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(A) :: Pede desculpa ao pangolim, pá

Pede desculpa ao pangolim, pá

A verdade é que, até hoje, quando penso em pangolins, penso em badalhoquice. É costume dizer ao meu filho: “Vai tomar banho, pá. Pareces um pangolim”.

José Diogo Quintela
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Assisti a parte da audiência do Dr. Fauci no Senado americano e, admito, fiquei espantado com as revelações sobre o cientista que liderou o combate à pandemia nos EUA. Não estava à espera que Fauci pudesse ser assim.

Não falo do facto de ter invocado incessantemente a emenda constitucional que permite que alguém que é interrogado pelas autoridades possa não responder às questões, para não correr o risco de se autoincriminar. Isso parece-me perfeitamente razoável. Até porque Fauci é um octogenário. Muitas vezes, não se furta às respostas por estratégia, mas por esquecimento. Além disso, quem é que já não fez o mesmo numa situação de aperto? Ainda a semana passada me safei de um interrogatório severo invocando a 5.ª.

“Mas 5.ª quê?”, perguntou, já muito irritada, a minha mulher.

“5.ª imperial”, respondi com confiança. “Foi o que lixou tudo. Eu estava porreiro, já a levantar-me para vir embora, quando o Saraiva pediu uma 5.ª rodada. Por causa disso, todos tivemos de pedir as nossas rodadas, para equilibrar as contas e pagarmos todos o mesmo. Assim, em vez de 4, acabámos por beber 8. Quando demos por nós, era hora do jantar. Fomos comer qualquer coisa, até porque não faz bem beber em jejum. Depois, para não nos irmos deitar de estômago cheio, tivemos de ir dançar. Para desmoer. E é por isso que ontem fui jogar padel à tarde só cheguei agora. Foi a 5.ª”.

O que me surpreendeu em Fauci foi mesmo o conteúdo do seu diário. O senador Rand Paul disponibilizou as entradas que Fauci registou no seu computador profissional, entre Dezembro de 2019 e Dezembro de 2022. São mais de 1100 páginas de anotações. E o que surpreende – o que é chocante, mesmo – é que se trata de um diário, o local onde registamos os pensamentos mais íntimos e assumimos falhas que não nos atrevemos a confessar a mais ninguém. Apesar disso, a sós com a sua consciência, Fauci não consegue ter uma palavra de arrependimento pelo transtorno que causou ao pangolim.

O leitor lembra-se do pangolim, certo? Em 2020 foi acusado de ser o responsável pela propagação do Covid. Eu nunca tinha ouvido falar no pangolim, uma espécie de papa-formigas misturado com iguana, mas fiquei instantaneamente com má impressão do bicho. Foram lançadas graves acusações sobre a higiene dos pangolins. A verdade é que, até hoje, quando penso em pangolins, penso em badalhoquice. É costume dizer ao meu filho: “Vai tomar banho, pá. Pareces um pangolim”.

Percebemos agora que o Dr. Fauci sempre soube que a hipótese de propagação via pangolim era duvidosa e que o mais provável era o vírus ter-se disseminado através de uma fuga do laboratório que manipulava vírus do mesmo género e que – olha que coincidência! – era mesmo ali em Wuhan.

Fauci tinha conhecimento disso. No início da pandemia, esteve numa reunião com outros 11 cientistas em que, tirando ele próprio e outro, todos os seus colegas apontavam a hipótese da fuga do laboratório como a mais plausível. Afinal, tratava-se de um laboratório em que se faziam pesquisas com alterações em vírus do mesmo tipo das que deram origem à Covid. Como Fauci bem sabia, até porque, enquanto director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, encomendou experiências muito parecidas a esse mesmo laboratório.

Apesar disso, veio a público afirmar que era impossível o Covid ter surgido num laboratório e quem sugerisse o contrário era racista, xenófobo, ignorante e fascista. Obviamente, a culpa era do porcalhão do pangolim.

Se o Senado americano quer fazer serviço público, então arranje o diário de um pangolim. Só para ver o que vem lá escrito sobre o Fauci.