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"Cartwheel". Da prisão em Itália para o stand up no Fringe, que se levante Amanda Knox

A figura central de um caso de polícia que cativou o mundo e os fãs de true crime agora faz stand up. Fomos ao Fringe teleguiados pela comédia (mas também pela coscuvilhice).

Susana Romana
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“Desculpe, em qual das salas vai ser o Cartwheel?”. Perdida entre as dezenas de salas de espectáculo só naquela praça de Edimburgo completamente coberta de cartazes do Fringe, dirijo-me a uma das voluntárias com especial cuidado: não pergunto pelo espectáculo de Amanda Knox, célebre pela sua prisão em Itália como suspeita de homicídio, pergunto pelo nome da performance de stand up. Quero dar a entender que estou ali pelo meu gosto por comédia e não pela coscuvilhice. Na verdade, estou por ambos.

Na cidade e na televisão britânica, o tema feito escândalo é recorrente: a figura central de um caso de polícia que cativou o mundo e os fãs de true crime agora faz stand up. As opiniões dividem-se e nem é preciso ter ido ver “Cartwheel” para ter uma. Em novembro de 2007, Meredith Kercher, uma estudante britânica de 21 anos, foi encontrada morta no apartamento que partilhava com Amanda Knox, então com 20 anos, estudante norte‑americana em Erasmus. A polícia italiana, pressionada pela atenção mediática e pela brutalidade do crime, deteve rapidamente Knox e o seu namorado da época, Raffaele Sollecito. Ambos foram acusados de envolvimento no homicídio, apesar de a única prova física consistente apontar para um terceiro homem, Rudy Guede, cujo ADN foi encontrado no local e que viria a ser condenado separadamente. Knox e Sollecito foram condenados em 2008, num processo marcado por interpretações especulativas do comportamento de Knox, falhas na tradução, interrogatórios sem advogado e análises forenses posteriormente contestadas. Knox passou quase quatro anos na prisão antes de ser absolvida em 2011. Contudo, o sistema judicial italiano permite múltiplos graus de recurso, e o caso voltou a ser reaberto. Só em 2015 o Tribunal de Cassação — a mais alta instância criminal de Itália — anulou definitivamente a condenação, declarando Knox e Sollecito inocentes e apontando “falhas impressionantes” na investigação e na construção da acusação.

Amanda Knox reconstruiu a sua vida, casou, teve dois filhos e decidiu voltar agora àquela que sempre disse ter sido a sua paixão: os palcos. E não se fez rogada em marcar o regresso para o maior certame de artes performativas do mundo, o Fringe, que decorre há décadas durante o mês de agosto na cidade escocesa de Edimburgo. O Fringe é famoso por ser uma rampa de lançamento e de consolidação para dezenas de artistas e projectos. Foi aqui que deram nas vistas o Taskmaster; Baby Reindeer, Fleabag, The League of Gentlemen ou “Nanette” de Hannah Gadsby. Também nomes como Stephen Fry, Rowan Atkinson, Flight of the Conchords, Trevor Noah ou John Oliver passaram por aqui. Chegou a vez de Knox, com um espectáculo de uma hora produzido pelo marido e escritor Christopher Robinson. Mas não sem polémica, contestação, bocas de outros comediantes (online e noutros espectáculos do certame, como testemunhei por espectáculo de Russell Howard, comediante muito popular no Reino Unido) e até um abaixo-assinado para retirar “Cartwheel” de cena, algo prontamente recusado pelo diretor Tony Lankester numa entrevista à BBC, vincando que o Fringe é uma plataforma de expressão artística. “Não nos pautamos pelo que é de bom ou mau gosto”, justificou, acrescentando: “Ela tem o direito de contar a sua história nos nossos palcos”.

"Cartwheel", com todo o burburinho à sua volta, não é sequer o espectáculo mais bizarro a estar em cena no Fringe em 2026. (...) Ainda antes sequer do Fringe ter começado, o comediante Dan Boerman espalhou panfletos a avisar que estaria a dobrar um lençol de baixo (daqueles que se enfiam no colchão tipo capa) no topo de Calton Hill,  uma colina vulcânica situada no centro de Edimburgo. Cerca de mil pessoas apareceram para o apoiar."

