Sempre que um primeiro-ministro veste os calções e põe um pé na praia, arrisca-se a ser notícia ou vítima dos ataques da oposição. A ida a banhos de Luís Montenegro, reincidente nestas polémicas, voltou a ser tema este ano e nem uma nota em que pré-anunciava uns esporádicos mergulhos estivais o salvou das críticas de José Luís Carneiro e de André Ventura. É uma história com barbas: de uma forma ou de outra, com maior ou menor embaraço, todos os seus antecessores passaram pelo mesmo.
A 21 de julho, numa altura de enorme pressão sobre o Governo, o gabinete do primeiro-ministro fez saber que Montenegro tinha decidido “não gozar férias no verão” e que ficaria a coordenar a atividade do Governo. Nessa mesma resposta, enviada à agência Lusa, acrescentava-se o seguinte: “O primeiro-ministro pretende gozar apenas alguns fins de semana e um ou outro dia esporádico, se a agenda o permitir e sem se ausentar do país”.
Na sexta-feira, foram reveladas fotografias de Luís Montenegro numa praia do Algarve, ao lado de Hugo Soares e elementos das respetivas famílias. As imagens, captadas na véspera, foram utilizadas pela oposição para acusar o primeiro-ministro de ter faltado com a palavra dada — apesar de, como se pode ler acima, Montenegro ter dito que pretendia gozar “alguns fins de semana” e “um ou outro dia esporádico”.
Este sábado, José Luís Carneiro fez isso mesmo: “Peripécias, peripécias, peripécias. Aquela que mais me surpreendeu nas últimas horas foi mesmo termos um primeiro-ministro que jurou a pés juntos que não ia de férias e vê-lo em férias com o líder parlamentar. E essa é uma peripécia que mostra bem o modo como nós devemos olhar para aquilo que são os compromissos e a palavra do primeiro-ministro”, argumentou o líder socialista.
Também André Ventura surfou a onda da polémica publicando um vídeo gerado por Inteligência Artificial nas redes sociais onde o primeiro-ministro e o líder parlamentar do PSD estão na praia, vestidos de nadadores salvadores, e salvam Luís Neves de um afogamento. Apesar da revolta que gerou, esta não é a primeira vez que um líder de um Governo português se vê envolto numa situação parecida.
Já não é a primeira vez que as idas à praia atrapalham Montenegro. Em 2025, e depois de uma Festa do Pontal com direito a gin ao pôr do sol enquanto o país queimava, o primeiro-ministro seguiu de férias com as orelhas a arder. Era para ser uma semana, mas as férias duraram apenas um dia: como os incêndios continuavam a fustigar o país, Montenegro cancelou as férias e fez saber que iria regressar à capital para tomar conta da coordenação política do Governo.
Antes disso, em 2024, Montenegro resolveu aceitar o convite do amigo Eurico Castro Alves, ex-secretário de Estado da Saúde e a sombra de Ana Paula Martins, e foi até ao nordeste brasileiro, com família e amigos. A controversa companhia de Castro Alves deu dores de cabeça — a influência do antigo presidente do Infarmed no Governo é há muito questionada e, recentemente, foi o centro de uma investigação do jornal Público depois de a consultora dele ter apresentado um traficante acusado de ligações ao PCC para negócio de cannabis. Mas o pior viria depois: no âmbito do caso Spinumviva, o Ministério Público exigiu saber quem pagou e como foram pagas as férias no Brasil. A averiguação preventiva seria arquivada em dezembro de 2025.
Costa à beira de um ataque de nervos
Como se viu, Montenegro sem descanso nas férias começa a ser um clássico da estação — mesmo quando não as tira. De resto, o atual primeiro-ministro não é o primeiro a ser acusado de estar de férias quando efetivamente não estava — António Costa que o diga. No último dia da campanha eleitoral para as legislativas de 2019, durante uma ação em Lisboa, um ex-militante e antigo autarca do CDS interpelou António Costa para o acusar de ter estado de férias durante os incêndios de Pedrógão Grande.
Assim que Joaquim Elias começou a falar — “Porque o senhor quando foram os incêndios lá em cima, de Pedrógão Grande, estava nas suas merecidas férias…” —, António Costa perdeu a cabeça. “Não estava não. É mentira. Não interrompi nada. No dia 18, eu já lá estava. O senhor é um mentiroso“, respondeu o então primeiro-ministro, visivelmente exaltado. Costa acabaria por ser retirado do local e seguiu viagem para o Porto.
https://www.youtube.com/watch?v=ifG2gIk324o
Já tinham passado dois anos desde os incêndios de Pedrógão Grande, mas a ideia de que Costa estava de férias quando tudo começou voltou a circular naquela campanha eleitoral. Não eram apenas as pessoas na rua que defendiam a ideia. Rui Rio, então presidente do PSD, chegou mesmo a dizer que Costa “simplesmente não interrompeu as férias” depois da “morte de mais de 60 pessoas“.
