Antes de entrar no cerne da questão que hoje aqui trago, cumpre-me deixar um agradecimento institucional e pessoal ao Observador. Num espaço mediático tantas vezes condicionado pelo medo e pelo seguidismo, a publicação continuada dos meus artigos é um acto de coragem editorial que importa sublinhar. Sei bem — e o Observador também o sabe na pele — o preço que se paga por dar palco ao contraditório: os ataques são constantes, as tentativas de silenciamento são ferozes e a rotulação é imediata.
No entanto, convém recordar que combato a ideologia de género há mais de dez anos. Ao longo desta década de debate público, nunca odiei ninguém e nunca, mas mesmo nunca, relativizei ou menosprezei o sofrimento profundo de homens e mulheres que padecem de um transtorno da identidade sexual. Esta é uma condição séria que exige um acompanhamento médico de excelência — algo que, aliás, existia em Portugal antes de as políticas de esquerda terem adoptado a causa “trans” como bandeira ideológica. O que estas pessoas precisam é de cuidados clínicos rigorosos, e não de um transactivismo cego ou de tratamentos superficiais que não tratam o transtorno na raiz, limitando-se a mascará-lo com hormonas, bisturi e propaganda.
É precisamente sobre a distorção desta realidade que hoje escrevo.
Há dias, uma pessoa contactou-me. A Joana (nome fictício) enviou-me uma mensagem a perguntar se eu tinha disponibilidade para conversar com ela sobre a questão trans, pois identificava-se muito com o que tenho lido e escrito sobre o assunto. Marcámos uma vídeo-chamada, já que ela fez questão de sublinhar que prefere falar olhos nos olhos. Quando a ligação se estabeleceu, uma jovem mulher apareceu no ecrã. Depois de nos cumprimentarmos, disse-me de forma directa: ‘Sou uma rapariga trans.’ Não me contactou para me acusar de transfobia — palavra que os activistas usam como arma de arremesso contra qualquer discordância —, mas porque se revia em tudo o que tenho defendido.
Nasceu rapaz. Por volta dos 16 anos, tomou a decisão de transicionar. Seguiu as guidelines que existiam antes das actuais directrizes da WPATH: foi acompanhada por uma verdadeira equipa multidisciplinar, submetida a inúmeras questões e informada, com toda a crueza, do que o processo implicava. Ninguém lhe vendeu um conto de fadas. Contou-me que a redesignação sexual foi dolorosa e horrível, e que hoje não consegue conceber como é possível arrastar menores de idade para tamanho sofrimento.
Disse-me, sem hesitar, que o transexualismo é uma patologia do foro mental que precisa de tratamento e de um acompanhamento médico rigoroso — e não de bandeiras, marchas ou de uma “comunidade” que a instrumentaliza. Após a transição formal, feita por volta dos 28 anos, o que a maioria das pessoas nesta situação realmente deseja é viver em paz. Trabalhar. Entrar numa casa-de-banho de mulheres sem levantar qualquer sobressalto ou questionamento — algo que a Joana sempre fez com naturalidade e sem problemas, pois sabe que esse conflito só existe para quem insiste em revelar que é biologicamente homem ou para quem não consegue passar por mulher. Ser tratada pelo que é agora, sem que ninguém precise de escavar quem foi no passado. Longe do activismo. Longe do espectáculo.
A Joana não se revê, de todo, na narrativa que o transactivismo impõe. O episódio que me relatou sobre o director de recursos humanos da empresa onde trabalha ilustra na perfeição o absurdo a que chegámos. O director convocou uma reunião para “formar” os funcionários sobre como receber e trabalhar com pessoas trans. Ela respondeu que tal não era necessário: as pessoas trans são seres humanos como todos os outros e devem ser integradas como tal. A resposta que ouviu foi reveladora: “Diz isso porque não sabe como essas pessoas se sentem. Porque não imagina o que é estar na pele delas.”
Ora, ela está na pele delas — facto que o director desconhecia por completo, já que a Joana simplesmente vive a sua vida sem expor a sua privacidade. E, mesmo assim, o activismo pretendeu explicar-lhe o que ela própria sente.
Este é o cerne do problema. O transactivismo não representa as pessoas que sofrem de transtorno da identidade (ela rejeita o termo “disforia de género” por considerá-lo um mero eufemismo). Representa, sim, uma agenda política que se alimenta de números, de vítimas permanentes e de inimigos fictícios. Transforma uma condição clínica grave num estilo de vida celebrado, num direito absoluto de autodeclaração e, pior ainda, numa identidade de consumo vendida a crianças e adolescentes que ainda não dispõem de mecanismos de defesa contra a mentira.
Convencer um menor de que pode “ser” do outro sexo, saltando etapas de avaliação rigorosa, de tempo e de maturidade, é uma forma de violência. A Joana sabe-o por experiência própria. Sofreu o processo completo, com informação clara e acompanhamento real. Olha para o que se faz hoje e abomina-o. Sabe perfeitamente que o resultado actual não é a liberdade: é o sofrimento físico, a irreversibilidade e, muitas vezes, a descoberta tardia de que a solução prometida não resolveu o problema de fundo.
As pessoas que realmente sofrem deste transtorno não pedem que as empresas façam “formação” obrigatória sobre os seus sentimentos. Não pedem que a sociedade reescreva a biologia. Não pedem que se transforme a sua condição numa causa partidária. Pedem tratamento sério, discrição e a possibilidade de viver sem serem usadas como mascotes de uma ideologia. A Joana sente uma urgência profunda em denunciar a insanidade institucional que hoje reina; porém, sabe perfeitamente que, se ousar falar publicamente, será imediatamente rotulada de “transfóbica”, “de extrema-direita” ou “fascista”. Sabe que enfrentaria um custo pessoal incomportável: passaria a ter aquilo que, até hoje, nunca conheceu — a dificuldade em arranjar um bom emprego e a impossibilidade de trabalhar sem um rótulo inquisitório colado na testa. O activismo rouba-lhes exactamente isso: a voz, a dignidade clínica e o direito a serem tratadas como doentes que necessitam de auxílio, e não como soldados amordaçados de uma guerra cultural.
Enquanto se continuar a confundir patologia com identidade política, enquanto se empurrarem menores para decisões irreversíveis e enquanto se silenciar quem, de dentro, ousa dizer a verdade, o activismo continuará a mentir em nome de quem nunca lhe passou uma procuração. E as verdadeiras vítimas — as que sofrem em silêncio e só querem paz — continuarão a ser as primeiras a pagar o preço.
Como prova de que a sua voz não pode ser distorcida por agendas alheias, este artigo passou pelas mãos da própria Joana antes de ser publicado. Enviei-lho para leitura e correcção, e foi sob o seu olhar e a sua aprovação final que estas linhas ganharam a sua forma definitiva. Cada parágrafo reflecte estritamente a verdade da nossa conversa e da sua vida.
À Joana, o meu profundo agradecimento. Obrigada por me ajudares a repor a verdade e por permitires que a tua experiência sirva de alerta contra o absurdo dos nossos dias.