ao longo dos anos tenho reparado, com alguma perplexidade e alguma ironia, num fenómeno social que me parece cada vez mais evidente: basta que algumas pessoas se encaminhem numa determinada direcção para que, pouco depois, muitas outras comecem a caminhar exactamente para o mesmo sítio.
Não porque tenham pensado particularmente no assunto. Não porque tenham descoberto uma necessidade que desconheciam. Às vezes nem sequer sabem muito bem para onde vão.
Mas vão.
Porque os outros vão.
É uma característica humana antiga, naturalmente. A psicologia social tem nomes bastante respeitáveis para isto: conformismo social, influência social, prova social, influência normativa, comportamento de manada. Termos científicos que, traduzidos para linguagem de café, talvez se possam resumir a: “Se tanta gente está a fazer, alguma razão há de haver.”
E, se não houver, pelo menos não ficamos sozinhos.
A misteriosa fila para lado nenhum
Um dos exemplos mais interessantes é precisamente o da fila que se forma sem um propósito definido.
Imagine-se uma rua onde não existe absolutamente nada de especial. Uma pessoa pára num determinado ponto e fica ali.
Chega outra.
Olha para a primeira.
Não sabe o que está a acontecer, mas conclui que aquela pessoa provavelmente sabe alguma coisa que ela própria desconhece.
Fica também.
Chega uma terceira. Vê duas pessoas.
“Deve ser uma fila.”
E entra.
Pouco depois temos dez pessoas perfeitamente convencidas de que existe uma razão para estarem ali, embora nenhuma delas saiba qual.
É quase uma pequena experiência sociológica espontânea.
O primeiro indivíduo criou uma dúvida. O segundo transformou a dúvida em hipótese. O terceiro transformou a hipótese numa regra. E os seguintes já encontram a regra pronta.
É aquilo a que a psicologia chama influência social informacional: perante uma situação ambígua, usamos o comportamento dos outros como informação.
O problema é que, às vezes, os outros também estão a usar-nos a nós como informação.
E assim nasce uma certeza colectiva a partir de uma sucessão de incertezas individuais.
“Toda a gente está a fazer”
Esta frase merece talvez um lugar especial no nosso património cultural.
“Toda a gente está a fazer.”
“Está toda a gente a ir.”
“Está toda a gente a falar disso.”
“É onde toda a gente quer ir.”
“É o restaurante que está na moda.”
“É a série que toda a gente está a ver.”
“É impossível não conhecer.”
A certa altura, já não precisamos de saber se gostamos da coisa.
O facto de muita gente gostar começa a ser considerado uma razão suficiente para nós próprios gostarmos.
É aqui que aparece a chamada prova social: se muitas pessoas escolheram alguma coisa, tendemos a interpretar essa escolha como uma indicação de que a coisa é boa, importante ou desejável.
E as redes sociais vieram tornar tudo isto extraordinariamente eficiente.
Antigamente alguém dizia:
“Toda a gente conhece.”
Hoje podemos verificar quantas pessoas deram “gosto”.
Antigamente alguém dizia:
“Toda a gente quer ir.”
Hoje vemos as fotografias de quem já foi.
Antigamente era preciso acreditar na opinião dos outros.
Hoje temos números.
Milhares de gostos.
Milhões de visualizações.
Centenas de comentários.
E, de repente, a popularidade parece ter-se transformado numa espécie de argumento lógico.
Antes, “toda a gente gosta” era uma opinião. Hoje, “toda a gente gosta” vem acompanhado de um contador.
Uma publicação com sete “gostos” e outra com setenta mil podem conter exactamente a mesma ideia, mas a segunda chega-nos acompanhada de uma espécie de certificado social de importância.
Transformámos a popularidade numa métrica e, por vezes, começámos a confundir a dimensão do aplauso com o valor daquilo que está a ser aplaudido.
E agora… o eclipse
Chegamos então ao eclipse.
Não há qualquer dúvida de que um eclipse solar é um fenómeno extraordinário. É perfeitamente razoável que alguém tenha interesse em observá-lo. Aliás, seria estranho que um acontecimento astronómico desta natureza passasse completamente despercebido.
Mas há qualquer coisa de divertida na transformação de um fenómeno astronómico num acontecimento social.
E aqui não podemos ignorar um dos grandes protagonistas deste processo: a comunicação social.
Começamos por ouvir falar do eclipse.
Depois ouvimos novamente.
E outra vez.
Televisões, rádios, jornais, sites e redes sociais dedicam-lhe espaço. Explica-se onde será visível, a que horas, quais os melhores locais para o observar, que cuidados devemos ter, onde haverá maior duração, como estará o tempo e até onde ainda será possível encontrar alojamento.
