Há muitos anos que discuto incêndios em Portugal.
Sei alguma coisa de evolução da paisagem, mas os fogos só apareceram por arrasto, lendo e conversando com pessoas que estudam realmente o assunto, ao contrário de mim.
Tudo começou por me terem posto numa prateleira e, para ocupar o tempo, dediquei-me a tentar perceber os fundamentos de conservação da natureza dos orçamentos da área protegida em que estava, procurando perceber por que razões se gastava tanto dinheiro com os fogos e tão pouco com a gestão do património natural, que deveria ser o objectivo central da área protegida.
Com o tempo fui reduzindo e depurando as propostas que defendo para a gestão sensata do fogo num país em que as condições naturais para a ocorrência de fogos estão muito presentes, a pobreza do solo agrícola empurrou as pessoas para fora do mundo rural e a descoberta dos adubos de síntese deixou sem utilidade social, e consequentemente, ao abandono, as terras marginais.
Quando pouca gente falava em cabras a propósito da gestão do fogo, estive mais envolvido em propostas para demonstrar a utilidade do pastoreio, e acho que o melhor texto sobre esta matéria que escrevi até foi sobre isso (o texto foi publicado no Público on line, mas esta ligação remete para um blog porque não tenho acesso ao texto que escrevi, gratuitamente, para o Público).
A ideia, que está longe de ser minha, ou sequer portuguesa, foi fazendo o seu percurso até ser adoptada pela administração que criou um programa de “cabras sapadoras”, pela mão de Miguel Freitas.
O problema, como é costume, é que a ideia foi adoptada nos termos da burocracia que desenhou o sistema de candidaturas, tornando-o inacessível a quem produz cabras porque quer vender cabritos, e uma via aberta para quem, dominando a burocracia das candidaturas, queira apenas aproveitar mais uma oportunidade de financiamento.
O resultado foi o habitual, havendo dinheiro e problemas, o dinheiro desaparece, os problemas só raramente.
Agora defendo coisas simples, pagar 150 euros por hectare a quem apresente prova documental simples (leia-se, fotografias) de que o seu terreno não agrícola tem menos de 50cm de altura de mato, em média.
Portugal tem adoptado também soluções simples para responder aos maus anos, do ponto de vista dos fogos: designa umas comissões técnicas independentes para avaliar o que aconteceu.
Essas comissões têm produzido muito bom trabalho, têm gente que percebe do assunto (houve um partido que me convidou, mas eu não podia, sugeri outra pessoa e a sugestão foi aceite, ainda bem, porque essa pessoa seria sempre mais útil que eu numa comissão deste tipo), produzem uns relatórios bem feitos, mesmo que sejam, como são, documentos de compromisso entre pessoas diferentes com visões diferentes do assunto.
Quem é que nunca gosta destas comissões?
A associação patronal dos bombeiros, de seu nome oficial, e enganador, Liga dos Bombeiros Portugueses, um abuso das direcções das associações humanitárias de bombeiros, que fingem representar os bombeiros quando apenas representam as direcções das associações de bombeiros.
Logo no início destas comissões a associação patronal dos bombeiros protesta por não estar representada (como se as associações de produtores florestais ali estivessem, por exemplo), e logo que são produzidos os relatórios, dizem que não há lá nada que interesse.
Nesta última comissão estavam Paulo Fernandes, o investigador do fogo mais citado de Portugal e um dos mais relevantes no contexto mundial, Nuno Guiomar, Fábio Silva, Joaquim Sande Silva, só para citar alguns que conheço melhor, e que são das pessoas que mais sabem sobre gestão do fogo em Portugal.
Do lado da associação patronal dos bombeiros não conheço ninguém que tenha formação sólida em ecologia e gestão do fogo (haverá, com certeza, eu é que desconheço).
Conheci, por acaso, o responsável, em determinada altura, pela escola nacional de bombeiros, uma parceria público-privada em que o contribuinte paga e a associação patronal dos bombeiros gere o dinheiro do contribuinte.
Formalmente está lá também o Estado através da Protecção Civil, mas convém saber que muitos dos concursos que o Estado abre para o preenchimento de lugares na protecção civil exigem uns anos de chefia de bombeiros, não sei se haverá muitos outros cargos públicos em que as condições de acesso dependam do exercício de cargos em associações privadas.
Era um professor de história, presidente de câmara muitos anos (foi nessa qualidade que o conheci razoavelmente bem) e, que eu tenha conhecimento, sem nenhum curriculum ou experiência relacionada com o fogo comparável aos nomes que citei acima.
De resto, quem tiver curiosidade, pode ir comparar o curriculum de qualquer um dos nomes citados da comissão técnica independente com cada um dos membros do conselho científico da escola nacional de bombeiros e fica esclarecido.
Para já não falar do curriculum ligado ao fogo do presidente da associação patronal dos bombeiros, porque realmente não vale a pena.
Daqui não viria mal ao mundo, o que não falta, no país, são pessoas e instituições, incluindo empresariais, que preferem a “escola da vida” ao camoniano “honesto estudo, com longa experiência misturado”.
E, para ataque inicial a um incêndio, de facto, não é preciso muito mais que uma logística minimamente afinada, previsões meteorológicas minimamente fiáveis e a “escola da vida”.
O problema é quando menos de 0,5% das ignições dão origem a mais de 85% da área ardida, como aconteceu no ano passado, revelando que talvez até sejamos muito bons no tal ataque inicial a um fogo nascente, mas temos muito, muito a melhorar quando o fogo ganha escala, em condições meteorológicas e de disponibilidade de combustível adversas.
Nessas circunstâncias não basta andar a jogar à rabia com o fogo, ou esperar por ele na beira da estrada, organizando bem a evacuação das pessoas (é pena não se poderem evacuar as casas, que a coisa também se resolvia com a “escola da vida”).
Aí já é preciso conhecer o fogo, saber como se comporta, saber interpretar a previsão meteorológica e a sua relação com o terreno concreto em que o fogo ocorre, saber quando não gastar esforços e recursos em batalhas inglórias, e preparar, com tempo e distância, as oportunidades que permitam controlar o fogo, sem que ele nos controle a nós.
Para isso, francamente, a “escola da vida” não chega e era bom que a associação patronal dos bombeiros ganhasse consciência de que, a prazo, é a sua credibilidade e suporte social que está em causa: a sociedade não tem recursos, e dentro de alguns anos, vontade, para continuar a despejar mais, e mais, e mais dinheiro em cima das habituais reivindicações de mais meios e poder.
Um bocadinho de humildade era suficiente, começando por reconhecer as limitações gritantes que a falta de profissionalização e especialização tem alimentado nas associações humanitárias de bombeiros, de quem a sociedade espera bem mais que o que podem dar.