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Côa celebra 30 anos com apelo do Presidente: "Não pode haver um país do litoral e um país do interior. Há só um Portugal"

O Parque Arqueológico do Vale do Côa assinala três décadas com mais de 400 mil visitantes e 1.600 rochas catalogadas. Seguro pediu futuro para o interior.

Agência Lusa
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Observador
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O Presidente da República assinalou esta segunda-feira que o Parque Arqueológico do Côa, que celebra 30 anos, é um trabalho em construção e que olhar para aquele vale é um “exercício de contemplação da humanidade”.

“Começo por dizer-vos que as causas em que acreditamos valem a pena. Há trinta anos, eram poucos os que, olhando para este vale, imaginavam que hoje estaríamos aqui. É evidente que foi preciso mais do que acreditar. Porém, se não acreditássemos que isto era possível, então nada mais seria possível”, afirmou António José Seguro, num discurso no Museu do Côa, onde esta segunda-feira se celebrou o 30.º aniversário do Parque Arqueológico do Vale do Côa.

Seguro acrescentou que “olhar para este vale não é um pormenor, é um exercício de contemplação da humanidade, como o é toda a cultura e todo o nosso trabalho com o património, seja imaterial ou edificado”.

Esta segunda-feira, segundo o Presidente da República, o Museu do Côa e o auditório António Guterres são uma realidade, o parque já recebeu mais de 400 mil visitantes desde a sua abertura e Vila Nova de Foz Côa “entrou no mapa das referências culturais”.

Por isso, frisou que falar deste parque é “referir um trabalho em construção permanente”, porque acredita “no papel da cultura como cimento das comunidades e dos territórios”.

“Ou seja, para falarmos claro, não basta falarmos dos 30 anos de vida do parque arqueológico, nem dos 20 mil anos que contemplamos e nos contemplam, se não tivermos uma visão integrada do território e da coesão territorial”, salientou.

A criação deste parque, desta fundação e deste museu é a prova, para António José Seguro, “de que é possível, fora dos circuitos dominantes, manter instituições importantes e memoráveis”.

“Este investimento tem sentido e terá resultados. Faz parte de um desígnio nacional de combate ao isolamento e ao envelhecimento do território e das populações. Faz parte de uma missão de que estamos investidos: a de respeitar um monumento milenar e de o legar às gerações futuras. E faz parte, finalmente, desse futuro. Um futuro que não existe sem memória, sem lugares que a preservem e sem pessoas”, afirmou.

O Côa e o seu conjunto de gravuras rupestres são património da UNESCO, um selo que Seguro disse que “não é inamovível”:

“Exige que o mereçamos e que façamos dessa responsabilidade uma causa (…) Isso implica pensar não apenas na sua dimensão museológica, mas também humana e material, na mobilidade, na reabilitação e reanimação da ferrovia. No turismo do nosso tempo, cada vez mais atento à cultura e à natureza, na rede escolar, nos cuidados aos mais velhos, no futuro dos mais novos”, frisou.

Realçando que é necessário “pensar também na ligação entre as duas classificações de Património Mundial que ligam o Parque Arqueológico do Vale do Côa ao Douro Vinhateiro”.

“Os seus destinos estão ligados desde há muito, quando ainda não havia classificação de Património Mundial. Mas em comum havia dimensões elementares, como geografia, orografia, clima, botânica, agricultura, comércio e economia local, circulação de pessoas e bens. Muitas dessas condições mantêm-se e devem cimentar a relação que enriquecerá ambos os mapas”, defendeu.

Seguro repetiu o apelo já deixado durante a manhã, durante uma viagem de comboio na Linha do Douro: “deem uma oportunidade ao interior”.

“Há 30 anos, preservámos o Côa. Agora temos de preservar e criar futuro para as pessoas que fazem do interior de Portugal a sua casa. Não pode haver um país do litoral e um país do interior. Há só um Portugal”, frisou.

Governo defende que património do Vale do Côa é singular na história da humanidade

A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, defendeu igualmente que o património arqueológico do Vale do Côa, no distrito da Guarda, ocupa um lugar “verdadeiramente singular” na história da humanidade e na identidade cultural do país.

“Esta é a celebração dos 30 anos do Parque Arqueológico do Vale do Côa [PAVC] em que muitos que recordam o elemento fundador, que serve para reconhecer um percurso desenvolvido ao longo de três décadas de estudo e valorização de um património que ocupa um lugar, verdadeiramente singular, na história da humanidade e na identidade cultural do nosso país”, disse a governante.

Para Balseiro Lopes, no Vale do Côa, um “património único da arte paleolítica que hoje conhecemos ao ar livre”, as gravuras rupestres “marcam a paisagem” enquanto “fazem recordar que a criação artística acompanha a humanidade desde os seus primeiros tempos”.

«Este é um património que nos aproxima das origens da criatividade humana, e que nos permite conhecer melhor um passado comum, que pertence não apenas a Portugal, mas a toda a humanidade», frisou Balseiro Lopes no evento, que juntou várias personalidades ligadas ao passado e presente do Vale do Côa, como governantes, autarcas, académicos, entre outras entidades locais e nacionais.

Já o presidente da Fundação Côa Parque, João Paulo Sousa, defendeu que aquele território soube transformar risco em património, quando em 1994, no contexto da discussão entre arte e barragem, foram identificadas cerca de 80 rochas com gravuras, em 14 sítios, sendo que no ano seguinte o inventário quase duplicou e continuou a crescer nos anos seguintes.

«Hoje, o território continua a revelar a sua verdadeira dimensão, com mais de 1.600 rochas, espalhadas por 104 sítios arqueológicos. Só em 2026, 69 rochas foram descobertas em seis sítios diferentes», indicou.