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Não deite os óculos fora. Até ao fim de 2027 ainda vamos ter quase toda a família dos eclipses

Não deite fora os óculos: até ao fim de 2027 chegam quase todos os tipos de eclipses, incluindo outro total do Sol, a passar mesmo ao lado de Portugal. Veja quais são, quando acontecem e onde.

Filomena Martins
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Não deite os óculos fora quando o eclipse do fim da tarde desta quarta-feira acabar. Guarde-os numa gaveta, de preferência sem os dobrar nem riscar, porque vai voltar a precisar deles mais depressa do que talvez imagine. Não para todos os eclipses que aí vêm — quando é a Lua a ser eclipsada podemos olhar diretamente para ela —, mas para os solares. E os próximos meses vão proporcionar uma pequena coleção das diferentes maneiras que Sol, Terra e Lua têm de se esconder uns dos outros: teremos um eclipse parcial da Lua, um eclipse anular do Sol, eclipses penumbrais e, menos de um ano depois deste 12 de agosto de 2026, outro eclipse total do Sol, desta vez com mais de seis minutos de escuridão no ponto máximo e uma faixa de totalidade que passa mesmo ao lado de Portugal, pelo sul de Espanha, mas não nos toca. Nem um bocadinho.

A regra dos óculos é bastante mais simples do que o calendário. Num eclipse lunar, não precisamos deles: continuamos a olhar para a Lua, iluminada pelo Sol, embora durante algum tempo a Terra lhe corte parte dessa luz. Num eclipse solar parcial ou anular, os óculos próprios para observação solar têm de ficar postos sempre que olhamos diretamente para o Sol. A NASA explica aqui as regras de segurança e a diferença entre eclipses parciais, anulares e totais e recomenda ainda verificar os óculos antes de reutilizá-los: se estiverem riscados, rasgados ou danificados, devem ser descartados (a validade deve também ser conferida). E há outro aviso que vale a pena repetir: óculos de eclipse não tornam seguros binóculos, telescópios ou máquinas fotográficas apontados ao Sol; esses equipamentos precisam de filtros solares próprios colocados à frente da ótica.

E não será preciso esperar muito pelo primeiro eclipse da lista.

28 de agosto de 2026. Dezasseis dias depois, um eclipse parcial da Lua

Na madrugada de 28 de agosto, apenas 16 dias depois de a Lua passar diante do Sol, a geometria inverte-se. Desta vez é a Terra que fica entre o Sol e a Lua e projeta a sua sombra sobre o nosso satélite. O resultado será um eclipse parcial da Lua, visível de Portugal, e bastante profundo: no máximo, uma grande parte do disco lunar estará mergulhada na região mais escura da sombra terrestre. A NASA classifica-o como eclipse lunar parcial e indica a Europa entre as regiões de visibilidade.

É aqui que vale a pena perceber o que significa realmente a palavra “parcial”. A Terra projeta para o espaço duas regiões de sombra. A mais escura chama-se umbra: aí, vista da Lua, a Terra esconde completamente o Sol. Em redor existe uma sombra muito mais ténue, a penumbra, onde a Terra tapa apenas uma parte do disco solar. Num eclipse lunar parcial, a Lua entra na penumbra, continua a avançar e uma parte dela chega à umbra, mas não toda. Vista da Terra, começa então a aparecer aquela característica “dentada” escura que cresce sobre o disco lunar. Se a Lua inteira entrasse na umbra, teríamos um eclipse lunar total; se passasse apenas pela penumbra, teríamos um eclipse penumbral. A NASA tem aqui a explicação dos três tipos de eclipse lunar.

https://www.youtube.com/watch?v=lNi5UFpales

Em Lisboa, a fase penumbral começa às 2h23 e, inicialmente, será difícil perceber qualquer alteração. A fase parcial começa depois, quando a Lua entra na umbra, e o máximo ocorre às 5h12. A simulação local permite também acompanhar a posição da Lua no céu.

