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O conhecimento também salva vidas

Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de avaliar os bombeiros apenas  pela forma como respondem às ocorrências e começarmos também a avaliá-los  pela forma como aprendem com elas.

Cláudio Massano Serra
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Há uma ideia que raramente é discutida quando falamos dos bombeiros  portugueses. Habitualmente recordamos a coragem, o espírito de missão, a  disponibilidade ou o sacrifício. Todos eles fazem parte da identidade desta  profissão e ajudam a explicar o enorme respeito que a sociedade lhe dedica.  Contudo, existe um outro património, muito menos visível e talvez ainda mais  determinante para o seu futuro: o conhecimento que cada geração de bombeiros  é capaz de construir e de transmitir à geração seguinte.

Durante décadas habituámo-nos a acreditar que o maior património dos  bombeiros era a coragem. Essa convicção ajudou a construir o enorme respeito  que os portugueses lhes reconhecem e continua, naturalmente, a corresponder a  uma parte importante da realidade. A coragem permanecerá sempre uma  condição indispensável para quem aceita enfrentar o perigo em benefício dos  outros.

Todavia, limitar a profissão de bombeiro à coragem significa ignorar a profunda  transformação que ela conheceu nas últimas décadas.

Os bombeiros do século XXI exercem a sua missão num contexto profundamente  diferente daquele que existia há apenas alguns anos. As alterações climáticas  modificaram o comportamento dos incêndios rurais, os edifícios passaram a  integrar novos materiais de construção, os veículos introduziram riscos até há  pouco desconhecidos, a emergência pré-hospitalar tornou-se cada vez mais  diferenciada e a tecnologia passou a integrar o quotidiano operacional através de  equipamentos altamente especializados, sistemas digitais e novas formas de  coordenação. Ao mesmo tempo, a sociedade tornou-se mais exigente e espera  respostas mais rápidas, mais eficazes e mais seguras.

Perante esta transformação, talvez a verdadeira questão já não seja saber se os  bombeiros possuem coragem suficiente para enfrentar os desafios do presente. A  questão decisiva é outra: estará a profissão a evoluir à mesma velocidade que  evoluem os riscos que diariamente enfrenta?

É precisamente aqui que importa introduzir uma distinção que, muitas vezes,  passa despercebida.

Uma profissão não evolui quando acumula experiência. Evolui quando  transforma essa experiência em conhecimento.

A diferença é tudo menos irrelevante.

Todos os dias, milhares de bombeiros enfrentam ocorrências que exigem  decisões difíceis, elevada competência técnica e uma enorme serenidade. Em  cada incêndio, em cada salvamento, em cada desencarceramento ou em cada  emergência pré-hospitalar constrói-se um património de experiência  absolutamente extraordinário. Contudo, essa experiência só produz verdadeiro  valor para a profissão quando deixa de pertencer exclusivamente a quem a viveu e  passa a constituir conhecimento acessível a todos.

A experiência pertence ao bombeiro que esteve no teatro de operações. O  conhecimento pertence à profissão quando essa experiência é analisada,  compreendida, sistematizada e transmitida às gerações seguintes. É nesse  momento que uma ocorrência deixa de beneficiar apenas quem nela participou e  começa verdadeiramente a melhorar a capacidade de resposta de todo o sistema.

Talvez este seja um dos maiores desafios estratégicos que hoje se colocam aos  bombeiros portugueses.

Durante muitos anos discutimos os bombeiros a partir dos quartéis que  construíam, das viaturas que adquiriam ou dos equipamentos que conseguiam  modernizar. Tudo isso continuará a ser importante. Mas o verdadeiro fator  diferenciador das próximas décadas dificilmente estará apenas nos meios  materiais. Estará, sobretudo, na capacidade de transformar milhares de  experiências individuais num património coletivo de conhecimento.

As profissões que mais evoluíram ao longo da história seguiram exatamente esse  caminho. A medicina tornou-se mais eficaz porque transformou a experiência  clínica em conhecimento científico. A engenharia tornou-se mais segura porque  estudou sistematicamente os seus sucessos e os seus erros. A aviação  conquistou a confiança do mundo porque fez da aprendizagem permanente uma  cultura e não uma exceção.

Os bombeiros portugueses dispõem de todas as condições para afirmar uma  profissão que aprende continuamente, transforma experiência em conhecimento  e faz desse conhecimento o principal motor da sua evolução.

Isso implica investir na formação inicial, criar percursos de especialização,  reforçar a formação contínua, aproximar a profissão das instituições de ensino  superior e incentivar a investigação aplicada. Implica, acima de tudo, construir  uma cultura organizacional onde aprender seja entendido como parte inseparável  da missão de servir.

Porque aprender não é uma etapa da profissão.

É uma responsabilidade permanente da profissão.

Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de avaliar os bombeiros apenas  pela forma como respondem às ocorrências e começarmos também a avaliá-los  pela forma como aprendem com elas. Uma ocorrência termina quando o último  meio regressa ao quartel. O conhecimento que dela resulta pode, porém,  continuar a salvar vidas durante muitos anos.

É por isso que o verdadeiro investimento nos bombeiros portugueses começa  muito antes da aquisição de uma nova viatura ou da construção de um novo  quartel. Começa na valorização das pessoas, na inteligência coletiva que a  profissão for capaz de construir e na transformação do conhecimento individual  num património comum que permaneça muito para além de cada geração.

O futuro dos bombeiros portugueses dependerá, certamente, da qualidade dos  meios que colocarmos ao seu serviço. Dependerá, porém, sobretudo da  capacidade de construir uma profissão que aprenda continuamente, que valorize o conhecimento produzido pelos seus operacionais e que compreenda que cada  ocorrência constitui também uma oportunidade para evoluir.

Porque a coragem continuará sempre a levar um bombeiro a avançar. Mas será o  conhecimento que permitirá que toda uma profissão avance com ele. É por  isso que, no século XXI, o conhecimento também salva vidas.

Artigo II de uma série dedicada à reflexão sobre o futuro da profissão de bombeiro  em Portugal.