O presente texto responde ao artigo do Coronel José António Rodrigues do Carmo (Cel. JC), publicado a 8 de Agosto no Observador, na sequência do debate realizado na CNN Portugal a 3 de Agosto sobre os fluxos migratórios registados em Ceuta nos dias 30 e 31 de Julho.
O objectivo da minha resposta é esclarecer de forma sintética e fundamentada, cinco eixos à luz da literatura das Relações Internacionais (RI), da Ciência Política, da Psicologia Social e dos Estudos de Comunicação.
É o básico, aquilo a que me proponho.
1 Sobre a comparação de migrantes com “manadas”
Durante a sua intervenção televisiva, o Cel. JC recorreu por seis vezes – em três minutos e dois segundos, sem qualquer interrupção da minha parte – a analogias e comparações com “manadas”, “bisontes” e “gnus” para descrever o comportamento dos migrantes marroquinos em Ceuta, argumentando que as “multidões funcionam exactamente como as manadas de animais”, e sustentando que “esse funcionamento faz parte da psicologia humana”.
Vejamos o que foi dito à luz da literatura científica.
O ponto relevante não é discutir uma metáfora isolada, mas os efeitos discursivos da repetição. A literatura sobre desumanização mostra que a aproximação retórica sistemática de grupos humanos a categorias animais favorece processos de distanciamento moral e reduz a perceção da sua plena humanidade, contribuindo para formas selectivas de estigmatização individual e colectiva.
Na Ciência Política e nas RI, este tipo de linguagem articula-se com processos amplamente estudados de securitização, associando certas categorias de migrantes a potenciais riscos e ameaças à segurança, identidade e estabilidade nacionais, que passam a exigir tratamento excepcional fora da esfera normal da política.
Já no que diz respeito às evidências psicológicas que o Cel. JC aduz, convém esclarecer que a Psicologia Social contemporânea rejeita há muito a ideia de que as multidões operam como agregados irracionais através de um contágio instintivo, tal como defendido e popularizado pelos estudos de Le Bon em 1897.
Vários estudos demonstram que os comportamentos colectivos – como as migrações, “mesmo que inopinadas” – são orientados por pressões externas, identidades sociais, significados partilhados, escolhas complexas e objectivos contextuais, preservando formas de agência e intencionalidade que distinguem a acção humana dos fenómenos de debandada animal.
Há ainda que distinguir os mecanismos neurofisiológicos de resposta automática ao medo — activação amigdalina, resposta de luta ou fuga, entre outros — que partilhamos com outros mamíferos a um nível individual e pré-cognitivo.
Mesmo sob ameaça aguda, a investigação em psicologia social das emergências mostra que as multidões humanas preservam, na esmagadora maioria dos casos documentados, cooperação e auto-organização, e não o colapso que a analogia da manada pressupõe.
A excepção conhecida — compressão física extrema em espaços confinados, como em tragédias de recinto — obedece a uma dinâmica distinta, de natureza mecânica e não psicossocial. Mas este dado não possibilita a extrapolação para o comportamento colectivo, pelas razões atrás referidas.
2 Sobre a racionalidade do Irão
No plano analítico, a caracterização do Irão – ou qualquer outro Estado – como um actor racional não constitui um juízo moral, mas uma hipótese de trabalho consolidada nas teorias realistas e liberais de orientação racionalista das RI, de forma a explicar comportamentos estatais através de mecanismos gerais em situações de pré-guerra ou crise. Racionalidade significa a escolha de meios considerados adequados para atingir determinados fins estratégicos.
Na formulação do realismo estrutural – também assumida por realistas clássicos, como Morgenthau, com nuances – e que eu adopto na minha investigação e comentários públicos, os Estados são tratados analiticamente como actores que procuram maximizar a sua segurança e sobrevivência num sistema internacional anárquico, como sustentado por Waltz.
Assim, comportamentos descritos na opinião pública e no debate mediático como “irracionais”, “fanáticos” ou “imprevisíveis”, merecem ser interpretados como respostas calculadas a ameaças percebidas, oportunidades estratégicas e constrangimentos sistémicos, de forma a afastarmos reducionismos explicativos.
3 Sobre Israel e a estabilidade regional
A análise das dinâmicas de segurança no Médio Oriente exige distinguir convicções pessoais de análise científica em RI.
