Uma pessoa que trabalha de forma excessiva e compulsiva, sem conseguir desligar-se das preocupações laborais e revelando uma enorme dificuldade em limitar o tempo dedicado ao trabalho é considerada um workaholic.
O termo não se aplica a quem é empenhado, ambicioso ou trabalhador, mas a quem não consegue parar, nem mesmo em períodos de descanso. Nas férias, estas pessoas são incapazes de desligar, veem regularmente os emails e as mensagens, e atendem sempre o telemóvel. O trabalho começa a funcionar quase como uma droga, já que se observa uma adição à atividade laboral. Além disso, podem também estar presentes o desejo de controlar, o receio de falhar e a procura obsessiva de sucesso profissional. O problema é que esta dependência tem uma particularidade: ao contrário de outras, é frequentemente elogiada socialmente.
Estes indivíduos, quando são confrontados com esta dedicação patológica ao trabalho, costumam dar sempre as mesmas respostas: “Se não for eu a controlar as coisas, não se fazem ou são mal executadas”, “O meu trabalho é de grande responsabilidade”, “Não há outra forma de fazer a empresa aumentar a produção”, “Chefio uma equipa de vários colaboradores e tenho a responsabilidade de dar o exemplo”.
As férias, quando não podem ser mais adiadas, são vividas como um autêntico tormento. Surge um vazio interior, uma culpabilidade por não estar a trabalhar, e a cabeça simplesmente não consegue desligar. A família e os amigos acabam por se irritar porque sentem que a pessoa não está ali no seu todo, não descontrai e torna-se incapaz de desfrutar do descanso.
Observa-se uma dificuldade evidente em estabelecer limites. A vida pessoal e familiar vai-se extinguindo gradualmente. As justificações sucedem-se e a chamada de atenção, muitas vezes feita pelo cônjuge, é infrutífera, pois há sempre uma desculpa, uma explicação. Recordo-me, a este respeito, de um caso muito curioso: no primeiro ciclo, a professora perguntou aos alunos qual era a profissão dos pais. Uma das crianças respondeu que a mãe era secretária numa empresa e que o pai “respondia a emails”. A professora, curiosa com a resposta, pediu à criança que explicasse melhor. Esta respondeu, com naturalidade, que era isso que o pai estava sempre a fazer. Desde que chegava a casa até se ir deitar, estava no computador a responder a emails. Obviamente, pouco convivia com a filha, pois o pai dizia que o trabalho não podia esperar.
Esta relação com o trabalho está frequentemente associada a níveis elevados de stress e a um maior risco de exaustão profissional (burnout). Com base na minha experiência clínica, é frequente que um workaholic só pare para refletir seriamente sobre o prejuízo deste comportamento quando confrontado com uma de três situações: uma doença física súbita grave (por exemplo, uma doença cardiovascular aguda), uma doença psiquiátrica incapacitante (por exemplo, uma depressão major) ou uma rutura conjugal iminente, devido à interferência negativa da sobrecarga de trabalho na vida familiar.
As características da personalidade podem constituir um fator de risco para o desenvolvimento deste comportamento. Este padrão pode estar associado a determinados traços de personalidade obsessivo-compulsiva, nomeadamente perfeccionismo, elevado sentido do dever, necessidade de controlo, rigidez, preocupação excessiva com regras e desempenho e dificuldade em delegar tarefas.
Mas ninguém é insubstituível e, por vezes, mesmo diante de tamanho empenho e dedicação, o despedimento também atinge estas pessoas. Esta situação é vivenciada habitualmente com uma enorme sensação de injustiça e revolta. Afinal, que recompensa para as horas de sono perdidas, para os fins de semana a trabalhar e para as férias não gozadas como tal? Esta situação expõe uma ilusão quase infantil de que a retribuição pela dedicação laboral será sempre plena e garantida, mas tal não é verdade.
O trabalho dignifica o homem, dá um sentido de pertença, uma identidade, uma gratificação decorrente da cooperação social. Mas o trabalho em excesso pode transformar-se numa adição que escraviza, destrói o indivíduo, retira-lhe a saúde, e afasta-o da família e das pessoas de quem mais gosta. Uma vez instalada esta postura, as consequências acabam frequentemente por surgir na saúde, na família ou na própria vida profissional.
Um workaholic nunca vai verdadeiramente de férias. Isto é um padrão de comportamento disfuncional que não deve ser normalizado ou justificado, mas reconhecido e corrigido antes que cause danos graves. Finalmente, importa sublinhar que muitas vezes a responsabilidade não deve ser imputada exclusivamente ao indivíduo. A pressão excessiva das organizações, a falta de ética na relação com os colaboradores e as chefias tóxicas fazem também parte do problema. Saber trabalhar também implica saber parar.