Steven Spielberg não está associado a O Fim de Oak Street, mas a sua sombra paira sobre este filme de David Robert Mitchell produzido por J.J. Abrams. E não só pela presença deste, que em Super 8 (2011) se afirmou como um epígono do realizador de Salteadores da Arca Perdida. Também escrito por Mitchell, autor de um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, Vai Seguir-te, em 2014 (a que sucedeu o decepcionante thriller conspiratório O Mistério de Silver Lake, em 2018), O Fim de Oak Street transporta o espírito da série de fitas Parque Jurássico para o seio da América suburbana, tal como Spielberg a retratou em filmes que rodou (Encontros Imediatos do 3º Grau, E.T.-O Extraterrestre) e que produziu (Poltergeist, de Tobe Hooper).
[Veja o “trailer” de “O Fim de Oak Street”:]
https://www.youtube.com/watch?v=3oB9AxspVow
Entre os filmes da série Mundo Jurássico, que se sucedeu aos de Parque Jurássico, os títulos de séries B inspiradas por estes, as animações de todo o tipo e os documentários que continuam a ser feitos para os canais de televisão e também para as plataformas de streaming, o mercado do entretenimento audiovisual está saturado de dinossauros. Por isso, um filme como O Fim de Oak Street tinha que trazer muito mais do que animais pré-históricos digitais impecáveis de realismo: pelo menos, uma história que não se limitasse, preguiçosamente, a pô-los a aterrorizar, perseguir, esmagar e devorar humanos.
[Veja uma entrevista com Ewan McGregor e Anne Hathaway:]
https://www.youtube.com/watch?v=glpVzbjOPec
O Fim de Oak Street passa-se nos anos 80, num plácido subúrbio de classe média americana, em pleno Verão. É lá que mora a família Platt: o pai Greg (Ewan McGregor), a mãe Denise (Anne Hathaway) e os dois filhos adolescentes, Audrey e Brian, mais o cão Starbucks. As coisas não vão bem entre Greg e Denise. Ele foi despedido e anda a entregar pizzas para trazer algum dinheiro para casa, e ela sente-se cada vez mais frustrada e está a escrever um livro às escondidas. Uma noite, após uma enorme tempestade estival, dá-se um estranho acontecimento cósmico, e quando os Platt, e os seus vizinhos, acordam, percebem que o bairro foi transportado para o mundo pré-histórico.
[Veja uma entrevista com o realizador David Robert Mitchell:]
https://www.youtube.com/watch?v=2x_29z81rtk
Qualquer esperança de que O Fim de Oak Street traga algo singular, aliciante, inovador, para o formato dos filmes com dinossauros, esvai-se ao fim de 20 ou 30 minutos, e a partir daí é business as usual. A história limita-se a pôr os Platt numa sucessão de situações perigosas, e a verem os vizinhos serem mortos e comidos pela fauna monstruosa que ali se manifestou. E a explicação do enredo, que recorre ao velhíssimo tema do paradoxo temporal, é tão descaradamente desleixada e inverosímil, que parece confirmar os problemas de produção que o filme teve (foi rodado em 2024 e só agora é estreado), e passa um atestado de estupidez aos espectadores, como se entre eles não houvesse quem leia livros de ficção científica ou veja fitas do género.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=0VDhvK8moNU
Ewan McGregor e Anne Hathaway passam o filme com o ar de quem tem a cabeça noutro sítio e não está a acreditar no que anda ali a fazer, e até os vários dinossauros gerados digitalmente e o cão da família Platt são mais credíveis que eles. Haja alguém que espete na cara de David Robert Mitchell, J.J. Abrams e seus colegas alguns dos muitos, variadíssimos e imaginativos livros de ficção científica com histórias de dinossauros que já foram publicados, para que Hollywood faça finalmente algo que valha a pena ver envolvendo estas criaturas, em vez de andar a repetir até ao enjoo o Enredo Nº1 do género: dinossauros aterrorizam, perseguem, esmagam e devoram humanos.