Sob esta premissa, a defesa da soberania de Israel – hoje tida como “democracia eleitoral” e não “democracia liberal” – não impede o escrutínio crítico das suas políticas.
Do ponto de vista do neorrealismo estrutural de Kenneth Waltz – que eu partilho na análise do quadro político do Médio Oriente – o monopólio nuclear israelita é uma anomalia global que, ao não deter qualquer contrapeso estratégico regional, gera uma assimetria na distribuição de poder que actua como incentivo maior à instabilidade.
Procuro superar opções binárias de entendimento e, apesar dos meus valores demo-liberais — e filosoficamente conservadores —, analisar criticamente, de acordo com os pressupostos teóricos que adopto e as evidências empíricas disponíveis, as políticas doméstica e externa de Israel na interacção de múltiplas variáveis regionais e globais.
4 Sobre a “ciência”
Já quanto à crítica que o Cel. JC estabelece face ao que compreende ser a ausência de “estudos” ou a evocação abstracta da “ciência” como argumento de “superioridade moral” da minha parte, parece-me ignorar as diferenças entre contextos de comunicação.
Julgo que em televisão a enumeração excessiva de autores e estudos gera ruído informativo, reduz a clareza do argumento e pode soar a pedantismo, num formato marcado pela escassez de tempo.
Mas o facto de se afirmar que a literatura cientifica evidencia ou não determinados consensos resulta de muitas referências de base permanecerem implícitas porque assentam num léxico conceptual e são do conhecimento generalizado partilhado no seio de comunidades epistémicas. Era isso que me referia quando mencionei os dados que abordarei no eixo 5.
Mas forneço um exemplo, que me parece paradigmático. Apesar da diversidade teórica das RI, o conceito de ordem internacional de Ikenberry é comumente aceite como um denominador comum mínimo, ainda que depois objecto de interpretações, contestações e argumentações intradisciplinares divergentes. É assim que funciona o debate e o avanço científico.
5 Sobre os dados relativos a imigração, criminalidade e terrorismo
Quanto aos dados apresentados no debate e retomados no artigo do Cel. JC, três clarificações metodológicas.
Primeiro, não deixa de ser paradoxal acusar-me de não citar estudos ou autores em debates televisivos, mas permitir-se montar uma narrativa, baseada numa selecção metodologicamente enviesada de evidência, suportado num caso – o sueco – com referências genéricas a um estudo “oficial”, um estudo “posterior” e uma “análise da televisão sueca”, que não permitem verificação científica sem indicação das fontes concretas.
Segundo, o relatório TE-SAT 2026 da Europol que cita, contém informação relevante sobre terrorismo na UE, mas não estabelece em nenhum momento qualquer relação causal ou correlacional entre fluxos migratórios e criminalidade ou terrorismo.
Terceiro, a investigação de Koopmans (2014) – ao contrário do que o Cel. JC infere – traz-nos o próprio autor a afastar uma explicação baseada na suposta predisposição inerente do Islão para o extremismo (p. 22) identificando antes múltiplos factores que explicam as variações nessas atitudes.
Já no que respeita à Alemanha, a literatura empírica recente afasta interpretações monocausais. Estudos macroestatísticos e análises comparadas mostram que a relação entre imigração e criminalidade varia consoante a tipologia de crime, o contexto socioeconómico, as políticas de integração regionais, e outros factores relevantes (Maghularia & Uebelmesser, 2019; Marie & Pinotti, 2024).
Por último, investigações sobre migração e terrorismo concluem de forma consensual que não existe uma relação simples, linear e robusta entre aumento da imigração e aumento do terrorismo (Helbling & Meierrieks, 2022; Nowrasteh & Powell, 2020).
Conclusão
Os cinco eixos analisados delimitam o espaço de diálogo com o texto do Cel. JC em conteúdos precisos, num exercício de contraste com literatura científica de referência.
As restantes apreciações do Cel. JC julgo pertencerem ao domínio da interpretação filosófica, política e normativa – concordo com uns, discordo de outros, não compreendi vários – mas exigiria um debate distinto do que procurei realizar, analítica e metodologicamente.
Num debate público, o contributo mais útil das Ciências Sociais é fornecer conceitos, evidências e critérios de análise que permitam discutir desacordos reais com maior rigor e menor simplificação.
O básico.