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Locarno 2026: entre o eclipse solar e Monica Bellucci

Um bom arranque de concurso com o argentino “Los días libres”, a atracção pelo onirismo de uma “Princesa Burro” chilena e um coming of age sem graça.

Francisco Ferreira
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Nos primeiros três dias do Festival de Locarno em curso, o eclipse solar chegou mais cedo do que o badalado fenómeno anunciado para meio desta semana. De Lucila Mariani, nada se sabia excepto que é uma jovem cineasta argentina com algumas curtas premiadas. A sua longa de estreia, Los días libres (na Cineastas do Presente, a segunda competição do festival), foi um dos filmes que se impôs nesta primeira leva de obras apresentadas. Alguém por aí ouviu falar de um eclipse que está a aproximar-se? Lucila Mariana sim, em curiosa coincidência com o calendário deste mês de Agosto de 2026.

Los días libres fixa-se em Begonia, que todos tratam por Bego, adolescente de 12 anos que, no Verão de um futuro próximo, procura o seu lugar no mundo, em vésperas de um eclipse anunciado. E onde se refugia ela? Na realidade virtual, com as suas amizades que não são de carne e osso, e numa iniciação ao “shifting”, prática pela qual os teenagers acreditam ter acesso a outras realidades, teleportando a mente, como se a vida simulada, substituindo a verdadeira, fosse um sonho de olhos abertos.

Nada disto é original, dir-se-á, mas Lucila Mariani tem talento, pelo insólito e pela estranheza que consegue acrescentar a cada cena. Begonia e a sua geração de amigos atravessam um atónito torpor e isto tem tudo que ver com a família albiceleste e uma herança cinematográfica desenvolvida naquele país da América do Sul, por cineastas como Lucrecia Martel ou Milagros Mumenthaler. Os jovens querem partir, deixar aquele Verão pardacento. Querem eclipsar-se. Ou escapar-se por um qualquer portal alternativo.

Não faltou em Locarno quem logo visse em Los días libres um retrato da actual situação política da Argentina de Javier Milei, que decapitou o acesso a fundos públicos do cinema argentino, um dos mais criativos do mundo. Mas a apreciação é duplamente deslocada: a origem do projecto, iniciado há sete anos, é anterior ao governo incumbente daquele país; além disso, uma das grandes qualidades de Los días libres é a forma como o filme se desembaraça de qualquer cartilha política. Podia passar-se em Pretória ou em Xangai, não deixaria de ter igual valor. Certos interlocutores da adolescente que protagoniza são brasileiros e, envolvida na co-produção, está a portuguesa Persona Non Grata, produtora de António Ferreira.

No concurso principal pelo Leopardo de Ouro, Locarno fez jus ao slogan que, em edições passadas, descreveu a cidade como a “capital mundial do cinema de autor”. De facto, só nos primeiros dias, fomos do Punjab indiano de Rehmat, de Gurvinder Singh (um filme desequilibrado com três histórias) a uma adaptação chilena de A Princesa com Pele de Burro, conto infantil de Perrault, várias vezes levado ao cinema, nomeadamente, por Jacques Demy, em Peau d’âne (1970). Princesa Burro, da dupla chilena Joaquín Cocina/Cristóbal León, está entre Ruiz e Michel Gondry no onirismo da proposta e nas viagens da protagonista do título, que graças à pulseira oferecida pelo rapaz que é um amor proibido, atravessa vários mundos — e cada um deles traz ao filme um género diferente, da fantasia e da animação ao realismo social sul-americano.

Locarno senta todas as noites na Piazza Grande 10 mil pessoas frente a um ecrã com 14 metros de altura e 26 metros de largura. É um espaço propício para apelar ao star system que o festival não pode dispensar, entre as visitas de Olivia Wilde (que veio apresentar O Convite, estreado há um mês em Portugal) e os prémios de homenagem a Isabella Rossellini, Virginie Efira (que falou bastante do seu trabalho recente com Hamaguchi) ou James Gray (o seu novo trabalho, Paper Tiger, esgotou a Piazza este domingo).

É óbvio que, neste lote, encaixa Monica Bellucci, que é uma óptima actriz e a intérprete que mais se aproxima hoje daquilo a que outrora se chamava de “diva” na idade de ouro do cinema italiano. Curioso: é a segunda vez, em 2026, que vemos Bellucci em participações secundárias e em filmes que não estão à sua altura, primeiro num thriller falhado que fechou o concurso de Cannes (Histoires de la nuit, de Léa Mysius), agora num coming of age italiano, produzido por Luca Guadagnino e realizado por um cineasta que já abordou por mais do que uma vez a adolescência: Giovanni Tortorici.

Ketticè é um filme auto-biográfico para Tortorici, siciliano de Palermo (foi assistente de Guadagnino na série We Are Who We Are). A acção decorre naquela cidade em 2012 e, para uma série de adolescentes de 16 anos, como Giulio e Ketty (Bellucci interpreta a mãe do primeiro), é um espaço estagnado, sem perspectivas. Infelizmente, o filme não sai do cliché (ao contrário de Los Dias Libres), não há ideias nem trabalho de dramaturgia suficientes para desenvolver estas personagens, que não vão a lado nenhum. Já o dialeto siciliano falado pelos jovens é tão copiosamente carregado que vai provavelmente exigir que o filme se estreie legendado nas salas do resto da Itália.

O autor escreve segundo a antiga ortografia