Este eclipse também permite perceber por que é que a Lua eclipsada pode ganhar tons avermelhados. Mesmo dentro da umbra, a Lua não fica necessariamente preta: alguma luz solar atravessa a atmosfera terrestre, onde os comprimentos de onda mais curtos, sobretudo azuis e violetas, são mais facilmente dispersos, enquanto vermelhos e alaranjados conseguem atravessar melhor a atmosfera e são desviados para a sombra. É o mesmo processo físico que ajuda a pintar de vermelho um nascer ou um pôr do Sol. A NASA explica aqui por que uma Lua eclipsada pode ficar vermelha.

https://www.youtube.com/watch?v=RSI5pDRK94A

Óculos? Não. Podemos acompanhar um eclipse lunar a olho nu e usar binóculos ou telescópio sem qualquer filtro solar.

https://www.youtube.com/watch?v=mbT50-rppaU

6 de fevereiro de 2027. O “anel de fogo” que Portugal quase não vê

O primeiro eclipse solar de 2027 é completamente diferente. A 6 de fevereiro, a Lua volta a passar entre a Terra e o Sol, mas desta vez não consegue esconder todo o disco solar para quem fique na região central do eclipse. O resultado é um eclipse anular em que sobra em redor da silhueta negra da Lua um círculo brilhante de Sol, o conhecido “anel de fogo”.

A razão está, em boa medida, na distância. A órbita da Lua em redor da Terra não é um círculo perfeito e, portanto, a distância entre os dois corpos varia. O mesmo acontece com o tamanho aparente da Lua no nosso céu. Quando o alinhamento acontece numa altura em que o disco lunar nos parece ligeiramente menor do que o disco solar, a Lua passa diretamente à frente do Sol mas não consegue escondê-lo por completo. Num eclipse total, pelo contrário, o disco aparente da Lua é suficientemente grande para tapar a superfície brilhante do Sol.

É uma coincidência de proporções extraordinária: o Sol tem aproximadamente 400 vezes o diâmetro da Lua, mas encontra-se também aproximadamente 400 vezes mais distante de nós. É por isso que, vistos da Terra, os dois discos têm tamanhos aparentes semelhantes e a Lua consegue umas vezes tapar completamente o Sol e outras deixar à volta aquele anel.

Portugal, porém, não estará dentro da faixa deste eclipse anular. A Madeira e uma parte do Sul poderão apanhar uma fase parcial pequena, mas não haverá “anel de fogo” em território português. E este é precisamente um dos casos em que os óculos nunca podem ser retirados: num eclipse anular, mesmo no momento máximo e mesmo no centro da faixa, continua sempre exposta uma parte da superfície brilhante do Sol. A NASA explica por que um eclipse anular exige proteção ocular durante todo o fenómeno.

Óculos? Sim. Sempre.

20 para 21 de fevereiro de 2027. O eclipse que pode acontecer à nossa frente sem darmos por ele

Duas semanas depois voltamos à Lua e encontramos provavelmente o membro mais discreto desta família. Na noite de 20 para 21 de fevereiro, Portugal poderá acompanhar um eclipse penumbral da Lua. Em Lisboa, começa às 21h12, chega ao máximo às 23h12 e termina à 1h13; no Porto, os horários são praticamente os mesmos.

A maneira mais fácil de perceber um eclipse penumbral talvez seja imaginar que, em vez de estarmos na Terra, estamos de pé na Lua. Olhamos para o Sol e vemos a Terra passar diante dele, mas sem o esconder completamente. Ainda chega luz solar à superfície lunar, só que menos do que habitualmente. Da Terra, portanto, não vemos uma grande sombra negra avançar pela Lua: vemos apenas o seu brilho diminuir ligeiramente, sobretudo perto do máximo. A própria NASA avisa que um eclipse penumbral pode ser tão subtil que quem não souber que está a acontecer pode nem dar por ele.

Há até uma maneira simples de tornar o efeito mais evidente: fotografar a Lua antes do eclipse e voltar a fazê-lo perto do máximo, mantendo a mesma exposição e as mesmas definições. A comparação entre as duas imagens pode revelar uma perda de brilho que o olho, adaptando-se continuamente à luminosidade, mal percebe.

Óculos? Não. O problema deste eclipse não é olhar para ele; é conseguir vê-lo.

18 de julho de 2027. O “quase eclipse”

Há depois uma pequena extravagância astronómica que merece entrar no calendário precisamente por ser o oposto dos grandes espetáculos que o rodeiam. A 18 de julho de 2027, a Lua passa extraordinariamente perto da extremidade da penumbra terrestre. O encontro é tão tangencial que pequenas diferenças nos modelos usados para determinar o tamanho exato da sombra podem colocar o acontecimento de um lado ou do outro da fronteira matemática de um eclipse.

