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Basil da Cunha: “É uma despedida, mas queremos abrir um novo capítulo”

É dia de “O Jacaré”, representante português em Locarno, a concurso pelo Leopardo de Ouro. Para o cineasta luso-suíço, uma “última dança” com personagens e intérpretes do bairro da Reboleira, Amadora.

Francisco Ferreira
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Depois de O Fim do Mundo (2019), numa altura em que os bulldozers já tinham entrado na Reboleira, e da longa-metragem seguinte, Manga D’Terra (2023), fixado na desintegração do bairro e na voz de Eliana Rosa (cantora e actriz que se tornou sua companheira de vida), o luso-suíço Basil da Cunha volta a filmar a Reboleira em que fixou residência há já longos anos e, pela terceira vez, compete no concurso principal do Festival de Locarno, que premeia com Leopardos o melhor das suas escolhas.

O Jacaré, produção luso-suíça, à semelhança da estrutura financeira dos filmes anteriores de Basil, fecha agora uma “trilogia da Reboleira” nesta obra — é assim que o cineasta a considera. Pelo meio, realizou Basil, no mesmo sítio, a curta 2720 (para quem não sabe, é o código postal da Reboleira), um dos seus filmes mais premiados (venceu o Curtas, em Vila do Conde). Foi também na Reboleira que Basil realizou a sua primeira longa-metragem, Até Ver a Luz (2013), assim como as primeiras curtas desde que o cineasta nascido em 1985, em Morges, perto de Lausanne, à beira do lago Léman, se fixou em Portugal.

A sua chegada ao território nacional, por volta de 2008, é uma história que vale a pena ser contada pois também tem contornos de filme policial – tal como O Jacaré. Quando decidiu deixar a Suíça, o país em que nasceu e sempre viveu até ao início da sua vida adulta, Basil, filho de emigrantes portugueses, aterrou em Lisboa com a promessa do aluguer de um andar cujo pagamento tinha adiantado. Era uma falcatrua. Enganado e frustrado por ter ficado sem tecto e sem dinheiro, comprou o primeiro jornal e procurou o anúncio do apartamento com renda mais barata. Era na Reboleira. Basil nunca tinha posto os pés na Reboleira. Não fazia ideia onde ficava. Quando lá chegou e estabeleceu acordo, os vizinhos, maioritariamente oriundos da comunidade cabo-verdiana, julgaram que ele era polícia à paisana. E os primeiros tempos não foram fáceis, como se imagina.

Pois foi na Reboleira, passo a passo, em dias que se tornaram meses e depois anos, que Basil assentou arraiais e construiu a sua “família de cinema”, assim como uma filiação natural, de facto, pois é agora pai de um bebé de colo que também trouxe a Locarno. O Jacaré é o mais thrillesco dos seus filmes, aquele que mais aposta em cenas de acção, por vezes em montagem paralela, e numa violência encenada — mas nunca à bruta, sempre fraterna para as personagens. Nos filmes de Basil, de resto, a violência existe mas vem sempre de fora, como ele nos disse em tempos. “Já nos basta a percepção errada que as pessoas fazem deste bairro que eu ando a filmar há tanto tempo. Não é a melhor, nem a mais justa.”

Um bairro reinventado pelo cinema

A Reboleira que se vê em O Jacaré, esse bairro que Basil tão bem conheceu, já não existe. Rodado em 2024, um ano depois de Manga d’Terra, este novo filme fixou ainda as últimas fachadas que restavam; foi, aliás, buscar pessoas que, entretanto, já tinham encontrado outro sítio para morar. Basil da Cunha define O Jacaré como “uma última dança”, reunião de algumas das personagens mais marcantes dos filmes anteriores do realizador. Uma espécie de derradeiro encontro entre figuras que atravessaram as curtas e as longas-metragens, “num filme coral”, contou o cineasta, por telefone, ao Observador, em vésperas da sua chegada ao festival: “Escrevi uma história que era muito mais complexa do que a que vai chegar ao ecrã mas o motor do filme é esse encontro de pessoas, essa celebração.”

https://www.youtube.com/watch?v=r3oOiW8BUSY

O dinheiro e o jacaré

O Jacaré foi transformado pelas circunstâncias ao longo da sua construção, de mudanças na vida pessoal do cineasta a sucessivos problemas de produção que o obrigaram a repensar o projecto. Só que Basil, por outro lado, não tinha o tempo a seu favor porque o bairro estava mesmo a desaparecer. “A três meses da rodagem, mudámos de produtor e de coprodutor, o que implicou também uma mudança radical da equipa. O filme ‘monumental’ que tínhamos imaginado já não fazia sentido e fomos reenviados para o sítio onde pertencemos, para uma história mais humilde, baseada num dos primeiros relatos que eu ouvi quando cheguei à Reboleira. Alguém de fora assaltou o bingo e trouxe o dinheiro para o bairro, mas ninguém sabia onde é que ele estava. Mais tarde, acabou por aparecer, mas ficaram para sempre as teorias, as suspeitas e as conversas em torno do seu desaparecimento.”