Compreensivelmente. É um acontecimento raro, visualmente extraordinário, com uma hora marcada e uma enorme capacidade de gerar interesse.
Mas há aqui uma consequência curiosa.
O eclipse deixa de ser apenas um fenómeno astronómico que vai acontecer no céu.
Passa a ser um acontecimento mediático.
E começa a formar-se um circuito de retroalimentação:
quanto mais os meios de comunicação falam do eclipse, mais importante ele parece; quanto mais importante parece, mais as pessoas falam dele; quanto mais as pessoas falam dele, mais material existe para os meios de comunicação continuarem a falar.
E assim, pouco a pouco, o acontecimento astronómico transforma-se num acontecimento social.
Depois entram as redes sociais.
Centenas de pessoas publicam que estão a preparar-se.
Outras mostram onde vão estar.
Outras compram equipamento.
Outras partilham mapas.
Outras publicam fotografias.
E nós vemos tudo isso.
De repente, não estamos apenas perante um eclipse.
Estamos perante um eclipse que milhares de pessoas estão a mostrar que consideram importante.
E isso pode criar outro efeito circular:
as pessoas mostram que estão interessadas → nós vemos que muitas pessoas estão interessadas → isso reforça a nossa percepção de que o acontecimento é importante → mais pessoas querem participar → mais pessoas publicam → e a percepção colectiva de importância cresce.
O eclipse continua no “céu”.
A amplificação está cá em baixo.
O curioso caso do “não posso perder”
E é aqui que talvez aconteça a transformação mais interessante.
Começamos por ouvir:
“Vai haver um eclipse.”
Muito bem.
Depois:
“Vai haver um eclipse visível em Portugal.”
Interessante.
Depois:
“É um eclipse muito especial.”
Já estamos atentos.
Depois:
“Toda a gente está a preparar-se para ver o eclipse.”
E finalmente:
“Não posso perder o eclipse!”
O eclipse, entretanto, não mudou.
A Lua não ficou mais espectacular porque aumentaram as reservas de hotéis. O Sol não ganhou propriedades adicionais porque apareceram milhares de pessoas com óculos especiais. O fenómeno astronómico continua exactamente a ser aquilo que era antes de aparecer nas notícias, nas redes sociais e nas conversas de café.
O que mudou foi a percepção social da importância do acontecimento.
Uma experiência que poderia ser simplesmente:
“Gostava de ver isto.”
transforma-se subtilmente em:
“Tenho de ver isto.”
E, por vezes, até:
“Como é que alguém pode não querer ver isto?”
Ora aí entramos numa espécie de território psicológico muito curioso.
Porque o interesse deixou de ser apenas individual. Tornou-se uma norma social.
O medo de ficar de fora
Há ainda uma palavra moderna para uma coisa bastante antiga: FOMO – Fear Of Missing Out, o medo de ficar de fora.
Não queremos necessariamente aquilo que os outros têm.
Queremos, muitas vezes, não ser a única pessoa que não teve aquilo que os outros tiveram.
É uma diferença enorme.
Talvez não estivéssemos particularmente interessados naquele restaurante. Mas agora toda a gente fala dele.
Talvez não tivéssemos vontade de ir àquele lugar. Mas vemos fotografias de toda a gente lá.
Talvez não quiséssemos ver determinado programa. Mas descobrimos que somos praticamente a única pessoa que não viu.
E subitamente nasce uma necessidade que não existia antes.
Não necessariamente a necessidade de participar.
A necessidade de não ficar de fora.
É um mecanismo extraordinariamente eficaz.
O problema não é ir. É não saber porquê.
É perfeitamente compreensível alguém dizer:
“Quero ver o eclipse porque é um fenómeno astronómico extraordinário.”
Óptimo.
Mas há uma pergunta que vale a pena fazer:
“Vou porque quero?”
Ou:
“Vou porque toda a gente vai?”
As duas respostas podem produzir exactamente o mesmo comportamento.
Por fora, não conseguimos distingui-las.
A pessoa que estudou astronomia e esperou anos por aquele momento está ao lado da pessoa que decidiu ir porque viu nas redes sociais que “ninguém pode perder isto”.
Ambas estão de olhos postos no céu.
Mas chegaram ali por caminhos psicológicos muito diferentes.
E se isto não for apenas sobre eclipses?
É aqui que a coisa começa a ficar menos divertida.
Porque o fenómeno é relativamente inofensivo quando falamos de um eclipse, de um restaurante da moda ou de uma fila à porta de uma loja.