É um daqueles casos em que a astronomia sabe que as fronteiras dos esquemas são linhas matemáticas aplicadas a corpos e sombras reais. Para o observador comum, a conclusão é simples: não espere ver uma sombra avançar pela Lua. É uma curiosidade para o calendário, não o eclipse pelo qual vale a pena pôr o despertador.

E é justamente depois deste quase nada que chega o grande acontecimento seguinte.

2 de agosto de 2027. Outro eclipse total — e passa mesmo ao lado de Portugal

Guarde esta data: 2 de agosto de 2027. Menos de um ano depois do eclipse deste 12 de agosto de 2026, a Lua volta a passar diretamente diante do Sol e haverá outro eclipse total. Desta vez, porém, a geometria é muito mais favorável a uma longa totalidade: no ponto máximo, no Egito, o Sol ficará completamente escondido durante 6 minutos e 23 segundos, o que faz deste um dos eclipses totais mais longos do século XXI.

E é também aqui que convém acabar de vez com uma confusão que o próprio nome “eclipse total” ajuda a criar. Um eclipse solar é total quando existe algum lugar da Terra onde a Lua cobre completamente o Sol. Isso não significa que seja total em todos os lugares de onde é possível vê-lo. A Lua projeta sobre a Terra uma sombra com duas regiões: dentro da estreita umbra, a fotosfera solar fica completamente escondida e vemos a totalidade; na região muito maior da penumbra, os dois discos apenas se sobrepõem parcialmente e vemos um eclipse parcial. O eclipse não deixa de ser total porque estamos em Portugal; somos nós que estamos fora da faixa onde ele é total.

A faixa da totalidade começa no Atlântico, atravessa o Estreito de Gibraltar, acompanha o Norte de África, passa pelo Egito, cruza o Mar Vermelho e segue por regiões da Arábia Saudita, Iémen e extremo nordeste da Somália antes de terminar no Índico. Na Europa, segundo o Instituto Geográfico Nacional espanhol, a totalidade só será visível em Espanha: Ceuta e Melilla, quase toda a província de Cádis, grande parte da província de Málaga e os extremos meridionais de Granada e Almería.

E Portugal fica imediatamente a norte do espetáculo.

A ESA publicou também um mapa global do eclipse, baseado precisamente nos cálculos do IGN e do Observatório Astronómico Nacional espanhol. É melhor para mostrar o percurso completo; o do IGN é melhor para o nosso zoom ibérico.

No continente, quanto mais descemos para sul, mais perto ficamos da faixa da umbra e maior será a parte do Sol escondida. Em Lisboa, o eclipse começa às 8h40, chega ao máximo às 9h44 e termina às 10h55; a obscuridade calculada para a região de Lisboa ronda os 92,4%. No Porto, o máximo ocorre cerca das 9h46 e o eclipse é menos profundo. O mapa português do eclipse permite consultar a obscuridade e os horários por localidade.

E convém distinguir duas medidas que muitas vezes aparecem misturadas. Magnitude não é necessariamente a percentagem da superfície do Sol tapada: mede quanto do diâmetro solar é coberto ao longo da linha que une os centros aparentes dos dois discos. Obscuridade é a percentagem da área visível do disco solar efetivamente escondida.

A Madeira chega ainda mais perto — mas também não chega à totalidade. O eclipse começa no arquipélago às 8h33 e termina às 10h44; no Funchal, a obscuridade chega a cerca de 97,0%, mas o cálculo local continua inequivocamente a classificá-lo como parcial. A página da Madeira diz expressamente que a totalidade não é visível no arquipélago nesse eclipse.

É um excelente exemplo de uma das ideias mais difíceis de transmitir sobre eclipses: 97% parece quase 100% numa conta, mas não é quase a mesma coisa no céu. Enquanto permanecer visível uma parcela da fotosfera, não aparece em todo o seu esplendor a coroa solar que envolve o disco negro durante a totalidade e continua a ser perigoso olhar diretamente para o Sol.

Esta fotografia da NASA é uma boa candidata para ilustrar o que Portugal não verá em 2027: a coroa em redor do disco completamente negro, como mostra a NASA Science.

