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(A) :: Eurovisão e um referendo sobre Plutão. O "conde" do caixote de lixo alienígena que testa e ridiculariza Farage nas urnas

Eurovisão e um referendo sobre Plutão. O "conde" do caixote de lixo alienígena que testa e ridiculariza Farage nas urnas

Nigel Farage forçou eleições no seu círculo eleitoral após caso de doação milionária no partido. Principal adversário nas eleições de hoje é Conde "Binface", comediante que o tenta expor ao ridículo.

José Carlos Duarte
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“Se és vermelho, verde, amarelo ou azul, ainda há uma coisa que podes fazer. Clacton é um sítio especial. Portanto, deves votar em mim.” Nas praias e nas ruas de Clacton-on-Sea, um homem mascarado de caixote do lixo interpretou uma canção de três minutos e publicou-a nas redes sociais. Usando um estilo irónico com várias farpas à mistura, esta foi mais uma das formas que o Conde Binface encontrou para fazer campanha para as eleições locais da cidade do sudeste de Inglaterra, que vai a votos esta quinta-feira. Misturando política e humor, o objetivo desta entidade, que diz ser oriunda do planeta Sigma IX e que alega que tem mais de cinco mil anos, passa por participar em “eleições democráticas no Reino Unido”.

Clacton-on-Sea vai a votos esta quinta-feira para eleger o seu representante na Câmara dos Comuns. No entanto, o rosto mais conhecido no boletim de voto nem sequer é esta figura humorística que alega ser um alienígena intergaláctico. É Nigel Farage, o líder do partido de direita radical Reform UK. Após várias polémicas relacionadas com doações financeiras não declaradas, o dirigente renunciou ao cargo de deputado em meados de julho, o que motivou a convocação destas eleições locais em pleno agosto.

Perante os contornos em que foram convocadas estas eleições, praticamente todos os partidos britânicos anunciaram um boicote. Os trabalhistas, os verdes, os liberais-democratas e os conservadores recusaram apresentar candidatos para figurar no boletim de voto desta quinta-feira. Seguindo a paleta de cores da canção do Conde Binface, os “vermelhos, verdes, amarelos e azuis” colocaram-se de fora. Embora existam dezenas de outros candidatos independentes e de partidos marginais sem representação nacional, o comediante mascarado de caixote de lixo tornou-se o principal rosto da oposição em Clacton-on-Sea, bem como o principal rival de Nigel Farage.

https://twitter.com/CountBinface/status/2085308902170583291

Debaixo do fato e da cabeça de caixote do lixo está Jonathan David Harvey, produtor, animador de rádio e comediante, que trabalhou em vários órgãos de comunicação social britânicos, incluindo a BBC. Esta está longe de ser a estreia do Conde Binface nas urnas. Já disputou a autarquia de Londres por duas vezes e surge em atos eleitorais mediáticos. Esteve frente a frente no círculo eleitoral do antigo chefe do executivo, Rishi Sunak, nas eleições gerais de 2024 e voltou a marcar presença nos boletins de voto nas eleições locais de Makerfield, que determinaram o retorno de Andy Burnham à Câmara dos Comuns e que lhe permitiram chegar a primeiro-ministro.

Em Makerfield, o Conde Binface obteve apenas 95 votos, um resultado bastante modesto. Em Londres, chegou aos 1%. Para muitos britânicos, o caixote de lixo alienígena serve como personificação da sátira à política do país. Contudo, em Clacton-on-Sea, as sondagens atribuem um resultado entre os 20 e os 25% das intenções de voto a Jonathan David Harvey. Devido à falta de oposição dos partidos mainstream a Nigel Farage, o comediante caminha para um dos seus melhores resultados de sempre.

Como Farage tentou escapar de uma investigação — e obteve um rival inesperado

Em poucos anos, Clacton-on-Sea tornou-se um dos bastiões eleitorais de Nigel Farage. Em 2024, foi eleito para a Câmara dos Comuns com 46,2% dos votos. A localidade teve uma das votações mais expressivas no Reino Unido para a saída da União Europeia — quase 70% votaram a favor do Brexit. Antes disso, os cidadãos votavam massivamente no Partido Conservador. No entanto, o Reform UK conquistou o círculo eleitoral, considerado um dos mais pobres em Inglaterra, onde a decadência económica se cruza com os salões de jogos e uma roda gigante junto à praia, como testemunhou o Observador em 2024.

https://observador.pt/especiais/de-ser-amigo-de-putin-as-acusacoes-de-racismo-as-polemicas-da-campanha-de-farage/

Na localidade, Nigel Farage é visto quase como uma estrela e angariou muitos apoiantes, ainda que uma polémica recente ensombrasse esse estatuto. O caso rebentou quando se tornou público que o líder do Reform UK recebeu, antes das eleições de 2024, uma doação de cinco milhões de libras (cerca de 5,85 milhões de euros) de Christopher Harborne, um bilionário na área das criptomoedas e um dos homens mais ricos do Reino Unido. O valor gerou uma onda de revolta sobre a transparência do financiamento e sobre as verdadeiras motivações por trás de uma doação desta dimensão.