Mas o mesmo mecanismo pode aparecer em praticamente todos os domínios da vida.
Compramos porque vemos que os outros compram.
Escolhemos destinos turísticos porque se tornaram destinos “obrigatórios”.
Adoptamos determinadas modas ou estilos de vida porque parecem ser aquilo que toda a gente está a fazer.
Escolhemos determinadas carreiras ou percursos porque são os que parecem socialmente valorizados.
Nas redes sociais, publicamos aquilo que sabemos que provoca reacção e, depois, passamos a produzir cada vez mais aquilo que os outros demonstram querer ver.
E há terrenos ainda mais delicados.
Uma opinião repetida milhares de vezes pode começar a parecer mais verdadeira simplesmente porque é repetida milhares de vezes.
Uma posição aparentemente maioritária pode levar alguém que ainda não formou opinião a aproximar-se dela.
E, em determinadas circunstâncias, até escolhas políticas, económicas ou financeiras podem sofrer a influência deste mesmo mecanismo de comportamento colectivo.
Não porque as pessoas sejam necessariamente irracionais.
Mas porque somos seres sociais e aprendemos uns com os outros.
O problema começa quando deixamos de distinguir entre:
“Os outros estão a fazer isto”
e
“Logo, isto é aquilo que eu devo fazer.”
E se o comportamento colectivo começar a fabricar a própria realidade?
Há aqui uma questão ainda mais interessante.
Talvez o fenómeno não seja apenas as pessoas influenciarem outras pessoas.
Talvez seja o próprio ciclo de influência que passe a criar aquilo que depois observamos.
As pessoas fazem.
Nós vemos que fazem.
Concluímos que deve ser importante.
Fazemos também.
A nossa adesão passa a ser, por sua vez, mais uma prova de que aquilo é importante.
Outros observam.
E aderem.
É um círculo.
E quando os meios de comunicação e as redes sociais entram nesse circuito, a escala torna-se extraordinária.
Acontecimento → exposição → percepção de importância → adesão → maior exposição → ainda maior percepção de importância → nova adesão.
A certa altura, talvez já seja difícil perceber onde começou a tendência.
E talvez ainda mais difícil perceber se estamos perante uma verdadeira preferência colectiva ou perante uma preferência que se tornou colectiva porque foi suficientemente mostrada como tal.
É uma pergunta desconfortável.
Mas vale a pena fazê-la.
Talvez a verdadeira independência seja não precisar de ser diferente
Há ainda uma armadilha interessante.
Uma pessoa que não gosta de seguir a multidão pode cair na tentação de fazer exactamente o contrário da multidão.
Se todos vão ao eclipse, eu não vou.
Se toda a gente gosta daquele restaurante, deve ser péssimo.
Se toda a gente vê aquela série, não me interessa.
Se toda a gente quer aquilo, eu não quero.
Parece independência.
Mas pode não ser.
Porque, nesse caso, continuamos a deixar que a multidão determine a nossa decisão.
Apenas escolhemos a direcção oposta.
Talvez a verdadeira autonomia seja uma coisa muito menos teatral:
Os outros podem ir. Eu logo vejo se me interessa ir também.
Nem contra.
Nem a favor.
Simplesmente por decisão própria.
Talvez devêssemos experimentar uma pequena pergunta
Perante a próxima grande febre colectiva — seja um eclipse, um restaurante, uma viagem, uma série, um concerto, um produto, um lugar “imperdível” ou qualquer outra coisa que subitamente pareça ser uma obrigação cultural — talvez valha a pena fazer uma pergunta extremamente simples: “Se ninguém mais estivesse interessado nisto, eu continuaria interessado?”
Se a resposta for sim, excelente.
Vá.
Veja.
Experimente.
Desfrute.
Mas se a resposta for não, talvez seja interessante perceber por que razão estamos prestes a fazer qualquer coisa que, cinco minutos antes, não nos interessava minimamente.
Às vezes a multidão sabe perfeitamente para onde vai. Embora, diria, muitas vezes, não saiba muito bem por que vai. Talvez seja importante sabermos para onde é que ela vai e porque vai. E, sobretudo, verificarmos se nós próprios queremos ir.
Porque há uma diferença entre partilhar uma experiência com os outros e precisar dos outros para descobrir aquilo que queremos experimentar.
Talvez a verdadeira autonomia esteja simplesmente em saber por que razão seguimos determinado caminho.
Não é preciso ser contra a multidão, nem fazer sempre o contrário dela. Basta não perder a capacidade de perguntar, de vez em quando:
“Eu quero mesmo ir por aqui?”
Mesmo que toda a gente vá.