Vivemos numa sociedade em que, muitas vezes, aqueles que se encontram numa posição de maior fragilidade são também aqueles que têm menos capacidade para fazer ouvir a sua voz. Entre essas pessoas encontram-se, inevitavelmente, muitos dos nossos idosos.
Todos nós conhecemos alguém que, em determinado momento da vida, teve de tomar uma decisão difícil: colocar um familiar ou uma pessoa próxima num lar. Na maioria das vezes, essa decisão não é tomada por falta de amor, mas precisamente pelo contrário. É tomada porque existe uma preocupação genuína com aquela pessoa e porque, perante as exigências da vida, nem sempre é possível garantir em casa os cuidados de que necessita.
Há pessoas que já não conseguem permanecer sozinhas, que necessitam de acompanhamento permanente ou que precisam de cuidados que os seus familiares, por falta de tempo, de condições ou de capacidade financeira, não conseguem assegurar.
É nesse momento que o lar surge, aos olhos de uma família, como um lugar de segurança.
Um lugar onde esperamos que esteja alguém capaz de cuidar daqueles que mais amamos.
Um lugar onde esperamos encontrar respeito, atenção, dignidade e humanidade.
Confiamos nessas instituições aquilo que temos de mais precioso: as pessoas que amamos.
E é precisamente por isso que é tão difícil aceitar quando essa confiança é quebrada.
Não podemos aceitar que uma pessoa idosa seja humilhada, ameaçada, negligenciada ou privada dos cuidados de que necessita. Não podemos aceitar maus-tratos, sejam eles físicos ou psicológicos. E não podemos, sobretudo, olhar para determinadas situações como se fossem normais apenas porque estamos perante pessoas idosas, frágeis ou dependentes.
A idade nunca pode ser uma razão para retirar dignidade a alguém.
Estamos a falar de pessoas que passaram uma vida inteira a trabalhar, a lutar, a constituir famílias, a ultrapassar dificuldades e a contribuir para a sociedade em que hoje vivemos.
Depois de uma vida inteira de trabalho, esforço e sacrifício, chegam a uma fase em que precisam de ajuda para realizar tarefas que anteriormente conseguiam fazer sozinhas. É precisamente nessa fase que mais precisam de nós.
Precisam de cuidados acrescidos.
Precisam de paciência.
Precisam de compreensão.
Precisam de respeito.
E, acima de tudo, precisam de sentir que continuam a ser pessoas com valor, com voz e com direitos.
Mas existe uma realidade sobre a qual precisamos de falar muito mais: há pessoas que sofrem e não denunciam porque têm medo.
Medo de represálias. Medo de serem tratadas ainda pior. Medo de não serem acreditadas. Medo de perderem o pouco apoio que têm. Medo de que a família descubra. Medo de que uma denúncia não sirva para nada.
E, por vezes, existe também o silêncio daqueles que sabem ou suspeitam de alguma coisa, mas que optam por não falar.
É contra esse silêncio que escrevo.
A todas as pessoas que estejam a passar por uma situação de maus-tratos, quero deixar uma mensagem: não tenham medo de falar.
A culpa não é vossa.
Pedir ajuda não é criar problemas. Denunciar uma situação injusta não é ser ingrato. Falar não é causar sofrimento à família, pelo contrário.
Falar pode ser a única forma de impedir que aquilo que está a acontecer continue.
Vivemos num Estado de Direito, numa sociedade em que cada pessoa deve poder exigir que os seus direitos sejam respeitados. Ninguém deve sentir que está condenado ao silêncio por depender dos cuidados de terceiros.
E esta responsabilidade não pertence apenas à pessoa que sofre. Pertence também às famílias. Aos amigos. Aos profissionais. Aos responsáveis pelas instituições. E à sociedade em geral.
Se conhecemos alguém que pode estar a sofrer, não devemos simplesmente ignorar os sinais. Devemos perguntar. Devemos ouvir. Devemos procurar ajuda. Devemos estar atentos, porque, por vezes, uma pessoa idosa pode não ter força ou coragem para dizer aquilo que está a acontecer.
E, nesses momentos, a nossa voz pode ser a voz que lhe falta.
Ao longo do meu percurso, tive contacto com situações que me fizeram compreender ainda mais profundamente a importância deste problema. Existem situações em que a falta de cuidados adequados pode ter consequências extremamente graves para pessoas que já se encontram numa posição de grande fragilidade.
E é impossível não pensar numa coisa simples:
temos apenas uma vida.
Cada dia que passa é um dia que não regressa, cada momento perdido com alguém que amamos é um momento que nunca poderemos recuperar.
Por isso, quando existe a possibilidade de uma pessoa estar a ser maltratada ou negligenciada, não podemos simplesmente esperar que o problema desapareça.
Não podemos permitir que o silêncio seja aquilo que protege quem maltrata, em vez de proteger quem é maltratado.
A proteção das pessoas idosas não pode ser apenas uma responsabilidade da família.
É uma responsabilidade de todos nós.
Não devemos esperar que aconteça algo irreparável para depois perguntar por que razão ninguém falou. Devemos falar antes. Devemos agir antes. Devemos ouvir antes.
A todas as pessoas que trabalham diariamente a cuidar dos nossos idosos, deixo também uma palavra de reconhecimento: cuidar de alguém numa fase de maior fragilidade da sua vida é uma enorme responsabilidade e, quando feito com dedicação e humanidade, merece todo o nosso respeito.
Mas precisamente porque essa responsabilidade é tão grande, qualquer situação de maus-tratos ou negligência deve ser levada a sério, a quem sofre, digo novamente: não tenha medo de pedir ajuda. Às famílias, peço: estejam atentas. A quem testemunha, peço: não fique em silêncio.
E à sociedade, peço apenas que não se esqueça daqueles que muitas vezes já não conseguem lutar sozinhos.
Porque um idoso não deixa de ter direitos quando entra num lar.
Não deixa de ter dignidade.
Não deixa de ter sentimentos.
Não deixa de ter uma história.
E, sobretudo, não deixa de ser alguém que merece ser tratado com humanidade.
Quem cuida deve proteger.
Quem sofre deve ser ouvido.
Quem testemunha deve ter coragem para falar.
E quem é maltratado deve saber que não está sozinho e que pedir ajuda nunca deve ser motivo de vergonha ou medo.
O silêncio não pode ser a resposta.