É talvez a melhor notícia para quem ficar com vontade de repetir a experiência de 2026: em 2027 não será preciso atravessar um oceano. Para quem sair de Portugal, Cádis é uma das portas naturais para a faixa da totalidade, e o Algarve deixa vários locais espanhóis relativamente próximos por estrada.

O IGN espanhol confirma que quase toda a província de Cádis e grande parte da de Málaga ficam dentro da faixa. Em Cádis, a totalidade começa cerca das 10h45 e dura 2 minutos e 54 segundos; em Málaga, começa cerca das 10h48 e dura 1 minuto e 48 segundos. Algeciras fica também dentro da faixa e os cálculos locais apontam para cerca de 4 minutos e 27 segundos de totalidade. Mais para sul, Ceuta é extraordinariamente favorecida: 4 minutos e 48 segundos, a maior duração em território espanhol.

Para quem partir de Portugal, não será preciso atravessar meia Espanha. Cádis, Tarifa e Algeciras ficam dentro da faixa da totalidade e são opções naturais para quem viajar a partir do Algarve; mais para leste, Málaga também terá totalidade. E quem atravessar o Estreito até Ceuta ganha quase cinco minutos de Sol completamente escondido. Não escolheríamos já o “melhor” lugar: isso dependerá da climatologia, da nebulosidade prevista, dos acessos e da posição dentro da faixa, uma decisão que fará mais sentido perto da data.

Há outra vantagem enorme relativamente ao eclipse de 2026: o Sol estará bastante mais alto. O IGN situa o eclipse em Espanha em torno das 10h50 locais, e em Algeciras, por exemplo, o Sol estará a cerca de 38 graus de altitude no máximo. Não teremos, portanto, o problema de 2026 de procurar desesperadamente um horizonte poente completamente desimpedido.

Óculos em Portugal? Sempre. Óculos em Espanha? Também.

17 de agosto de 2027. O último chega quando a Lua já está a despedir-se

Quinze dias depois do grande eclipse solar, a sequência termina com outro eclipse penumbral da Lua. Portugal está numa posição pouco favorável para este: quando a Lua começa a entrar na penumbra terrestre já está muito baixa sobre o horizonte ocidental. Em Lisboa, o fenómeno começa às 6h24, com a Lua apenas 4,7 graus acima do horizonte oeste-sudoeste; às 6h46 chega ao máximo que ainda conseguimos acompanhar com a Lua inteira acima do horizonte e pouco depois põe-se.

É novamente penumbral, portanto não veremos a Lua ser “comida” por uma sombra negra. Apenas uma redução subtil do brilho — e desta vez com a dificuldade adicional de uma Lua quase encostada ao horizonte e a alvorada a ganhar luz.

Óculos? Não.

E depois de 2027? Os óculos ainda têm validade

Se alargarmos apenas um pouco o calendário, a próxima surpresa chega quase imediatamente. A 26 de janeiro de 2028, a Madeira fica dentro da faixa de um eclipse anular do Sol. A fase parcial começa às 15h19, a anularidade decorre aproximadamente entre as 16h46 e as 16h54 e o eclipse termina às 18h08. Ou seja, desta vez o arquipélago verá verdadeiramente o “anel de fogo”. O mapa da Madeira para o eclipse de 2028 mostra a passagem da faixa de anularidade. No continente, os distritos privilegiados serão os distritos de Beja e Faro.

O eclipse de 11 de maio de 2078 é efetivamente total e algumas bases de dados apresentam-no como a próxima totalidade da Região Autónoma da Madeira, mas não passa pela ilha da Madeira nem pelo Funchal. O traçado coloca o Funchal num eclipse parcial; uma fonte baseada no Five Millennium Canon of Solar Eclipses de Fred Espenak e Jean Meeus dá cerca de 94% para a Madeira e identifica as Ilhas Selvagens com 100%, isto é, dentro da faixa de totalidade.

Não deite, portanto, os óculos fora. Para os eclipses da Lua pode deixá-los sossegados; para os solares vão voltar a ser necessários, e bastante antes de 2078. Há sobretudo uma data que vale a pena guardar já: 2 de agosto de 2027. Nesse dia, para um português, a diferença entre ver quase todo o Sol desaparecer e vê-lo desaparecer por completo será suficientemente pequena para se fazer de carro. E suficientemente grande para valer a viagem.

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