É o seu “segundo filho”. Tatyana Kim estava a gozar da licença de maternidade, quando percebeu que não havia muitas opções para comprar roupa para criança. Tinha tido a sua primeira filha e queixava-se da falta de alternativas. Assim, entre biberões e comida para bebé, teve uma ideia: criar um negócio online que se pautasse por uma abordagem flexível, entregas grátis e preços competitivos. Começou por vender apenas duas marcas alemãs. Mais de duas décadas depois, construiu um império — a Wildberries, mais conhecida como a Amazon russa — e tornou-se a mulher mais rica da Rússia com uma fortuna avaliada em 8,1 mil milhões de dólares (cerca de 7 mil milhões de euros).
Vigiada pelo Kremlin de perto, a Wildberries transformou-se no principal site de comércio a retalho online na Rússia, principalmente desde a invasão da Ucrânia, depois de as plataformas ocidentais terem abandonado o mercado russo em protesto contra a guerra. Tatyana Kim viu aí uma oportunidade para crescer, ainda que se tenha envolvido numa intensa disputa com o seu ex-marido em 2024 — e que envolveu um tiroteio em Moscovo, na sede da empresa, que até contou com a participação do líder checheno, Ramzan Kadyrov.
Principalmente após 2022, a Wildberries ganhou uma posição dominante no mercado russo, numa área profundamente competitiva. No entanto, desde o último mês, o império construído pela mulher mais rica da Rússia está a entrar em colapso. Através de drones, a Ucrânia tem atacado armazéns e centros logísticos da empresa. São alvos prioritários para o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que acusa Tatyana Kim de vender equipamentos militares e de ajudar a fortalecer a máquina de guerra russa — alegações que a bilionária refuta categoricamente.

Os prejuízos avolumam-se para a empresária. Embora mantendo uma postura bastante reservada e fugindo dos holofotes, Tatyana Kim quebrou o silêncio num vídeo publicado online no final de julho. Em causa estava a credibilidade da Wildberries, não apenas para os consumidores — que não viam os seus produtos chegar devido aos ataques ucranianos —, mas também para a vasta rede de parceiros. A plataforma é usada por vendedores na Rússia, na Arménia, na China, na Bielorrússia e em vários países da Ásia Central. Os pilares da empresa — os centros logísticos onde as mercadorias são armazenadas e expedidas — estavam a ser atingidos.
A Ucrânia promete não parar a ofensiva contra o gigante russo do retalho online. Ainda este domingo, levou a cabo um ataque contra um armazém localizado nos Montes Urais, a dois mil quilómetros de território ucraniano. Kiev tem vários objetivos em mente: um deles consiste em criar ainda mais disrupções à economia russa, já em tendência de queda. Mas não é o único. Bastante popular na Rússia, a Wildberries acaba por afetar a vida da população civil, que sente na pele os efeitos do conflito no país vizinho.
Tatyana Kim depara-se com uma das fases mais complicadas da sua vida profissional, gerindo uma situação de crise que não tem fim à vista. Por causa disso, a mulher mais rica na Rússia anunciou que vai descentralizar os centros logísticos da Wildberries, de maneira a mitigar o risco de novos ataques ucranianos. Ao mesmo tempo, o Kremlin tem saído em defesa da bilionária e tem tentado apoiá-la, assim como a vasta rede de vendedores, para tentar evitar uma vaga de falências de várias pequenas e médias empresas.
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A professora de inglês que singrou no mundo empresarial com o beneplácito do Kremlin
Nascida em 1975 na região de Moscovo, Tatyana Kim é filha de pais de etnia coreana. Em criança, sofreu bullying por pertencer à minoria, um episódio que a marcou negativamente, como reconheceu em várias entrevistas. Formou-se em Língua Inglesa e em Alemão e iniciou a sua carreira profissional como professora, dando explicações e aulas particulares. No início dos anos 2000, conheceu o seu futuro marido, Vladislav Bakalchuk, com quem casou apenas seis semanas depois do primeiro encontro. Foi com ele que fundou a Wildberries, após o nascimento da primeira filha do casal.
Como recorda a agência de notícias russa RIA, o casal enfrentava dificuldades financeiras. Dando apenas aulas particulares, Tatyana Kim percebeu que não teria rendimentos suficientes enquanto criava a filha. Em simultâneo, tinha várias dificuldades em comprar roupa para bebé na Rússia e considerava a oferta pouco atrativa. Assim, com o apoio do marido, lançou um site que revendia produtos das marcas alemãs Otto e Quelle, aplicando uma margem de apenas 10% sobre o valor de compra original.
O negócio — desenvolvido inicialmente no apartamento do casal, com as encomendas a serem entregues à mão — cresceu rapidamente e tornou-se um sucesso. Em 2006, abriram o primeiro armazém e contrataram alguns familiares para a Wildberries, tornando-se pioneiros na Rússia ao comercializar calçado online no setor do retalho. O nome da empresa, que se traduz para português como “Frutos Silvestres”, foi escolhido para “alegrar a vida dos clientes” e conferir à marca uma “imagem única”.

