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Por que treme tanto a Colômbia? Três placas, um “ninho” de sismos e um lugar no Anel de Fogo

A Colômbia está numa das regiões tectónicas mais complexas do planeta. Nazca, América do Sul e Caraíbas interagem num país que regista cerca de 80 sismos por dia.

Filomena Martins
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Tremeu fortíssimo, eu andava de um lado para o outro.” Nelson Ortega estava em casa, em Dosquebradas, junto a Pereira, quando a terra começou a abanar na manhã desta segunda-feira. Chamou a mulher para retirar a filha e saíram de casa. Mais tarde, no caminho para o trabalho, encontrou fachadas danificadas, edifícios com fissuras e algumas estruturas que tinham desabado, contou Nelson, chefe de Engenharia da Radio Caracol em Pereira.

O sismo de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia teve o epicentro em San José del Palmar, no departamento de Chocó, e ocorreu a 103 quilómetros de profundidade. Segundo o Servicio Geológico Colombiano (SGC), foi o sismo de maior magnitude registado no país neste século. Mas, num território onde a rede sismológica deteta em média cerca de 80 sismos por dia, a pergunta vai muito além do que aconteceu agora: por que treme tanto a Colômbia?

O país ocupa uma das regiões tectónicas mais complexas do planeta, onde interagem grandes placas e blocos tectónicos: está na margem do Anel de Fogo do Pacífico, a zona sísmica e vulcânica mais ativa da Terra, e esconde ainda uma concentração invulgar de terramotos — o chamado Nido Sísmico de Bucaramanga.

https://twitter.com/HeverCastroB/status/2086860993196388457

A parte exterior rígida da Terra — a litosfera — está dividida em enormes fragmentos, as placas tectónicas, que se deslocam continuamente umas em relação às outras. O movimento é lento, normalmente de alguns centímetros por ano, demasiado pouco para ser observado no dia a dia. Mas as placas são gigantescas e não deixam de se mover durante milhares de anos.

Podem afastar-se, deslizar lateralmente umas pelas outras ou convergir. E é sobretudo nas fronteiras entre essas peças que a Terra se torna inquieta.

O movimento nem sempre se faz suavemente. Duas partes de uma falha podem ficar presas pelo atrito enquanto as forças tectónicas continuam a atuar. As rochas deformam-se, acumulam tensão e, quando deixam de conseguir resistir, ocorre uma rutura ou um deslizamento súbito. A energia libertada propaga-se através da Terra sob a forma de ondas sísmicas.

Há ainda um movimento particularmente importante para perceber a Colômbia. Quando uma placa oceânica mais densa converge com outra placa, pode mergulhar por baixo dela e continuar a descer em direção ao interior da Terra. Chama-se subducção. E é precisamente isso que acontece no Pacífico colombiano.

Na região interagem três grandes placas tectónicas: Nazca, Sul-Americana e Caraíbas. Mas a realidade é menos arrumada do que o desenho de três peças de um puzzle. Grande parte do território colombiano está na placa Sul-Americana. A oeste, sob o Pacífico, encontra-se a placa oceânica de Nazca; a norte está a placa das Caraíbas. Entre estas grandes unidades existem ainda blocos tectónicos menores, zonas de deformação e grandes sistemas de falhas.

No Pacífico, Nazca mergulha por baixo da placa Sul-Americana. O US Geological Survey descreve esta fronteira como parte de uma zona de subducção com mais de 7.000 quilómetros ao longo da margem ocidental da América do Sul. No extremo norte do sistema, Nazca desloca-se relativamente à América do Sul a cerca de 65 milímetros por ano — seis centímetros e meio. Parece pouco até nos lembrarmos de que são seis centímetros e meio por ano entre massas gigantescas de litosfera.

https://twitter.com/DatosAme24/status/2086864971787596253

O próprio comunicado sobre o terramoto desta segunda-feira volta a apontar diretamente para esse mecanismo: no Pacífico colombiano, Nazca afunda-se por baixo da América do Sul e a interação liberta energia sob a forma de sismos.

A mesma colisão que faz a terra tremer ajudou a levantar os Andes

Este movimento não produz apenas terramotos. A subducção de Nazca sob a América do Sul está diretamente relacionada com o levantamento dos Andes e com a cadeia de vulcões ativos que acompanha grande parte da margem ocidental do continente. A compressão deforma e engrossa a crosta; a placa oceânica continua a descer em profundidade e os processos ligados à subducção favorecem a geração de magma e o vulcanismo.