Como nos filmes anteriores, O Jacaré trabalha com pessoas que estão muito próximas de Basil da Cunha. Os intérpretes são figuras conhecidas do bairro, estão habituados ao trabalho do realizador, outros chegaram pela primeira vez aos seus filmes. “Na Reboleira, temos hoje uma ‘cultura de cinema’ porque quase toda a gente já teve, directa ou indirectamente, contacto com as minhas rodagens. Toda a gente, de uma geração a outra, tem um irmão, um primo, que participou, que ajudou no catering ou deu uma mão a colocar um projector para fazermos uma cena qualquer durante a noite. Mas esta familiaridade também criou uma responsabilidade. Quando alguém entra tem que fazer tão bem ou melhor do que aquilo que já foi feito. O nível de exigência é alto, não podes desapontar.”

No filme, depois do assalto ao bingo e do despiste do ladrão, vem também o jacaré do título, um bicho verdadeiro (“não temos nada de CGI e de efeitos especiais…”) que alguém traz para o PC (Paulo César), para servir de atracção no seu bar. Por ali também andam a Xana (Alexandra Sena), o Batcha (Heidir Correia), o Mafia (Pedro Ferreira) ou o Machine (Pedro Diniz), para citar alguns. Só que o jacaré escapa-se, mete-se por aquelas ruelas, esconde-se no mato e ninguém o encontra, pregando sustos num foco de conflito adicional. A narrativa é posta em movimento por uma enorme quantia de dinheiro que passa de mão em mão, desencadeando suspeitas, ambições e medos. Já “jacaré” é uma expressão usada no bairro para designar determinadas pessoas — “os trafulhas”, que estão sempre com jogadas e acham que são os melhores. “Perante o desaparecimento do dinheiro, a suspeita torna-se contagiosa: toda a gente acha que o outro é jacaré”, remata Basil. “Mas ele é lindo, é o animal mais lindo de todos. Cansa-se depressa, anda um metro e meio e tem que descansar duas horas. Para colaborar, é chato… Mas também é por isso que gostamos tanto dele.”

Mulheres ao poder

O anterior Manga d’Terra trouxe uma mudança importante no cinema de Basil da Cunha pela centralidade das mulheres e pela dimensão musical dessa obra. A Reboleira era vista através de Rosa, a jovem cabo-verdiana interpretada por Eliana Rosa, e pelas redes de solidariedade femininas que sustentavam a comunidade. O realizador descreveu então as mulheres como “a base do bairro”, sublinhando a sua força e capacidade de organizar a vida familiar. O Jacaré é de outro género, mas prolonga essa atenção. São elas capazes de dar à volta às circunstâncias? Resposta sem hesitações: “Completamente. Elas dão a volta. É aquela ideia de que o cinema pode vingar o que a realidade muitas vezes não oferece. Eu não filmo só o que existe, procuro também aquilo que poderia existir.”

Neste ponto, O Jacaré atinge então a sua dimensão mais melancólica porque é a despedida de um lugar, a Reboleira que Basil conheceu e filmou durante anos. A despedida não significa que deixa de existir uma ligação ao bairro. Acontece que a paisagem alterou-se e o próprio cinema de Basil já não quer permanecer no mesmo ponto. “O que está filmado, tudo o que viste agora, já é uma encenação. Criámos um filme que pertence a um tempo anterior ao actual e reconstruímos aquilo que eu queria captar de forma espontânea: as festas, a rua, as bicicletas das crianças, as pessoas… Aquela vida toda ‘é cinema’, é artifício fabricado.”

A família, essa, permanece — os actores, os amigos, a comunidade — mas a ambição mudou. “Este é o último filme desta colecção que retratou a Reboleira. Foi escrito pelas pessoas, para as pessoas. Agora estamos a preparar novos métodos de trabalho, a reprogramar outra coisa, noutro lugar”. Esse novo lugar poderá incluir filmes de terror, ou super-heróis, sempre com uma dimensão política. “Acho que já estamos suficientemente fortes. Bora abrir um novo capítulo agora.”

O Jacaré vai chegar às salas portuguesas ainda este Verão, a 3 de Setembro próximo, distribuído pela Nitrato. Para já, estreia-se esta tarde em Locarno, minutos antes do eclipse solar que está prestes a acontecer, com outras sessões agendadas para os dias seguintes. Deste lado, esperamos que encontre o entusiasmado acolhimento que Manga d’Terra recebeu no Ticino há 3 anos. E que chegue ao palmarés do próximo fim de semana. O filme fecha um ciclo mas “não é uma despedida triste”, conclui Basil: “Nós queremos mais.”

O autor escreve segundo a antiga ortografia