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É fazer as contas…

Há uma pergunta que devia estar no centro da discussão sobre a digitalização dos exames nacionais: quanto custa manter simultaneamente o sistema em papel e o sistema digital?

João Marôco
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Em 2026, os exames nacionais do ensino secundário continuam, em larga medida, a ser realizados em papel para depois serem digitalizados e classificados através de plataformas digitais.

Façamos algumas contas.

Na primeira fase dos exames nacionais do secundário realizaram-se cerca de 340 mil provas. Admitindo, como hipótese de trabalho prudente, uma média de 16 folhas por prova  (dez páginas de enunciado e seis folhas de resposta) estamos perante cerca de 5,4 milhões de folhas.

Uma folha A4 de 80 g/m² pesa aproximadamente cinco gramas. Só na primeira fase, esta conta corresponde a cerca de 27 toneladas de papel. Acrescentando a segunda fase, exemplares adicionais, diferentes versões, provas adaptadas e excedentes de produção e distribuição, uma estimativa da ordem das 35 toneladas de papel para o conjunto do processo é plausível.

Trata-se, sublinhe-se, de uma estimativa ilustrativa, não de um número oficial. Para obter o valor exato seria necessário conhecer o número de exemplares efetivamente produzidos e distribuídos pela entidade responsável pela impressão. Esses dados existem, mas não são públicos.

Mas há um dado financeiro mais sólido.

Em 2023, a própria Editorial do Ministério da Educação e Ciência (EMEC) identificava os “Exames Nacionais (Ensinos Básico e Secundário)” como uma das suas principais áreas de atividade. Nesse ano, a EMEC registou uma redução de 18% na faturação dessa atividade, equivalente a menos 159 300 euros, devido à passagem das provas de aferição para formato digital. A partir destes dados, é possível estimar que a atividade associada aos exames nacionais tenha representado cerca de 726 mil euros de faturação da EMEC em 2023.

Convém ser rigoroso: 726 mil euros não são o “custo dos exames”. São uma estimativa da receita ou faturação associada à atividade de exames nacionais da EMEC. E incluem muito mais do que o preço do papel: pré-impressão, impressão, acabamento, embalagem, expedição, distribuição e a capacidade produtiva necessária para garantir segurança, sigilo e cumprimento de prazos.

Mas este número permite perceber uma coisa importante: o valor económico da cadeia física dos exames é muito superior ao simples preço do papel.

E essa cadeia física não desaparece quando, depois, acrescentamos a componente digital.

O modelo atual é, essencialmente, o da figura seguinte:

É precisamente aqui que começa o problema.

Segundo o levantamento publicado pelo Público com base nos contratos públicos, foram celebrados, desde 2023, 16 contratos relacionados com a desmaterialização da avaliação externa, no valor de cerca de 7,1 milhões de euros, acrescidos de IVA.

Seria, contudo, um erro atribuir estes 7,1 milhões exclusivamente aos exames do 11.º e 12.º anos. O investimento abrange diferentes componentes da avaliação externa e vários níveis de ensino, incluindo as provas ModA, e os exames do 9.º ano e do secundário.

Também não sabemos quanto custaria um sistema de avaliação inteiramente digital.

Mas sabemos que, durante a pandemia e nos anos seguintes, o Estado português investiu centenas de milhões de euros na distribuição de computadores portáteis a alunos e professores no âmbito do programa Escola Digital. Segundo dados confirmados pelo Ministério da Educação à Lusa em 2022, a operação de distribuição de mais de um milhão de equipamentos custou cerca de 400 milhões de euros. O Plano de Recuperação e Resiliência previu ainda 559 milhões de euros para a componente Escola Digital, dos quais uma parte significativa destinou-se à aquisição de cerca de 600 mil portáteis adicionais (estimados em cerca de 180 milhões de euros a um preço médio de 300 euros por unidade). O Tribunal de Contas documentou, além disso, pagamentos indevidos de 11milhões de euros por serviços de conectividade não utilizados.

Perante estes números, é legítimo perguntar se não teria sido mais sensato, eficaz e económico concentrar parte substancial desse investimento, o equivalente a cerca de 500 mil euros por cada um dos cerca de 800 agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, na criação de laboratórios de informática bem dimensionados e controlados?

Uma infraestrutura estável, padronizada e gerida pelas escolas (2 a 3 laboratórios com 30-40 PC cada com um servidor local com garantia de bom acesso à rede) permitiria condições mais equitativas e seguras para a avaliação digital de elevado impacto, reduziria custos de manutenção e logística a longo prazo e evitaria muitos dos problemas de distribuição, recusa e avaria que marcaram o modelo dos portáteis individuais.

Um modelo digital tem custos próprios: equipamentos, conectividade, servidores ou serviços de cloud, segurança informática, desenvolvimento e manutenção de software, apoio técnico, armazenamento, redundância e formação.

Por isso, seria intelectualmente desonesto afirmar que uma avaliação 100% digital é necessariamente mais barata.

Mas isso não resolve a questão fundamental.

Se o Estado já investiu milhões do PRR na infraestrutura de desmaterialização, porque continua a suportar simultaneamente uma cadeia física que, em parte, poderia deixar de existir?

A comparação correta não é entre “papel barato” e “digital caro”.

A comparação deveria ser feita entre três modelos: o tradicional em papel, o atual modelo híbrido e um modelo digital concebido de raiz.