Ou seja, sismos, vulcões e os Andes não são três coincidências geológicas diferentes. São manifestações diferentes de uma região do planeta que continua tectonicamente ativa.

https://youtu.be/FtnKTH7eBrM?si=wP5H864NO6qVWf5L

O Anel de Fogo do Pacífico e os tsunamis na costa colombiana

A Colômbia faz também parte do chamado Anel de Fogo do Pacífico, uma enorme cintura de atividade sísmica e vulcânica que acompanha grande parte das margens do maior oceano da Terra. O próprio SGC coloca a Colômbia no Cinturão de Fogo do Pacífico, onde a subducção de Nazca cria também condições para a ocorrência de tsunamis na costa colombiana.

O nome é chamativo mas não existe um círculo perfeito nem uma única falha que dê a volta ao Pacífico. O que existe é uma sucessão de fronteiras de placas, fossas oceânicas, falhas, arcos vulcânicos e enormes zonas de subducção.

A faixa percorre a margem ocidental da América do Sul, segue pela América Central e América do Norte, Alasca e Aleutas e continua do outro lado do oceano por Kamchatka, Japão, Filipinas, Indonésia e sudoeste do Pacífico.

Segundo o USGS, cerca de 90% dos sismos mundiais ocorrem neste cinturão circum-Pacífico. A segunda grande região sísmica do planeta, responsável por cerca de 5% a 6%, é o cinturão Alpino, que atravessa o Mediterrâneo, a Turquia, o Irão e segue em direção ao norte da Índia.

Isto ajuda a perceber por que razão tantos dos grandes terramotos que chegam às notícias acontecem em países em redor do Pacífico. Mas não significa que estejam todos ligados. Um sismo na Colômbia não desencadeia uma espécie de dominó que depois faz tremer o Japão ou as Filipinas. O Anel de Fogo tem dezenas de milhares de quilómetros e reúne sistemas tectónicos diferentes.

A proximidade das datas chama a atenção. Geologicamente, não demonstra uma relação.

Tonga, Vanuatu, Indonésia, Filipinas, México: os grandes sismos de 2026 no Pacífico

Basta olhar para este ano para perceber a atividade desta enorme cintura tectónica. Em 24 de março, um sismo de magnitude 7,5 ocorreu a oeste de Tonga, a 234 quilómetros de profundidade. Foi um terramoto de profundidade intermédia, relacionado com deformação dentro da placa do Pacífico que está a mergulhar nesta região.

https://twitter.com/BackpirchCrew/status/2086851076678910360

Seis dias depois, em 30 de março, um sismo de 7,3 ocorreu junto a Luganville, em Vanuatu, a cerca de 121 quilómetros de profundidade, noutra região de subducção do sudoeste do Pacífico.

Em 1 de abril, um forte sismo atingiu o norte das Molucas, na Indonésia. O catálogo atual do USGS fixa-o em 7,4, a 35 quilómetros de profundidade; as primeiras estimativas divulgadas pelas autoridades e pela Reuters chegaram a valores superiores. O sismo provocou danos, uma morte e pequenas ondas de tsunami em Sulawesi do Norte.

Em 20 de abril, outro grande terramoto atingiu ao largo do nordeste do Japão. O catálogo atual do USGS regista 7,4; as autoridades japonesas utilizaram uma estimativa de magnitude diferente, uma situação normal porque diferentes redes e escalas podem produzir valores ligeiramente distintos. Foram emitidos avisos de tsunami e observadas ondas até cerca de 80 centímetros.

Depois, em 8 de junho, um terramoto de 7,8 atingiu o sul das Filipinas, provocando desabamentos, deslizamentos e dezenas de mortes em Mindanao. O abalo desencadeou avisos de tsunami em vários países e foi seguido por centenas de réplicas.

E em 17 de julho, um sismo de magnitude 7,3 ocorreu ao largo de Puerto Madero, no México, junto à costa de Chiapas. As primeiras informações apontaram para 7,4, mas o valor foi posteriormente revisto pelo USGS. A Reuters relatou que o tremor foi sentido também na Guatemala e em El Salvador, sem registo de danos graves.