Com uma agravante: no Reino Unido, o líder do Reform UK personifica a luta antissistema contra as elites financeiras e políticas. Ora, a doação do bilionário colocou em causa bandeiras que Nigel Farage tem defendido ao longo dos últimos anos — em particular a da transparência e do combate à corrupção. Em sua defesa, o dirigente partidário alega que recebeu a verba a título pessoal antes de ser eleito deputado, justificando-a com despesas de segurança privada, pelo que não teria de prestar esclarecimentos adicionais. Ainda assim, estas explicações não convenceram totalmente uma parte significativa da sua base eleitoral.

Como perdeu parte da confiança, Nigel Farage demitiu-se do cargo de deputado, forçando uma “eleição especial”. O político britânico justificou que queria “que seja o povo de Clacton o juiz” das suas ações. “Esta será uma eleição especial que opõe o povo ao sistema. É uma oportunidade para mostrar o dedo do meio a todo o sistema e dizer-lhes, sem rodeios, para onde podem ir, e é por isso que me vou candidatar a esta eleição”, afirmou o líder partidário.

A atravessar um bom momento nas sondagens, o líder do Reform UK dificilmente perderia em Clacton-on-Sea. Para os partidos adversários, a convocação desta eleição suplementar foi uma tentativa de abafar o escândalo da doação milionária e travar eventuais investigações parlamentares. Na lógica de Nigel Farage, uma vitória retumbante nas urnas serviria como a prova de que a polémica não abalou o seu eleitorado, reforçando em simultâneo o seu peso político no Reino Unido.

Daí que o Partido Trabalhista tenha anunciado que não participaria na corrida. Os verdes e os liberais democratas seguiram a mesma linha. Até o Partido Conservador — que governou Clacton-on-Sea durante décadas — se juntou ao boicote. Os principais partidos britânicos recusaram-se a participar num ato eleitoral criado propositadamente para conceder legitimidade a Nigel Farage e servir de salvo-conduto político face ao escândalo da doação.

Nas palavras dos trabalhistas, a convocação de novas eleições foi “patética” e um “circo”. No mesmo sentido, a líder conservadora, Kemi Badenoch, afirmou que o partido não iria “apresentar um candidato numa eleição falsa” que Nigel Farage estava a “provocar” para “distrair as pessoas do que se estava a passar”. Havia, por isso, a perceção de que seria um ato eleitoral condicionado à partida. O que não se esperava é que se convertesse numa verdadeira sátira política.

http://twitter.com/CountBinface/status/2074513701286162752

No mesmo dia em que Nigel Farage forçou a convocação das eleições, o Conde Binface divulgou que avançaria na corrida eleitoral com uma mensagem nas redes sociais: “Labour, Tories, Lib Dems e Verdes: exijo que não compitam em Clacton. Serei o candidato da união e prometo que vou construir pelo menos uma casa a preços acessíveis. Nigel Farage diz que quer que seja o povo contra o establishment. Deixem que seja. Deixem-no que compita comigo”, escreveu o comediante nas redes sociais.

Certo é que o apelo foi ouvido. Ainda que haja mais de 30 candidatos independentes nas eleições de Clacton-on-Sea, apenas o Conde Binface reuniu o apoio (ainda que sempre tácito) dos partidos tradicionais. Este fator elevou a figura do caixote de lixo a um novo patamar: o de novo rival de Nigel Farage. Tanto assim é que, no Parlamento britânico, os deputados da oposição até pediram a realização de um debate televisivo entre os dois, que nunca foi avante.

Uma brincadeira ou realidade? Quem é o Conde do Caixote do Lixo?

Na política britânica, não é incomum haver candidatos satíricos a concorrer a eleições. É uma forma de espelhar o absurdo do próprio debate e ridicularizar a política tradicional. No Reino Unido, existe, desde meados dos anos 80, o Partido Oficial dos Lunáticos Monstruosamente Delirantes — que apresenta sistematicamente figuras extravagantes a várias eleições. O Conde Binface recupera esta roupagem, mas apenas agora em Clacton-on-Sea é que uma candidatura deste género alcançou uma projeção inédita.