No primeiro, temos sobretudo os custos físicos.

No segundo, temos os custos físicos e os custos digitais.

No terceiro, eliminaríamos uma parte significativa da cadeia física, mantendo apenas os custos digitais necessários.

A resposta à pergunta sobre qual destes modelos é mais barato não pode ser dada por intuição. Exige uma análise séria do custo total de propriedade: por prova, por aluno e ao longo de vários anos. Para um professor universitário de Economia, com acesso privilegiado aos dados, não deveria ser difícil apresentar uma estimativa realista destes custos.

E essa análise ainda não foi apresentada publicamente. Era importante que fosse. Ou são só as escolas, através dos rankings, que têm de prestar contas?

Mas o problema não se esgota nos custos. O modelo híbrido introduz riscos específicos de digitalização e reconciliação (erros de leitura de folhas, páginas em branco omitidas ou desalinhamentos entre o original em papel e o ficheiro digital) que um sistema nativo digital não apresenta da mesma forma. Esses riscos materializaram-se em 2026, com atrasos, revisões e perda de confiança no sistema de avaliação externa.

Um sistema inteiramente digital, porém, não é isento de riscos: falhas de equipamentos ou de conectividade durante a realização da prova, desigualdades no acesso a dispositivos e condições de realização, novos vetores de fraude informática e maior dificuldade em lidar com certos tipos de resposta (gráficos, demonstrações matemáticas ou desenhos).

A comparação correta não é, portanto, entre um híbrido com erros e um digital sem erros; é entre dois perfis de risco diferentes. Enquanto não existir uma análise pública e completa dos riscos, custos e benefícios dos três modelos (papel puro, híbrido e digital nativo), incluindo cenários de falha e custos de mitigação, a manutenção do híbrido continua a ser uma escolha não escrutinada.

Há, depois, uma inconsistência difícil de ignorar.

Portugal já realiza avaliação digital em larga escala com crianças. As provas ModA são digitais no 4.º ano, quando os alunos têm cerca de 9 ou 10 anos. No 9.º ano, as provas finais são apresentadas em suporte digital (ainda que, em Matemática, as respostas aos itens de construção continuem a ser registadas em papel).

Ou seja, o sistema considera viável avaliar digitalmente alunos de nove anos em provas de monitorização e de 14-15 anos em provas de conclusão de ciclo. Mas, quando se trata de exames de elevado impacto, os do 11.º e 12.º anos, com consequências diretas no acesso ao ensino superior, regressamos ao papel, para depois o digitalizar.

Não se trata de defender que tudo deve ser digitalizado, nem de ignorar que os requisitos de segurança, equidade e robustez são diferentes consoante o nível de impacto da prova. Há competências e tipos de resposta para os quais o papel pode continuar a ser a solução mais adequada.

Mas quando a opção adotada consiste em imprimir milhões de folhas para as digitalizar a posteriori, a pergunta impõe-se: estamos perante uma verdadeira transição digital ou perante a digitalização de um processo que continua, na sua origem, a depender do papel?

Porque digitalizar papel não é o mesmo que eliminar a necessidade de papel.

Há também um custo ambiental.

A minha estimativa, prudente, aponta para cerca de 35 toneladas de papel utilizadas no conjunto do processo de exames. Isso representa matéria-prima, água, energia, impressão, transporte e resíduos.

Não estou a afirmar que o digital não tem impacto ambiental. Tem. Os equipamentos têm de ser produzidos, consomem energia e acabam por ser substituídos.

Mas, se já existe uma infraestrutura digital de avaliação e se o processo termina inevitavelmente num ambiente digital, o impacto financeiro e ambiental de continuar a manter toda a cadeia física deve entrar na equação.

É por isso que o debate não pode reduzir-se a saber se a plataforma funcionou ou falhou. A pergunta mais importante é outra: Que sistema queremos ter daqui a cinco ou dez anos?

Um sistema em que continuamos a pagar a produção, impressão, embalagem e distribuição de provas, para depois as digitalizar e classificá-las numa plataforma?

Ou um sistema concebido de raiz para ser digital, mantendo o papel apenas onde exista uma razão de avaliação válida para o fazer?

Os dados da EMEC mostram que, mesmo antes de começarmos a discutir plataformas, algoritmos ou inteligência artificial, a componente física dos exames já representava uma atividade económica de cerca de 726 mil euros por ano, em 2023. Os contratos de desmaterialização mostram, por sua vez, que o Estado já investiu milhões na infraestrutura digital.

Talvez o verdadeiro problema seja precisamente este: estamos a pagar para manter duas arquiteturas em simultâneo: A física e a digital.

E, enquanto não fizermos uma análise transparente do custo total de cada modelo, continuaremos a discutir a digitalização como uma questão ideológica.

Não é.

Como diria António Guterres, o engenheiro que fez da “paixão pela Educação” uma das marcas da sua governação: é fazer as contas.

Não para concluir, à partida, que o digital é sempre melhor ou mais barato.

Mas para perceber se estamos realmente a fazer uma transição digital; ou apenas a acrescentar tecnologia a um sistema que continua, na sua origem, a depender do papel.

Porque imprimir primeiro e digitalizar depois pode parecer modernização. Mas, lá no fundo, pode ser apenas uma forma mais cara, mais complexa e ecologicamente mais pesada de continuar a fazer o que sempre fizemos.