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(A) :: Nem falsos santos, nem convictos pecadores

Nem falsos santos, nem convictos pecadores

Quem está na vida política deve renunciar à falsa virtude. Aproveitar férias, descansar, beber e comer o que quiser, não é incompatível com a dedicação, competência e respeito pela ética republicana.

Miguel Santos Carrapatoso
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Existe uma enorme confusão sobre o que significa a virtude na política. Uma confusão que é alimentada pelos próprios, que ora a usam como arma de arremesso (se estiverem na oposição), ora se fazem de vítimas (se estiverem no poder). Uma confusão, também importa dizê-lo, alimentada por uma certa corrente do Ministério Público e amplificada por muitos na comunicação social — alguns procuradores e jornalistas não resistiriam um dia num qualquer cargo político se a eles lhes fosse aplicado o grau de pureza que exigem aos outros.

Esta confusão tem um entre muitos efeitos perversos: se nos chocamos com tudo, então nada nos choca verdadeiramente. E esse é um terreno muito fértil para a relativização moral de todos os pecadilhos, por um lado, e para uma espécie de culpabilização coletiva muito em voga, muito ar dos tempos, e que pode ser resumida numa ideia: “São todos iguais, são todos corruptos e são todos corruptíveis”. Não são. Não são mesmo. Mas quando a hipocrisia de quem acusa e a sonsice de quem é acusado andam de mãos dadas, ninguém se pode queixar verdadeiramente pelo mau serviço que está a fazer ao país.

Exemplo prático número um: o caso de Luís Neves. Independentemente das auditorias e investigações em curso, existem três factos indesmentíveis: o atual ministro da Administração Interna e ex-diretor da PJ confirmou de viva voz ter cometido os pecados da informalidade (na questão do atrelado), da incúria (na questão da declaração de rendimentos) e da imprudência (na forma como tratava com o amigo empreiteiro, a quem chegou a entregar cinco mil euros em dinheiro vivo).

Por si só, estes três pecados merecem censura. Não são, obviamente, comportamentos ou decisões aceitáveis para um titular de cargo público ou político. Que Luís Neves não o perceba e queira resolver tudo com a conversa da “luta do bem contra o mal” e do “Ford Focus com 15 anos”, é um problema grave; que no Governo e na direção do PSD não haja ninguém a reconhecê-lo frontalmente, é um problema ainda mais grave. Estivesse este PSD na oposição e já teria exigido a cabeça do ministro numa bandeja.

Mas não. Quando faltam argumentos para defender o indefensável, lá vem a conversa do “se continuarmos assim, ninguém vai querer vir para a política”. Sim, os melhores estão a fugir da vida política porque não querem prestar vassalagem aos caciques partidários, porque deve ser um horror lidar com uma Administração Pública que não se governa nem se deixa governar, porque não estão para aturar jornalistas, polícias e procuradores do Ministério Público, e porque não querem ser mal pagos enquanto o fazem.

Tudo isso é verdade. E, em muitíssimos casos, inteiramente justo. Mas convém que não se confunda a beira da estrada com a estrada da beira: se não é censurável que um polícia-ministro decida quando e como deve entregar declarações obrigatórias por lei e que despache atrelados apreendidos para o armazém do amigo empreiteiro, a quem paga umas obras na PJ e outras, domésticas, em dinheiro vivo, então pouca coisa será verdadeiramente censurável. As grelhas de avaliação não podem variar consoante o lugar que se ocupa — o de poder ou de oposição.

Exemplo prático número dois: as férias de Luís Montenegro. Numa patusca manobra de relações públicas, e depois de Montenegro ter ido a três jogos da seleção e a um festival de música enquanto o país lidava com o calor, Neves assava e o ministro da Educação derretia, o gabinete do primeiro-ministro fez saber que Montenegro não ia tirar férias e que ficaria, estoico, a governar o país a tempo inteiro. Um populismo de pacotilha, que se via à distância que ia correr mal, e que passava uma péssima mensagem, como se as férias fossem uma coisa má, só para indigentes e gente sem ambição. Não, as férias são um direito e, no caso particular do primeiro-ministro, deveriam ser um dever.

Mas uma má manobra de relações públicas não deve ser aproveitada para usar a mentira como arma política. O gabinete do primeiro-ministro nunca disse que Luís Montenegro não iria gozar “um ou outro dia esporádico” de férias. Pelo contrário, teve o cuidado de dizer o seguinte: “O primeiro-ministro pretende gozar apenas alguns fins de semana e um ou outro dia esporádico, se a agenda o permitir e sem se ausentar do país”. E foi isso que foi ‘apanhado’ a fazer.

Uma parte da comunicação social não quis saber e, pior do que isso, José Luís Carneiro não quis saber. O líder de um partido que rasgou as vestes quando António Costa foi (erradamente) acusado de ter estado de férias durante os incêndios de Pedrógão Grande, veio agora acusar (erradamente) o adversário de ter quebrado uma promessa que Luís Montenegro nunca fez. E veio, indiretamente, legitimar aquela conversa gasta de que os políticos “não fazem nada” e que “político bom é político fechado no gabinete, a trabalhar”. Se é isso que Carneiro defende, é bom que reserve já um quarto num mosteiro — se um dia for primeiro-ministro, vai precisar dele pelo menos três meses por ano.

Exemplo prático número três: um excelente apanhado feito pelo semanário Expresso, que foi perguntar a várias figuras políticas o que gostam mais de fazer, de comer e de beber na pausa de verão, e um outro levantamento feito pela agência Lusa sobre o que pretendiam fazer os políticos nas férias. Da direita à esquerda, e salvo raríssimas exceções, tudo pode ser sintetizado assim: os políticos da nação vão passar férias pela terrinha, para não gastar muito, claro, vão ler e ouvir o que ninguém lê e ninguém ouve, vão comer coisas muito saudáveis e beber muita, muita, muita água.

Porque é isto, no fundo, que acham que os eleitores esperam que eles façam: que sejam muito sérios, muito bem comportados, muito impolutos, muito poupaditos, muito “gente como a gente”, mas com o verniz de intelectualidade que julgam que os qualifica como servidores da causa pública. Mas está tudo ao contrário.

A lógica deveria ser outra: quem está na vida pública e política deve aproveitar as férias, descansar tanto quanto puder, beber e comer o que quiser, gastar o dinheiro que seja deles por direito, ouvir e ler o que bem entender, ter os carros e as casas que conseguir comprar. Depois sim, levar a ética republicana verdadeiramente a sério, ser consequente com o que se defende, no poder como na oposição, ser competente e rigoroso no desempenho dos cargos que lhe foram confiados. E quando, por algum motivo, errarem, devem ter a coragem de pedir desculpa e assumir responsabilidades. O resto é a tal falsa virtude que só engana tolos e que torna tudo mais infrequentável.