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(A) :: Sai um, entra outro: Sporting garante Nestory Irankunda, o atleta "rápido, driblador e finalizador" que nasceu num campo de refugiados

Sai um, entra outro: Sporting garante Nestory Irankunda, o atleta "rápido, driblador e finalizador" que nasceu num campo de refugiados

O avançado australiano é o mais jovem atleta a marcar pelos "Socceroos" na fase final de um Campeonato do Mundo. Tem Tim Cahill e Messi como as suas maiores inspirações e chega com o palmarés limpo.

Manuel Conceição Carvalho
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Era um dos segredos mais mal guardados da semana. “Está ali a assinar agora”, afirmou Rui Borges ainda na quinta-feira de manhã, durante a conferência de imprensa de antevisão do Sporting-V. Guimarães, a realizar-se na sexta-feira. Depois da oficialização da saída de Ousmane Diomande para o Nottingham Forest, o Sporting garantiu a contratação de Nestory Irankunda, ex-avançado do Watford. Não é a primeira vez que o Sporting contrata um atleta do segundo escalão inglês. A última vez que o fez foi com Viktor Gyökeres. Agora, o tempo esclarecerá se esta foi uma boa (re)aposta dos leões num atleta do Championship.

Mas, muito antes desta chegada a Alvalade, para se perceber quem é Irankunda, é preciso recuar ao início de tudo, que começou longe de qualquer relvado. Nasceu a 9 de fevereiro de 2006 no campo de refugiados de Kigoma, na Tanzânia, onde os pais — Gideon e Dafroza — se tinham instalado depois de fugirem da guerra civil no Burundi. Com apenas três meses de vida, a família emigrou para a Austrália, primeiro para Perth, depois para Adelaide, cidade onde Nestory cresceu e onde descobriu o futebol. “Quando rebentou a guerra civil, não tinham escolha — não queriam perder as suas vidas”, contou o jogador ao Canberra Times, em 2023. A história do pai tinha, aliás, um detalhe que anos mais tarde pesaria numa das decisões mais importantes da carreira de Nestory: Gideon tinha uma fotografia sua, tirada no campo de refugiados, com uma camisola do Bayern Munique.

Essa fotografia ficou guardada na memória do filho. Antes disso, porém, havia um percurso a fazer. Depois de uns primeiros anos em clubes de bairro, Irankunda foi recrutado pelo Adelaide Croatia Raiders aos 12 anos, antes de ser captado pelo Adelaide United, onde assinou o primeiro contrato profissional em setembro de 2021. Estreou-se pela equipa principal em janeiro de 2022, com apenas 15 anos — tornando-se o segundo marcador mais jovem da história da A-League, o Campeonato da Austrália. Em três temporadas no principal escalão australiano, somou 61 jogos, 16 golos e oito assistências, incluindo um hat-trick em março de 2024 que o tornava no segundo mais novo da história do futebol australiano a alcançar essa marca.

https://twitter.com/sporttvportugal/status/1629836662023806976

Não tardou que a Europa batesse à porta. Quando soube que o Bayern Munique estava interessado nele, Irankunda não hesitou. Recordou-se da fotografia do pai. “O meu pai disse que apoiava o Bayern — havia uma fotografia dele no campo de refugiados, com o equipamento do Bayern, e eu segui isso, para orgulhar os meus pais”, explicou na altura ao site da A-League. A transferência, concluída em julho de 2024, bateu o recorde de vendas da Liga australiana. Em Munique, as coisas não correram como esperado: sem nunca se ter estreado na equipa principal dos bávaros, passou a segunda metade da temporada cedido ao Grasshopper, na Suíça, onde disputou 21 jogos, com um golo e três assistências. Em meados de 2025, com o Bayern a vender o passe ao Watford por cerca de quatro milhões de euros, Irankunda começou um novo capítulo em Inglaterra.

No Watford, ao lado de Vivaldo Semedo — atualmente jogador do Alverca —, Irankunda não foi quem mais brilhou, mas ainda deixou a sua marca: em 40 jogos no Championship, apontou quatro golos e quatro assistências e foi um dos mais utilizados dos Hornets na temporada 2025/2026.

https://twitter.com/WatfordFC/status/2041204300211237146

O Mundial de 2026, disputado nos EUA, Canadá e México, confirmou o que a Europa ainda não tinha visto em pleno. Na estreia dos Socceroos frente à Turquia, em Vancouver, Irankunda recebeu um passe longo e partiu do lado esquerdo para o golo inaugural da campanha australiana, tornando-se o marcador mais jovem de sempre da Austrália na fase final de um Campeonato do Mundo.

https://twitter.com/sporttvportugal/status/2066096760074731557

A seguir ao golo, correu para a zona de pontapé de canto e celebrou esmurrando a bandeirola como um pugilista — uma celebração que Tim Cahill tornara icónica. “O Timmy Cahill é a minha maior inspiração no futebol. Ele e o Messi. O Cahill é o maior da Austrália, na minha opinião. Pensei que se marcasse, ia fazer o mesmo que ele — e consegui”, disse depois do apito final. Ange Postecoglou, selecionador australiano, sintetizou o momento de forma pragmática: “Por vezes, num Mundial, basta ter duas boas semanas para o teu mundo mudar por completo”.

Irankunda chega a Alvalade sem títulos profissionais no currículo — algo que o seu percurso atribulado entre continentes e clubes pode ajudar a explicar —, mas com um estatuto que não era o mesmo há três meses. O Sporting aposta nos 20 anos de um extremo veloz, hábil a driblar e com sentido de golo — “rápido, driblador e finalizador, com boa progressão para a baliza”, nas palavras de Jochen Sauer, diretor de desenvolvimento de jovens do Bayern, citado pelo New York Times, quando anunciou a sua contratação. Irankunda chegou ao futebol europeu pela porta da formação bávara e, agora, depois de se apresentar na mais luminosa montra do futebol que é o Campeonato do Mundo, aterra em Portugal para dar o passo que clube e jogador acreditam ser o mais acertado. De um campo de refugiados em Kigoma para o campo de futebol — passando por Adelaide, Munique, Zurique e Watford —, a história de Nestory Irankunda passa agora por Lisboa.