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O Nosso Maior Legado

Os portugueses têm razões para ser o povo mais orgulhoso do mundo na sua língua. Nenhum outro país multiplicou de forma tão expressiva o número de falantes do seu idioma.

Pedro Albuquerque
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A língua portuguesa é, provavelmente, a mais extraordinária herança que Portugal deixou ao mundo, a par do seu pioneirismo na globalização do mesmo. Portugal, um pequeno país na periferia da Europa, conseguiu que a sua língua se tornasse o idioma de centenas de milhões de pessoas espalhadas por quatro continentes.

Hoje, o português é uma das quatro línguas globais, junto com o inglês, espanhol e francês. Tem um número de falantes superior ao francês e está geograficamente mais dispersa do que o espanhol. É uma língua que une Lisboa a Díli, o Porto a Maputo, Luanda a São Paulo, Praia ao Rio de Janeiro e o Funchal a São Tomé.

Enquanto muitas línguas europeias enfrentam estagnação ou declínio demográfico, o português continua a crescer. Angola e Moçambique registam algumas das maiores taxas de crescimento populacional do mundo, devendo vir a somar perto de 200 milhões de habitantes no final deste século. Muitos desses cidadãos terão o português como primeira ou segunda língua, reforçando o peso internacional da nossa comunidade linguística, que já hoje conta com mais de 210 milhões de falantes no Brasil, maior país lusófono.

Seria natural que o Estado e os portugueses colocassem este ativo extraordinário no centro da sua estratégia cultural, económica e geopolítica. A língua facilita negócios, reduz barreiras à cooperação, aproxima mercados e cria oportunidades de investimento. Uma empresa portuguesa encontra em Angola, Moçambique, Brasil ou Cabo Verde uma vantagem competitiva que não possui noutros mercados. Da mesma forma, empresas desses países encontram em Portugal uma porta de entrada para a Europa.

Por isso, reforçar a cooperação económica, científica, tecnológica e educativa com os restantes países lusófonos não é apenas uma questão de afinidade histórica. É uma opção estratégica. A lusofonia não deve ser vista como uma nostalgia do passado, mas como uma plataforma de crescimento mútuo e afirmação coletiva para o futuro.

No entanto, enquanto o potencial internacional da língua portuguesa continua a crescer, em Portugal parece muitas vezes faltar a mesma confiança na nossa própria língua. Em vez de a valorizarmos, frequentemente somos os primeiros a substituí-la por palavras e designações inglesas, mesmo quando existem alternativas portuguesas tão ou mais adequadas.

A tendência tornou-se tão habitual que quase deixou de ser questionada. A histórica SATA transformou-se há uns anos na “Azores Airlines”. A TAP recuperou recentemente a designação “Air Portugal”, não fossem as pessoas olhar para os aviões e não perceber que se trata de uma companhia aérea. A mesma TAP envia SMS para números portugueses a dar informações sobre os seus voos, em inglês. É legítimo questionar se este tipo de opções contribui verdadeiramente para a valorização da marca Portugal ou para a afirmação da língua portuguesa.

Nas últimas semanas, foi apresentado um navio de investigação oceanográfica denominado “Azores Ocean”, quando “Oceano Açores” seria uma designação perfeitamente natural, e facilmente entendível por qualquer anglófono que desconheça a língua de Camões.

No aeroporto de Faro os trabalhadores abordam os passageiros primariamente em inglês. Mesmo havendo mais anglófonos a utilizar o aeroporto, que sentido tem que sejamos nós a sentir-nos estrangeiros no nosso país? Ou melhor ainda, alguém originário de um país lusófono viver esta experiência e pensar, “olha, nós falamos a língua “deles”, mas eles não a falam!”.

Multiplicam-se os “business centers”, os “coworks”, os “meetings”, os “events”, os “sales”, os “feedbacks” e tantas, mas tantas outras expressões utilizadas sem necessidade. Dá-se mesmo o caso paradoxal de os nossos irmãos losófonos utilizarem palavras de origem portuguesa, enquanto os portugueses utilizam homólogas anglófonas “propaganda” vs “marketing”, “prazo” vs “deadline”, “retorno” vs “feedback“, “call” vs “chamada”, etc.

Não se trata de rejeitar o inglês. O inglês é uma língua internacional indispensável e o seu domínio é uma vantagem clara, quando não um pré-requisito num mundo globalizado. O problema surge quando deixamos de valorizar a nossa própria língua e passamos a agir como se ela fosse insuficiente para expressar modernidade, inovação ou prestígio. Nenhum francês ou espanhol trata a sua língua dessa forma. Pelo contrário, defendem-na com orgulho.

Somos, felizmente, um dos países com literacia inglesa mais elevada na Europa, todavia, a nossa voracidade em mostrá-lo é tanta que muitos estrangeiros não sentem necessidade de falar português para cá viver.

Depois de vários séculos em que França foi o nosso paradigma cultural, nos últimos anos temos passado paulatinamente da “anglofilia” para a “anglomania”, e agora estamos a entrar numa terceira fase, a “anglofolia”, na qual parece ter mais interesse qualquer frivolidade sobre um membro marginal da família real do que, desde logo, notícias sobre outros países lusófonos.

Já este Verão, uma associação galega lançou uma campanha a pedir que os portugueses que ali vão falem português, pois preferem-no ao nosso clássico “portunhol”. A iniciativa visa valorizar a herança linguística comum do galaico-português. É significativo que sejam os próprios galegos a recordar-nos a importância de usar a nossa língua.

Ora, os portugueses têm razões para ser o povo mais orgulhoso do mundo no seu idioma. Nenhum outro país multiplicou de forma tão expressiva o número de falantes da sua língua, que hoje reúne no mundo mais de 25 vezes a população de Portugal e ultrapassará as 30 vezes ainda neste século.

Não obstante ser falado por centenas de milhões de pessoas, e a língua mais falada num dos maiores espaços de comércio livre do mundo, resultante do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, o português continua a não ser língua oficial das Nações Unidas, mesmo tendo mais falantes do que o francês ou o russo, que o são. Esta realidade reflete não apenas a reduzida dimensão de Portugal face aos grandes promotores de outras línguas globais, mas também a ausência de uma estratégia verdadeiramente concertada no espaço lusófono.

Portugal deve assumir sem complexos uma parceria estratégica com o Brasil, hoje o principal esteio demográfico e cultural da lusofonia. O Instituto Camões, homólogo do Instituto Cervantes ou da Alliance Française, deveria evoluir para um instrumento de toda a comunidade lusófona, dotado de maior capacidade financeira, de uma missão comum e uma gestão independente. Se Portugal, sendo apenas o quarto país mais populoso de língua portuguesa, conseguiu construir uma presença global relevante através do Instituto Camões, imagine-se o que poderia ser alcançado pelo esforço conjunto da CPLP.

Os portugueses têm todas as razões para sentir orgulho na sua língua. Fernando Pessoa escreveu que “a minha pátria é a língua portuguesa”. Entre todos os legados que Portugal deixou ao mundo, nenhum permanece tão vivo, tão global e tão cheio de futuro. O português não é apenas a memória daquilo que fomos. É uma das mais valiosas ferramentas daquilo que podemos vir a ser. Defendê-lo, promovê-lo e afirmá-lo não é um exercício de saudosismo. É uma questão de ambição, de soberania cultural e de visão estratégica.