Não era verdade. Ambos os incêndios lavraram entre os dias 17 e 24 de junho de 2017. Costa foi de férias na primeira quinzena de julho. Na manhã de dia 18 de junho, o primeiro-ministro deslocou-se a Pedrógão Grande para acompanhar as operações e na noite da véspera já tinha estado no centro de operações da Proteção Civil, em Oeiras, depois de se saber que poderia haver um grande número de vítimas mortais.
Troika a quanto obrigas
Pedro Passos Coelho tomou posse como primeiro-ministro em meados de junho de 2011 e, na primeira reunião do recém-formado grupo parlamentar do PSD, defendeu a necessidade de prolongar os trabalhos da Assembleia da República até agosto para aprovar algumas iniciativas legislativas mais urgentes. “Peço-vos que não façam grandes planos de férias”, disse aos deputados sociais-democratas, segundo noticiou então a agência Lusa. Quando em agosto foi visto de férias com a família para o Algarve, ganhou força a ideia de que a promessa sobre férias de Passos não tinha sido cumprida.
Para um primeiro-ministro que tinha sido responsável, entre outras coisas, pelo corte dos subsídios de Natal e de férias, todos os cuidados com a imagem pública eram poucos. O tempo político era duro — por várias vezes, Pedro Passos Coelho teve de lidar com protestos à porta da casa onde passava férias, na Manta Rota, Algarve — e dificilmente escaparia à crítica se cedesse a grandes tentações — as fotografias a carregar sacos de compras à saída de uma mercearia acabaram por ajudar a construir a sua imagem de marca.
Em rigor, antes como agora, não lhe é conhecido o gosto por férias faustosas — este ano, voltou a ser fotografado na mesma praia de sempre, na companhia da filha Catarina e do neto Benjamim. No entanto, nem todos os seus antecessores tiveram a mesma contenção.

Férias pagas pelo amigo de sempre e um safari de 15 dias no Quénia
Nem todas as polémicas relativas a férias de primeiros-ministros rebentaram durante o próprio verão. No caso de José Sócrates, passaram-se anos até que a Operação Marquês revelasse que Carlos Santos Silva pagou mais de 100 mil euros em férias ao primeiro-ministro em funções, versão dos factos que foi confirmada em julgamento pela antiga secretária de Sócrates, Rute Martins.
A investigação da Operação Marquês sustentou que foram gastos um total de 52 mil euros numas férias em Menorca, em 2008. Uns meses depois, Santos Silva pagou mais 73 mil euros pela passagem de ano em Veneza. Segundo a ex-secretária de José Sócrates, o primeiro-ministro levava consigo os filhos, a então namorada Fernanda Câncio e fazia-se acompanhar pelo próprio Santos Silva e a mulher.
Segundo uma funcionária da agência Top Atlântico que era responsável por marcar estas viagens, o gabinete do então primeiro-ministro pedia para serem emitidas as faturas originais em seu nome, sendo depois anuladas. Era então emitida uma nova fatura, sobre as mesmas despesas, mas em nome de Carlos Santos Silva, que pagava através de cheques fracionados.
O amigo de Sócrates continuou a pagar-lhe as férias depois de este deixar São Bento até ao verão de 2014, ano em que o antigo primeiro-ministro foi preso. Desde 2008, Santos Silva gastou mais de 360 mil euros num total de 158 dias de férias passadas com Sócrates, em destinos como Grécia, Cabo Verde ou Algarve. O juiz Ivo Rosa considerou então que Santos Silva atribuiu a Sócrates um benefício superior a 204 mil euros.
Sócrates já tinha estado envolto numa polémica relativa a férias nos seus primeiros meses em funções. Tinha prometido umas férias aos filhos e gozou de quinze dias para cumpri-las no seu primeiro verão como primeiro-ministro para fazer um safari no Quénia. A escolha de um destino caro causou críticas logo à partida, mas a pressão sobre o chefe de Governo aumentou devido à gravidade dos incêndios que se combatiam em território nacional.
Acabaram por morrer 15 bombeiros no combate às chamas nesse verão de 2005, em que o então ministro da Administração Interna António Costa era o primeiro-ministro em exercício. O CDS chamou o Governo socialista ao Parlamento e exigiu a presença do primeiro-ministro no debate de urgência. Apesar de toda a pressão política, Sócrates cumpriu a quinzena no Quénia até ao fim.