Havia, aliás, a figura do Lord Buckethead — uma personagem muito parecida com o Conde Binface, encarnada pelo próprio comediante nas eleições de 2017 no círculo eleitoral de Theresa May. Esta figura já tinha sido usada em eleições anteriores — a primeira em 1987 — por outros candidatos. Impedido entretanto de usar o nome por questões de direitos de autor, o comediante criou o Conde Binface a tempo das eleições gerais de 2019, acabando por concorrer no círculo eleitoral que elegeu o ex-primeiro-ministro Boris Johnson.

A candidatura é amadora e os recursos financeiros são poucos. No entanto, esse também é um dos objetivos. A aposta principal consiste na personagem em si. O Conde Binface apresenta-se como um “combatente de espaço intergaláctico e líder dos Recyclons do planeta Sigma IX”. “Cheguei à Terra em 2017. Faço campanha por justiça, lasers, Lovejoy, croissants a bons preços e o regresso do [programa de televisão] Ceefax”, lê-se no site que criou o comediante.

Jonathan David Harvey nunca escondeu a sua identidade por trás da máscara. O comediante e produtor de televisão de 46 anos estudou Literatura Clássica na Universidade de Oxford antes de ingressar no mundo do entretenimento. Apesar de a personagem ser intencionalmente absurda, traz consigo um fundo de seriedade política. À revista Time, na pele do Conde Binface, disse considerar “estrategicamente estranho convocar eleições enquanto se é alvo de uma investigação por parte de uma comissão parlamentar”.

“Se acho que isto é um desperdício de tempo e dinheiro? Pode achar-se que sim. Não posso comentar”, declarou o Conde Binface. Ao Guardian, Raheem Kassam, antigo conselheiro de Nigel Farage, sintetizou a perspetiva do líder do Reform UK sobre a personagem: “Jonathan David Harvey ganha a vida a fazer programas de comédia para a BBC — é um elitista liberal de Oxbridge [expressão que aglutina as universidades de Oxford e Cambridge] que fez uma série de publicações no Twitter contra o Brexit, Trump e os britânicos”.

Isto não significa que a campanha de Nigel Farage o desvalorize; em vez disso, olha para ele como parte do próprio sistema, “fingindo ser um tipo qualquer num fato”, segundo as palavras de Raheem Kassam. Ainda assim, o Conde Binface desafia a própria definição de establishment no Reino Unido e coloca uma questão: se o próprio líder do Reform UK não é, afinal, parte desse mesmo sistema que tanto critica.

Em todo o caso, o Conde Binface publicou um manifesto oficial de 20 propostas para Clacton-on-Sea, combinando ideias absurdas com farpas políticas muito diretas. Por exemplo, numa crítica clara a Nigel Farage, a 15.ª medida estabelece: “Não vou aceitar 5 milhões de libras em presentes de milionários cripto (na Terra)”. Já a quarta promessa consiste em “passar mais tempo em Clacton do que em Washington D.C.” — um ataque à proximidade entre o líder do Reform UK e Donald Trump.

http://twitter.com/CountBinface/status/2081691151099133953

Além das propostas que servem como uma crítica a Nigel Farage, o Conde Binface colocou propostas intencionalmente absurdas. Promete representar o Reino Unido no Festival Eurovisão de 2027 e, implicitamente, sugere que venceria o concurso musical, uma vez que Clacton-on-Sea acolheria a próxima edição. Neste cenário, sugere que o antigo jogador de futebol Wayne Rooney deveria ser o “novo comentador especialista da BBC na Eurovisão”.

Entre os pontos mais bizarros, existe a convocação de um referendo para decidir se Plutão deve “recuperar o estatuto de planeta”, um imposto extraordinário sobre “romances policiais ligeiros escritos por celebridades” e a exigência de que os buracos nas estradas sejam “tapados com exemplares do manifesto eleitoral do Partido Trabalhista de 2024”. Recordando outros programas passados de outras eleições, o comediante pretende “nacionalizar a cantora Adele”.

Em declarações ao Guardian, David Hughes, antigo assessor da campanha do Lord Buckethead nas eleições de 1987, considera que, além de toda a crítica social, a candidatura sublinha como “o elemento absurdo” faz parte das eleições britânicas. E indica o verdadeiro alvo da sátira: “Há aquela piada de que existe ali um candidato absurdo, completamente inapropriado e uma paródia — e esse candidato está a concorrer contra o Conde Binface. Isso é que é engraçado.”