A controvérsia fez com que o espectáculo de Knox estreasse com todas as datas esgotadas (11 apresentações entre 7 e 17 deste mês) ainda antes sequer do arranque oficial do festival. E não é por falta de concorrência: este ano, 3649 espectáculos fazem parte do cartaz do Fringe, célebre por ser um festival de acesso aberto, onde não existe comissão de seleção nem processo de audição. Qualquer pessoa com uma história para contar e um espaço onde atuar pode participar – e se Knox tem uma história. Para atuar, é necessário garantir um local, registar o espetáculo no site oficial do Edinburgh Festival Fringe e produzir autonomamente a própria temporada. Os custos, que têm de ser suportados pelos artistas e/ou pelos seus produtores, começam na ordem das 15 mil libras.

Esta falta de programação oficial resulta numa espécie de anarquia estranhamente bem organizada. “Cartwheel”, com todo o burburinho à sua volta, não é sequer o espectáculo mais bizarro a estar em cena no Fringe em 2026. Entre inúmeros exemplos, contam-se o popular australiano Garry Starr a recriar clássicos da Penguin completamente nu enquanto, entre outras tropelias, lhe atiram uvas às nádegas com toda a força; Ollie Horn com o espectáculo “Let’s Listen to Some of Lou Bega’s Other Songs Together for an Hour” (“Vamos Ouvir Algumas Das Outras Canções Do Lou Bega Juntos Durante Uma Hora”); Vinay Sagar a tentar dizer os 10 mil dígitos do Pi; ou o espectáculo de apresentação única “A Young Man Dressed As A Gorilla Dressed As An Old Man Sits Rocking In A Rocking Chair And Then Leaves” (em português: “Um Jovem Vestido de Gorila Vestido de Velho Sentado Numa Cadeira de Baloiço Que Depois Se Vai Embora”). No dia 5, ainda antes sequer do Fringe ter começado, o comediante Dan Boerman espalhou panfletos a avisar que estaria a dobrar um lençol de baixo (daqueles que se enfiam no colchão tipo capa) no topo de Calton Hill,  uma colina vulcânica situada no centro de Edimburgo. Cerca de mil pessoas apareceram para o apoiar.

O espectáculo de Amanda Knox é descrito no site do Fringe do seguinte modo: “Amanda Knox está a aproximar-se dos quarenta, a equilibrar a maternidade e, finalmente, a permitir-se ficar furiosa com toda a história da prisão injusta. Sobretudo quando metade do mundo lhe diz para ultrapassar o assunto, enquanto a outra metade continua a achar que ela é culpada. Como raio explicará tudo isso à filha, que agora pede para ouvir a história de “A Mamã Vai à Itália”? E conseguirá protegê‑la de, bem, tudo, sabendo que a sua própria mãe não a conseguiu proteger, por mais que tenha tentado?”. A sinopse não explica o nome “Cartwheel” (em português, aquela roda que se fazia das aulas de Educação Física), mas este vem do facto de vários media italianos terem, aquando da detenção se Amanda, relatado um “comportamento estranho” — alegando que ria, beijava o namorado e até fazia rodas de ginástica — elementos que os procuradores usaram para a retratar como fria e potencialmente culpada. No espectáculo, Knox apressa-se a corrigir: nem sequer foi a roda, mas sim a espargata.

Quando me dirijo, finalmente, para a fila correcta para poder entrar na sala no Guilded Ballon Teviot, esperava pessoas com cartazes e frases de ordem, revoltadas com o espectáculo (a tal petição, iniciativa Sally Alington, que se descreve como amiga próxima da família de Meredith Kercher, está com 43 mil assinaturas: https://www.change.org/p/stop-the-amanda-knox-cartwheel-performance-at-the-edinburgh-fringe). Porém, não fui contestada por ninguém com uma forquilha. Apenas um grupo ordeiro, a maioria com uma cerveja ou um copo de vinho na mão, pronta para um espectáculo de fim de tarde numa Edimburgo atipicamente soalheira. Reconheço na fila alguns outros comediantes em cena no Fringe, daqueles que se movem mais pela curiosidade e menos pelo preconceito de classe (e se a malta do stand up o tem, no Reino Unido ou em Portugal ou na Cochinchina). Uma voluntária avisa: os lugares não são marcados, sentem-se sem deixar espaços vagos porque a sala está completamente esgotada.

"Mas indo directamente à questão "então, o espectáculo tem graça?" a resposta é de que até tem. É bem escrito, tem bons momentos, tem descaramento e coração nas medidas certas - mas, claramente, precisa de rodar e de se aprimorar, até com algumas reescritas. Nota-se que a performance, não sendo fraca, está ainda verde e que Amanda ainda não descobriu o à-vontade de estar em palco."