Esta sucessão pode dar a impressão de que o Anel de Fogo “acordou”. Mas a ocorrência de vários sismos de magnitude 7 no mesmo ano não prova uma ativação conjunta — nem há uma relação causal entre eles.

https://twitter.com/20m/status/2086851135415996843

Mostra, isso sim, por que razão viver numa destas margens significa viver numa das regiões tectonicamente mais ativas da Terra.

Cerca de 80 sismos por dia na Colômbia

A escala muda completamente quando deixamos de olhar apenas para os grandes terramotos. A Red Sismológica Nacional regista em média cerca de 80 sismos por dia na Colômbia. São cerca de 2.400 num mês de 30 dias. Ao longo de 30 anos de monitorização, a rede registou já quase 300 mil tremores.

Isso não significa que os colombianos sintam a terra mexer 80 vezes por dia. A esmagadora maioria é demasiado pequena para ser percebida. A magnitude também não determina só por si o que se sente à superfície ou os danos produzidos. Importam a profundidade, a distância em relação ao epicentro, a duração e geometria da rutura, o tipo de solo e, decisivamente, a resistência das construções.

Embora o sismo desta segunda-feira tenha ocorrido a 103 quilómetros de profundidade, foi sentido numa área muito vasta. O SGC explica que isso aconteceu sobretudo devido à elevada magnitude: foi libertada energia suficiente para que uma parte importante chegasse à superfície apesar da profundidade.

https://twitter.com/cristiancrespoj/status/2086868090348794084

O “ninho” onde acontece até metade dos sismos

Há uma pequena região colombiana que contribui de forma extraordinária para aqueles 80 sismos diários. Fica sob o município de Los Santos, no departamento de Santander, e chama-se Nido Sísmico de Bucaramanga. O nome parece quase inventado para uma história de terramotos, mas é um termo da sismologia. Um ninho sísmico é um volume relativamente pequeno do interior da Terra onde se concentra uma quantidade anormalmente elevada de sismos, muitas vezes a profundidades semelhantes.

O de Bucaramanga é um caso excecional. Segundo o Servicio Geológico Colombiano, entre 40% e 50% de toda a atividade sísmica registada no país ocorre nesta zona. Ou seja, até metade dos sismos registados num país com mais de um milhão de quilómetros quadrados pode concentrar-se nesta pequena região de Santander.

Muitos acontecem a mais de uma centena de quilómetros de profundidade. E é aqui que a ciência deixa de nos permitir uma explicação tão clara como a da subducção no Pacífico: a origem exata de uma concentração sísmica tão extraordinária continua a ser investigada e diferentes modelos procuram explicar o que acontece à litosfera em profundidade.

O ninho é importante sobretudo porque mostra que não há apenas uma resposta para a pergunta “por que treme tanto a Colômbia?”. Há sismicidade associada à subducção do Pacífico, atividade nas grandes falhas continentais, sismos relacionados com sistemas vulcânicos e esta extraordinária concentração de eventos profundos em Santander.

O maior sismo na Colômbia chegou a 8,8 — e trouxe o mar atrás

O sismo de 7,4 desta segunda-feira destaca-se pela dimensão, mas apareceu num país com atividade sísmica permanente. Há apenas três meses, a 14 de maio, um sismo de magnitude 5,6 teve o epicentro em El Litoral del San Juan, também em Chocó. O SGC recebeu mais de 3.000 relatos de pessoas que sentiram o abalo em diferentes partes do território.

Em Santander sucedem-se entretanto os pequenos sismos profundos associados ao Nido de Bucaramanga. Não são réplicas de um único grande terramoto nem significam que esteja iminente um evento maior: fazem parte da atividade sísmica característica daquela região.

E há um antecedente recente importante. Em 8 de junho de 2025, um sismo de magnitude 6,4 atingiu Medina-Paratebueno, em Cundinamarca. Foi sentido em mais de 400 municípios, afetou cerca de 1.590 famílias e provocou deslizamentos, liquefação e fissuras no terreno.

“A Colômbia é muito ativa sismicamente”, resumiu Julio Fierro Morales, diretor-geral do SGC, quando o organismo revisitou esse terramoto um ano depois. Esta segunda-feira, Fierro voltou a pôr o novo sismo em perspetiva: “Este é o sismo que se sentiu com mais força na última década na Colômbia”, afirmou, recordando que a mesma região tinha registado um sismo de 7,2 a 23 de novembro de 1979.