A expansão da rede de internet na Rússia, assim como a consolidação de uma classe média com poder de compra, abriram as portas para que a Wildberries se destacasse. A partir de 2010, o casal optou por uma nova estratégia: atrair parceiros russos que passassem a vender os seus produtos na plataforma. A ideia era tornar as compras online simples e acessíveis, eliminando barreiras para conquistar a confiança de uma população de mais de 140 milhões de potenciais consumidores.
A competição no comércio online revelava-se feroz, quer devido às gigantes internacionais como a Amazon, quer devido às plataformas chinesas. No entanto, a Rússia está longe de ser um mercado simples: é o maior país do mundo e criar cadeias de abastecimento eficazes representa um enorme desafio. Se em Moscovo e São Petersburgo a logística é simples, o mesmo não acontece nas províncias do Extremo Oriente ou na Sibéria. Foi precisamente nesse vácuo que a Wildberries prosperou, descentralizando os seus centros logísticos por todo o território russo.
Automatizar processos e criar pontos de recolha com uma interface simples: foi assim que Tatyana Kim se tornou, nas palavras da BBC, na “rainha do retalho online” na Rússia. Em 2019, a Wildberries tornou-se a maior empresa do género no país, superando a concorrência e expandindo-se para mercados como a Bielorrússia, o Cazaquistão, a Arménia e o Quirguistão, entre outros. A fortuna da empresária também aumentou significativamente, convertendo-se na mulher mais rica da Rússia, de acordo com a Forbes.

O sucesso nos negócios conjugava-se com a maternidade. Tatyana Kim e Vladislav Bakalchuk são pais de sete filhos, os últimos dos quais (gémeos) nascidos em 2021. Na Rússia conservadora que o Kremlin gosta de apresentar, a história da mulher era vendida como um autêntico êxito. Como nota a RIA, é “um exemplo inspirador para muitas mulheres empreendedoras e demonstra com sucesso que a persistência, o trabalho árduo e o talento podem alcançar ótimos resultados nos negócios”.
Integrando a lista dos mais ricos da Rússia desde meados da última década, Tatyana Kim fez parte de uma nova elite empresarial russa. Num país que viu empreendedores a enriquecer massivamente nos anos 90 — sobretudo através da privatização de empresas públicas após a queda da União Soviética —, a empresária tem uma história de vida distinta, quase à imagem do sonho americano. É o exemplo de uma self-made woman que triunfou no novo sistema capitalista adotado pelo país.
Quando chegou ao poder no início dos anos 2000, Vladimir Putin forjou uma aliança com os chamados oligarcas. O negócio era simples: o novo chefe de Estado passava a deter um poder praticamente ilimitado e queria o apoio dos oligarcas ao novo regime. Em troca, o Kremlin garantia aos empresários a proteção dos seus impérios financeiros. O caso de Tatyana Kim é bastante distinto: o seu negócio surgiu e cresceu sempre com o mesmo chefe de Estado à frente da Rússia.
A Rússia é atualmente um sistema capitalista, mas a herança comunista nunca desapareceu: o Estado continua a desempenhar um papel determinante, sobretudo junto dos empresários de topo. Num regime autocrático em que Vladimir Putin deseja manter-se no poder, o Presidente russo vigia de perto aqueles que passam a deter um grande poder económico — um capital que facilmente poderia ser canalizado para a política, onde o chefe de Estado não tolera qualquer interferência.
Tatyana Kim surgiu e cresceu neste ambiente e parece ter sabido jogar sempre pelas regras do jogo. É discreta, reservada (não tem redes sociais) e praticamente não faz comentários sobre política. Talvez por isso a agência RIA — controlada pelo Kremlin — lhe tenha feito vários elogios num perfil dedicado à empresária: “Graças a uma estratégia singular, Tatyana Kim tornou-se numa das líderes empresariais mais influentes da Rússia. O seu sucesso deriva não apenas da sua elevada competência profissional, mas também da sua capacidade de antecipar e de se adaptar rapidamente às mudanças no setor do retalho online“.
O polémico negócio de 2024 — e o tiroteio em que Kadyrov esteve envolvido
A guerra na Ucrânia teve impactos positivos nos negócios da Wildberries. Vários rivais ocidentais abandonaram o mercado russo. Lojas populares como a Zara, a Adidas e a H&M deixaram a Rússia. A oferta e a competição diminuíram significativamente e a empresa aproveitou para consolidar a sua expansão. Em paralelo, Vladimir Putin fechou ainda mais o país, num clima político em que nenhuma crítica (sobretudo à guerra ou ao seu poder) era tolerada.