Beneficio de estar sozinha, consigo um lugar vago na ponta da primeira fila. Como em quase todos os recintos do Fringe, o espaço é improvisado. Numa cadeira de sala de jantar agarrada à seguinte por braçadeiras plásticas, estou tão perto do palco (que se ergue apenas a uns 50 centímetros do chão) que conseguiria tocar em partes do cenário. Um quarto desarrumado de criança, brinquedos por todo o lado, alguns livros, uma pequena cadeira de plástico e um cesto de roupa infantil acabada de lavar que Knox dobrará enquanto fala.

Assim que entra em palco, vestida com roupa de trazer por casa (t-shirt e leggings, ambas coloridas, sem conjugarem), atira logo ao elefante na sala: ““Bem-vindos ao espectáculo mais controverso do Fringe. A minha vida é mesmo estranha.”. A frase soa a um pequeno improviso numa actuação que, de resto, segue um texto previamente decorado com pouquíssima intervenção com o público ou desvio do que estava no papel. É um estilo que não é exclusivo de Knox, mas que a faz parecer mais uma atriz do que uma comediante. Essa é, aliás, uma crítica recorrente a “Cartwheel”, a de que é mais um espectáculo de storytelling do que de stand up.

Oscilando entre a comédia (há muito humor autodepreciativo sobre o seu tempo na prisão) e o tom confessional mais dramático, quem tenho perante mim é alguém a querer dar a sua versão dos acontecimentos. Que recusa ficar calada e desaparecer porque sente que não deve a ninguém ter de viver debaixo de uma pedra. Uma das primeiras piadas é sobre o facto de, numa ida ao hospital, a recepcionista lhe ter dito “Amanda Knox? Coitada, a outra bem que lhe lixou o nome”. Knox recusa mudar de nome porque sente que não é a sua identidade que deve ser apagada e acrescenta: “não fui eu que estraguei o meu nome”. Devemos, isso sim, lembrar-nos do nome que ninguém decorou, ao contrário do seu: Rudy Guede, a única pessoa definitivamente condenada pelo brutal homicídio, que voltará a tribunal este outono para enfrentar acusações de agressão sexual e violência contra uma ex‑namorada.

Durante o espectáculo, Amanda interage com a voz gravada de uma criança, uma representação da filha. O fio condutor é mesmo esse: como explicar a uma menina o que aconteceu à mãe, sem com isso a blindar a querer andar pelo mundo e viver experiências. O tema de “Cartwheel” é a liberdade, na qual se inclui a liberdade de poder estar no Fringe mesmo quando essa parece uma péssima ideia a tanta gente. Os relatos são essencialmente na primeira pessoa, mas há uma passagem na qual fala directamente sobre Meredith Kercher. Comove-se e tem lágrimas nos olhos (algo que se repetirá três ou quatro vezes ao longo do espectáculo). Só a própria saberá se são reais ou coreografadas, mas a bem da experiência de estar a ver “Cartwheel” ao vivo escolho achar que são genuínas.

Mas indo directamente à questão “então, o espectáculo tem graça?” a resposta é de que até tem. É bem escrito, tem bons momentos, tem descaramento e coração nas medidas certas – mas, claramente, precisa de rodar e de se aprimorar, até com algumas reescritas. Nota-se que a performance, não sendo fraca, está ainda verde e que Amanda ainda não descobriu o à-vontade de estar em palco. Há boas piadas sobre ter visto o filme “Condenados de Shawshank” pela primeira vez na prisão, mas também momentos duros sobre as ameaças que recebeu quando engravidou (“Sabes quem é que nunca vai poder engravidar? Espero que alguém mate a tua filha”). Ao contrário das críticas feitas por quem nem viu, não é um espectáculo a fazer piadas com um homicídio. É, isso sim, sobre as falhas dos sistemas judiciais, dos media, de tudo o que é imputado a uma mulher que alguns têm o feeling de que é culpada porque tem cara disso (lembrou-me o casal McCann). Alguém que encontra na comédia um balão de oxigénio para gerir o trauma merece mais oportunidades e menos petições.

No fim do espectáculo, entre palmas, Amanda diz “vou estar lá fora do final, se alguém quiser conversar”. É um clássico do Fringe, mas que neste contexto acaba por ter outras camadas, ser uma espécie de símbolo do fim do medo. Ah, e sim, ela faz uma impecável roda em palco. Até nisso é valente.