O Servicio Geológico Colombiano sublinha que não existe atualmente qualquer método cientificamente comprovado capaz de prever antecipadamente a ocorrência de um sismo e das suas réplicas. O que a ciência consegue fazer é diferente: calcular a ameaça sísmica, isto é, estimar probabilisticamente quão fortes poderão ser os movimentos do solo em diferentes regiões ao longo de determinado período.

E o modelo mais recente do SGC identifica o litoral do Pacífico, o Borde Llanero e os departamentos de Arauca, Santander e Norte de Santander como zonas onde são esperadas acelerações do terreno mais elevadas nos próximos 50 anos.

Isto não quer dizer que esteja previsto um grande sismo nesses locais dentro de 50 anos. Não é um calendário. É um cálculo probabilístico destinado a orientar construção, infraestruturas, planeamento urbano e preparação para emergências.

Para encontrar o maior sismo registado na história colombiana é preciso recuar até 31 de janeiro de 1906. Às 10h36, um enorme terramoto atingiu o Pacífico junto à Colômbia e ao Equador. O SGC atribui-lhe magnitude 8,8 e classifica-o como um dos dez maiores sismos registados no mundo. Foi tão forte que foi sentido em Bogotá e em Manta, no Equador, separadas por quase mil quilómetros.

O fundo oceânico deslocou-se e gerou um tsunami. As ondas atingiram entre dois e cinco metros, submergindo praias e povoações do Pacífico colombiano. Os números são incertos, mas alguns relatos históricos apontam para cerca de 600 mortos.

A 12 de dezembro de 1979, outro sismo, de magnitude 8,1, voltou a provocar um tsunami no Pacífico colombiano. Segundo o SGC, os tsunamis de 1906 e 1979 provocaram, em conjunto, mais de mil mortes e enorme destruição sobretudo em Nariño e Cauca.

A 25 de janeiro de 1999, o perigo apareceu de outra maneira. O terramoto de Armenia devastou grande parte do Eixo Cafeeiro e provocou mais de 1.900 mortes, apesar de ter sido muito menor do que o gigante de 1906.

As comparações com a Turquia e com os Açores

Tanto a Colômbia como a Turquia estão em regiões tectónicas extraordinariamente complexas. A Turquia não está no Anel de Fogo — encontra-se no cinturão Alpino-Himalaio e, no sudeste do país, existe uma verdadeira junção tripla. O USGS identifica ali o encontro das placas da Anatólia, Arábia e África, na região onde ocorreu a devastadora sequência sísmica de fevereiro de 2023.

Os grandes terramotos turcos de 2023 romperam sobretudo falhas de desligamento, praticamente verticais, em que os blocos deslizam horizontalmente uns em relação aos outros. Na costa pacífica colombiana, pelo contrário, o processo dominante envolve uma placa oceânica a mergulhar sob a América do Sul.

Os Açores ficam numa das regiões tectónicas mais complexas do Atlântico, próxima da chamada Junção Tripla dos Açores, onde interagem as placas Norte-Americana, Eurasiática e Núbia, esta última correspondente à parte da placa Africana relevante nesta região.

A geometria é completamente diferente da colombiana. A Dorsal Meso-Atlântica separa a placa Norte-Americana das placas a leste, enquanto a fronteira Eurásia–Núbia é uma zona muito mais difusa e complexa, associada entre outras estruturas ao Rift da Terceira.

O que torna a Colômbia tão sísmica é a combinação: Nazca a mergulhar sob o continente, interação com outras grandes unidades tectónicas, extensos sistemas de falhas, vulcanismo, os Andes, uma posição no Anel de Fogo e, escondido a mais de uma centena de quilómetros de profundidade sob Santander, um dos mais ativos ninhos sísmicos conhecidos.

O terramoto desta segunda-feira foi excecional pela magnitude e pelas consequências. Mas geologicamente aconteceu num dos lugares do planeta onde um grande sismo está longe de ser uma surpresa.

[O espião português suspeito de vender segredos à Rússia voa para Roma e as autoridades estão determinadas a não o deixar escapar. Na capital italiana, Carvalhão Gil é seguido pelos inspetores e vai mostrar que todos os anos passados ao serviço do SIS o tornaram mestre na arte da contravigilância. Quando recebem a confirmação de que o espião russo também acaba de aterrar em Roma, as autoridades têm a certeza de que vai acontecer um novo encontro entre os dois. A grande questão é: onde? Já pode ouvir o terceiro episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]