Depois do calor do Quénia, o frio da Suíça. Mas a coisa não correu bem. Em dezembro de 2005, durante a pausa de Natal, o socialista desequilibrou-se ao esqui e lesionou um joelho, o que obrigou a juntar-se à campanha presidencial de Mário Soares, no arranque de 2006, amparado por duas muletas.

Obras numa vivenda de luxo interrompidas para o PM trabalhar
“Pouco barulho! Santana está aqui!”. Este era o título de um artigo do jornal 24 Horas que dava conta de que Pedro Santana Lopes tinha tirado férias apenas 19 dias depois de ter tomado posse. O primeiro-ministro social-democrata tinha tirado férias numa “vivenda cheia de luxos na Quinta do Lago” onde as obras tinham sido interrompidas só para que o chefe de Governo não fosse incomodado.
Durante esses fins de semana de férias, o primeiro-ministro almoçou com o futebolista Ricardo Sá Pinto e com a piloto Joana Lemos e teve direito a um editorial do diretor do Jornal de Negócios, Sérgio Figueiredo, a referir que eram estes os “conselheiros” de Santana Lopes. Mais tarde, no seu livro, Santana queixava-se desta abordagem da imprensa e dos comentadores: “Nunca vi isto acontecer a ninguém”.
Semanas depois, partiu para Ibiza, como o próprio conta no livro Perceções e Realidade, para umas férias num “barco de amigos” que já o tinham convidado em anos anteriores. O próprio justifica que estava “extenuado” e que já tinha anulado as férias “marcadas” para o final de junho devido ao processo que o conduziu a primeiro-ministro.
Santana alegou no seu livro que nesses “quatro dias de Ibiza” ainda teve tempo para trabalhar: “Aproveitei para ter um almoço de trabalho com o presidente do Governo das Baleares e trocar mensagens com Zapatero, que também lá estava, normalmente, de férias com a família num iate”. António Correia de Campos chegou a acusá-lo num artigo de opinião de gastar dinheiros públicos na deslocação, algo que Santana negou, como recordou o Observador.
As férias oferecidas por um milionário na sua ilha privada
João Pereira Coutinho tem atualmente parte da sua pensão penhorada, mas no início do século XXI, antes de acumular mais de 14,7 milhões de euros em dívidas, era um dos homens mais ricos de Portugal. Além disso, era próximo do então primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso, que recebeu nesse verão — em conjunto com a mulher, os três filhos, um primo e um grupo de amigos — na sua ilha privada em Angra dos Reis, no Brasil.
Apesar de o ex-Presidente da Comissão Europeia ter atravessado o Atlântico de Falcon, as viagens de avião não foram feitas à custa do erário público — nem, diga-se de passagem, do bolso do próprio Durão Barroso. Isto porque o Falcon que o então chefe de Governo apanhou não pertencia à frota da Força Aérea Portuguesa, mas pertencia ao amigo Pereira Coutinho, que tinha mandado inclusivamente construir uma pista de aviões na sua ilha. O património de Pereira Coutinho não se ficava por aí: o empresário português era, por exemplo, proprietário de uma fazenda na Argentina com a dimensão de todo o Alentejo.
Durante as suas férias de luxo no Brasil, Durão Barroso também vestiu o fato de primeiro-ministro e aproveitou para realizar contactos diplomáticos enquanto representante máximo do Governo português. Encontrou-se em Brasília com Lula da Silva, pouco tempo depois de este ter tomado posse como Presidente pela primeira vez.
A polémica sobre as férias acabaria por adensar-se quando se tornou público que, dias depois do fim das férias, Vasco Pereira Coutinho, irmão do amigo de Durão Barroso, celebrou uma parceria com o Estado para a compra de um terreno na Falagueira. Seriam levantadas dúvidas a vários contornos do negócio como o valor da venda e a coordenação com o município da Amadora, que tinha projetos em cima da mesa para aquele terreno. O primeiro-ministro considerou que relacionar as suas férias à venda do terreno do Estado era uma “insinuação difamatória”. O projeto urbanístico da empresa de Pereira Coutinho acabaria por nunca sair do papel e o empresário chegou a receber uma indemnização do Estado no valor de 30 mil euros.
As férias de Durão Barroso voltaram a gerar nova celeuma no verão seguinte, quando já presidia a Comissão Europeia. A imprensa alemã revelou que Durão Barroso e a mulher teriam alegadamente beneficiado gratuitamente de uma semana de férias num cruzeiro, que custaria cerca de 20 mil euros. O convite foi feito pelo grego Spiro Latsis, empresário com interesses nas áreas das finanças, petróleo e transporte marítimo, de quem o então Presidente da Comissão Europeia era amigo há 25 anos.
