1. A expressão “todos, todos, todos” foi proferida pelo Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude para sublinhar a natureza universal e acolhedora da igreja, aberta a qualquer pessoa, sem exceção. Mas “todos, todos, todos”, por mais que, por vezes, nos possa dar jeito, não equivale a “tudo, tudo, tudo”. Ou seja, o acolhimento e a abertura que caracteriza a natureza da igreja não anula a doutrina moral, os mandamentos ou as exigências do Evangelho. “Todos, todos, todos”! O uso recorrente a este tipo de expressões incompletas, inacabadas… presta-se a várias confusões e ambiguidades. Obviamente que todos são chamados e acolhidos na igreja; ela é, por definição, universal; ela é católica; “católico”, quer precisamente dizer isso; é essa a sua missão. Mas depois, é preciso ir mais além, é preciso completar a frase. “Todos, todos, todos” são chamados e acolhidos à igreja, mas para a sua Conversão e Santificação.
2. Deus é amor; Deus não julga; Deus acolhe todos. Soa bondoso, soa inclusivo, não deixa ninguém de fora. Mas há uma omissão grave, ao não se mencionar que esse amor requer um esforço contínuo de mudança interior, de conversão; que esse acolhimento não valida o erro e o pecado. Dizia o velho Chesterton que “o mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram por terem sido sequestradas e separadas umas das outras”. Misericórdia sem verdade torna-se, assim, sentimentalismo; justiça sem caridade, crueldade; acolhimento sem conversão, cumplicidade; etc. É uma norma básica da teologia moral que as virtudes humanas têm sempre o seu ponto de equilíbrio; assim acontece com a austeridade, a humildade, a autoridade, a tolerância, etc.; todas elas têm o seu limite, a partir do qual, deixam de ser virtudes. Isto é algo evidente!
3. “Todos, todos, todos”! Frequentemente associado a esta mentalidade dominante está a ideia de que “o que importa é ser uma boa pessoa; Deus olha para o coração de cada um”. Esta mentalidade muito generalizada na sociedade contemporânea (e também dentro de certos “círculos” e grupos da Igreja…) traduz a eficácia de mais uma das grandes armadilhas espirituais dos nossos dias. É verdade que a bondade real e concreta é central na tradição cristã. O problema surge então quando se define o bem e o mal, a bondade e a maldade sem o devido filtro doutrinal orientador. Tal conduz, frequentemente, a posições que, ainda que pareçam justas e bondosas, são moralmente desastrosas (veja-se o aborto e a eutanásia, por exemplo). Imagine-se uma pessoa que chega à igreja carregada de dependências, vícios e relacionamentos tóxicos. Será verdadeiramente cristão, será verdadeiramente escutista dizer-lhe: Nós aceitamos-te exatamente como és; Deus ama-te incondicionalmente (esta é mais uma “meia-verdade”). Não! A ortodoxia católica não se fica por aqui; ela diz: nós aceitamos-te e acolhemos-te exatamente como és, mas amamos-te demais para te deixar assim. Cristo morreu na cruz por nós, precisamente para que nos possamos transformar em algo melhor do que aquilo que já éramos”. Verdade e Amor caminham, então, juntos.
4. “Todos, todos, todos”! Muito ligado a esta maneira de pensar e viver está a deturpação do conceito de Misericórdia. Há muitas confusões, contaminações e manipulações quando se fala de amor, de carinho, de inclusão, de solidariedade, de ajuda; em suma, quando se fala de Misericórdia! Uma coisa é a sensibilidade, a emotividade, a empatia… outra, a Caridade Cristã! Somos sensíveis aos dramas e sofrimentos do próximo, somos empáticos, cuidadosos, generosos… mas tal nunca poderá equivaler a dizer “sim” a tudo e, sobretudo, aceitar como Verdade aquilo que não é Verdade. A Caridade Cristã tem de ser percebida e discernida pela razão; é, pois, uma grande deformação da virtude pensarmos que a Caridade é um mero sentimento, uma simples emoção, um adorno ou consolo. O respeito por todos, todos, todos… não implica validar as suas ideias, as suas decisões, as suas escolhas. Jesus dialogou com samaritanos, adúlteros, ladrões, cobradores de impostos; pessoas de outras geografias (e biografias), sem abdicar da sua mensagem de salvação. O diálogo é, na verdade, a base da cultura do encontro, mas ouvir, respeitar e acolher não significa validar doutrinas, aceitar qualquer comportamento, aprovar qualquer estilo de vida e concordar com o erro e o pecado.
5. “Todos, todos, todos”! Nas sociedades contemporâneas, um traço evidente na transmissão da mensagem cristã, realizado nas últimas décadas, é a progressiva substituição do “eu moral” pelo “eu psicológico”, do Homem moral pelo Homem psicológico. Ou seja, assiste-se a uma indiferenciação e a uma despersonalização da vida moral a favor de uma individualização e fragmentação da mesma, fazendo sobrepor a mera felicidade da pessoa (o que é obviamente positivo), à salvação da sua alma, este sim, o fim último da mensagem do evangelho. A principal tarefa do crente na terra é santificar-se, é salvar-se… e não, “apenas”, ser feliz.
Sim, “Todos, todos, todos”… à conversão!