"Há aquela piada de que existe ali um candidato absurdo, completamente inapropriado e uma paródia — e esse candidato está a concorrer contra o Conde Binface. Isso é que é engraçado."
David Hughes, antigo assessor da campanha do Lord Buckethead nas eleições de 1987

Farage mantém lugar de deputado, mas não “será uma verdadeira vitória”

Embora tenha alcançado uma projeção mediática sem precedentes para um candidato satírico, o Conde Binface dificilmente vencerá as eleições de Clacton-on-Sea. As sondagens anteveem uma vitória folgada de Nigel Farage, na ordem dos 70% dos votos — um resultado inequívoco que o líder do Reform UK poderá usar como prova de que a polémica da doação milionária não afetou a sua força política.

Em declarações ao Observador, Tim Bale, professor de Ciência Política na Queen Mary University of London, subscreve a visão de que Nigel Farage “vai ganhar as eleições” e manter o cargo de deputado. No entanto, o especialista ressalva que a vitória ocorrerá em “circunstâncias ridículas” — dado que o seu principal adversário é um comediante disfarçado de caixote do lixo alienígena. “Não será uma verdadeira vitória, por mais que tente dar a volta ao texto.”

Ou seja, a estratégia dos partidos tradicionais britânicos acabou por surtir efeito: expuseram Nigel Farage ao ridículo. Ao recusarem concorrer contra ele em Clacton-on-Sea, deixaram o líder partidário a partilhar o palco com uma série de candidatos anónimos, dando força ao Conde Binface. Para Tim Bale, este episódio eleitoral “provavelmente não será fatal”, mas “prejudicou-o” e poderá causar danos futuros à sua ambição de chegar a primeiro-ministro.

Na mesma lógica, Tim Bale lembra que Nigel Farage — ao ser reeleito deputado — continuará a enfrentar o escrutínio da oposição. “Vai ter de enfrentar uma investigação às suas contas”, salienta o especialista, sublinhando que o escândalo da doação “afetou o apoio ao partido” e já provocou uma queda significativa do Reform UK nas sondagens a nível nacional. Assim, embora o dirigente partidário tenha tentado desviar as atenções com esta eleição, a polémica está longe de ficar sarada.

Mesmo estando à frente em algumas sondagens a nível nacional, Nigel Farage está longe de ser uma figura consensual no Reino Unido. Aliás, um estudo de opinião da Ipsos com mil inquiridos, realizado em meados de julho, revelou que 33% dos britânicos preferiam votar no Conde Binface em vez do líder do Reform UK — contra apenas 21% que apoiariam o dirigente partidário, enquanto 32% optaram por responder “nenhum dos dois”.

Ao comentar estes resultados, Keiran Pedley, especialista da Ipsos, recordou que “são os eleitores de Clacton que vão às urnas” e não todos os britânicos. “Ainda assim, o facto de apenas um em cada cinco britânicos preferir a vitória de Nigel Farage reflete como a sua taxa de aprovação tem vindo a diminuir ao longo do último ano — mesmo que a base de apoio do Reform se mantenha fiel. As sondagens indicam também que as investigações no Parlamento devem prosseguir, mesmo que Farage vença as eleições. A sua vitória não fará esses assuntos desaparecer“, frisou.

Neste sentido, uma sondagem da YouGov realizada entre 9 e 10 de agosto, com mais de dois mil inquiridos, mostra que o Partido Trabalhista — agora liderado pelo novo primeiro-ministro, Andy Burnham — voltou a liderar os estudos de opinião. O cenário atual é de um quase empate a três: os trabalhistas registam 24% das intenções de voto, o Reform UK chega aos 22%, enquanto os conservadores recuperam até aos 21%. Apesar da exposição mediática e da participação constante em campanhas, Nigel Farage parece começar a perder algum fôlego nas sondagens.

Por muito que o absurdo faça parte da comédia e da política britânica, certo é que o Conde Binface colocou Nigel Farage numa posição desconfortável: esvaziou a sua mensagem antissistema e ridicularizou o seu populismo, expondo as incoerências e vulnerabilidades do líder do Reform UK em relação à doação milionária. O humorista desferiu um golpe no rival, mas o dirigente partidário promete continuar a combater as elites — transmitindo a mensagem de que Jonathan David Harvey não passa de mais um elemento desse mesmo sistema.