Guterres e Montenegro: a mesma luta
O tema das férias dos políticos presta-se a todo o tipo de aproveitamentos, sempre com alguma dose de populismo à mistura. E quando sentem que os eleitores vão castigar uma incursão pelo areal ou um mergulho fresquinho, a ordem é para travar a fundo e cancelar tudo o que se possa parecer, ainda que vagamente, com descanso.
António Guterres não foi exceção. Em 2001, e depois do trágico acidente em Entre-os-Rios, e numa altura em que as sondagens eram desastrosas para a turma socialista, António Guterres fez saber que nesse ano não iria tirar férias e deu ordens para que todos os ministros ficassem a trabalhar. Nuno Severiano Teixeira, então ministro da Administração Interna, dizia que os ministros iam gozar apenas “alguns dias de descanso” e jurava que a decisão nada tinha que ver com a queda nas sondagens. “O Governo está a trabalhar bem e continua a merecer a simpatia dos portugueses”, explicava Severiano Teixeira.
Não era bem assim. Meses depois, nas eleições autárquicas, o PS sofreu uma copiosa derrota, tendo perdido as autarquias de Lisboa e Porto, e António Guterres, agastado com o enorme desgaste acumulado desde 1995, denunciou o “pântano” em que se tinha atolado e deitou a toalha ao chão. Nem o cancelamento das férias lhe valeu.
Viagem a Salzburgo patrocinada pela Nestlé
Paulo Portas também protagonizou uma das polémicas que envolvem governantes e férias. Não enquanto membro do Governo, mas através de um artigo de 1993 d’O Independente. Nesse verão, o então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva foi convidado pela Nestlé para umas férias em Salzburgo. “A Nestlé teve a ideia, escreveu a Cavaco, organizou e pagou”, revelava Portas.
Na verdade, a viagem também terá custado ao erário público, que assegurou a viagem de avião até à cidade austríaca. “Nós pagámos o Falcon e a Nestlé pagou o resto — os bilhetes para o festival, a estadia na suite presidencial do melhor hotel da cidade e um passeio para ver as vistas. Tudo confirmado pela multinacional. Foi assim que pela primeira vez um primeiro-ministro português se deslocou ao estrangeiro a convite de uma empresa privada.”
Ainda assim, há uma imagem que ficaria para sempre associada às férias de Aníbal Cavaco Silva: a fotografia do primeiro-ministro a trepar um coqueiro durante umas férias em São Tomé e Príncipe. A imagem mereceu grande destaque da edição de 18 de agosto do semanário Expresso e o texto da chamada de capa não lhe ficava atrás. “‘Foram oito dias de sonho que nunca mais vou esquecer’, disse ao Expresso o primeiro-ministro, Cavaco Silva, no final das suas férias na República Democrática de São Tomé e Príncipe, as primeiras que passou no estrangeiro desde que é chefe do Governo.
E continuava: “Acompanhado da mulher e dos filhos e evidenciando uma excelente forma física, Cavaco Silva conheceu, à beira-mar, entre coqueiros, os prazeres das águas mornas e transparentes das praias do arquipélago, embrenhou-se na densa floresta equatorial à descoberta da ‘obra notável que os portugueses deixaram em muitas roças’ entretanto tomadas improdutivas, conduzindo ele próprio, pela primeira vez, um jipe posto à sua disposição. Por todo o lado, com especial destaque para o Príncipe, foi recebido com calor e amizade, numa demonstração de que, ‘vencidos os complexos do passado, novos caminhos se abrem para a cooperação portuguesa em África’. Para os consolidar, o primeiro-ministro desenvolveu, em paralelo, uma intensa atividade política junto das autoridades locais”.
Cavaco Silva demorou cinco anos a gozar as suas primeiras férias na qualidade de primeiro-ministro. Guterres cancelou umas e perdeu eleições a seguir. Barroso não teve grandes complexos, Santana também não. E Sócrates, o país veio a descobrir mais tarde, tinha uma abordagem muito original ao tema férias. Passos tentou dar aquilo que entendia ser o exemplo num momento de aperto e Costa, que nunca renunciou ao direito ao descanso, teve de lidar com uma mentira muitas vezes repetida. Montenegro não tem tido melhor sorte: teve problemas por ir para fora, teve problemas quando gozou férias cá dentro e teve problemas quando decidiu abdicar de férias. Para o ano há mais.
[O espião português suspeito de vender segredos à Rússia voa para Roma e as autoridades estão determinadas a apanhá-lo em flagrante a passar informações a um agente de Moscovo. “A vida dupla do espião traidor” é o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pelo ator Ivo Canelas, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo.]