A Wildberries era vista pelo regime como uma forma de manter o comércio online praticamente inalterado, apesar da guerra. Os russos continuavam a poder comprar roupa pelo computador ou pelo smartphone, que rapidamente chegava às suas casas. A população de classe média dos grandes centros urbanos mantinha o mesmo estilo de vida, mesmo com a debandada de empresas ocidentais. Mas esse domínio do retalho, especialmente numa altura de menor concorrência, atraiu as atenções do Kremlin.
Neste contexto, em 2024, Tatyana Kim liderou o processo de fusão da Wildberries com uma empresa de publicidade associada a homens fortes do Kremlin. Esse negócio foi altamente contestado pelo marido. Vladislav Bakalchuk denunciava que o poder político e corporativo estava a tentar assumir as rédeas da gigante do comércio online. A empresária ignorou as acusações e avançou com o processo, justificando que a parceria permitiria criar uma plataforma digital global e um novo sistema de pagamentos em rublos que contornaria as sanções ocidentais.
A separação não se limitou ao mundo dos negócios. A rutura entre o casal foi total: a fusão com o Russ Group levou mesmo a que se divorciassem. Tratou-se de um divórcio litigioso que fez manchetes na imprensa russa. Tatyana Kim acabou por ficar com a totalidade das ações do ex-marido, assegurando o controlo de 65% da joint venture criada entre a Wildberries e o Grupo Russ.

Porém, o divórcio teve implicações ainda mais significativas. Em setembro de 2024, a sede da Wildberries em Moscovo foi palco de um tiroteio que fez duas vítimas mortais. Vladislav Bakalchuk tentou entrar no edifício acompanhado por homens armados de origem chechena — entre os quais lutadores de artes marciais —, após ter obtido o apoio público do líder da Chechénia, Ramzan Kadyrov, para travar a fusão da empresa com o Russ Group.
Esta aliança parecia ser contranatura. Ramzan Kadyrov é um aliado de Vladimir Putin, num negócio que contava com o apoio tácito do Kremlin. Contudo, Vladislav Bakalchuk soube premir os botões corretos para garantir o apoio do líder checheno. O empresário argumentou que o mundo corporativo estava a tentar destruir uma empresa familiar tradicional.
Surpreendentemente, o líder da Chechénia saiu em defesa de Vladislav Bakalchuk. Prometeu que ia estar ao lado dele “até ao fim”, defendendo publicamente que Tatyana Kim “devia regressar a casa” e deixar a gestão do negócio para o marido, fazendo jus às suas ideias de conservadorismo social. Entre vídeos nas redes sociais e intervenções policiais, as equipas de segurança do edifício em Moscovo entraram em confronto armado com os chechenos, o que resultou em duas vítimas mortais.

Embora Ramzan Kadyrov se tenha oposto ao negócio, o plano de reestruturação de Tatyana Kim foi avante. A empresária venceu a contenda, contando com o apoio discreto — mas determinante — do Kremlin. Após esta crise de relações públicas que atingiu o domínio familiar, a Wildberries manteve a trajetória de sucesso: alcançou cerca de 95 mil pontos de recolha espalhados por todo o território russo, com mais de metade da população a fazer compras na plataforma pelo menos uma vez por mês.
A estratégia da Ucrânia: desestabilizar a economia russa e a elite
Na Rússia, alguns empresários começaram a expressar alguma irritação com o rumo do conflito, que parece não ter fim à vista. A Ucrânia tem atacado várias refinarias e, mais recentemente, centros logísticos como os da Wildberries — prova de que nem o setor privado está a salvo. Já estrangulada por uma economia de guerra onde o consumo está a diminuir, parte da elite económica estará a tentar sensibilizar o Presidente russo para a necessidade de se sentar à mesa das negociações.
No entanto, o Presidente russo continua sem os ouvir. Mais: sempre que vê a contestação aumentar, aperta a malha e avança com nacionalizações ou reestruturações forçadas. Ainda que exista um setor privado na Rússia, está longe de estar livre das manobras de poder do Kremlin. Como lembra a especialista Natalya Kovaleva num artigo publicado no think tank Chatham House, a elite sabe que Vladimir Putin não vai deixar que ninguém pise o risco.

“Com menos níveis para influenciar as decisões políticas, as elites estão cada vez mais vulneráveis e dependentes do Kremlin”, frisa Natalya Kovaleva. Exemplo disso foi a detenção de Ilya Traber, um oligarca que mantinha boas relações com Vladimir Putin desde os anos 90 — e que até já chegou a ser visto em festas de aniversário do Presidente. A justificação assentou no facto de ter sido detetado que o empresário esteve envolvido na morte de um rival no mundo dos negócios de São Petersburgo — mas o caso serviu sobretudo de lembrete à comunidade empresarial de quais são as eventuais consequências para quem desafiar o poder político.
Perante a dependência face ao Kremlin, a Ucrânia entende que não serão os oligarcas a sensibilizar Vladimir Putin para se sentar à mesa das negociações e para acabar com a guerra. Empresários como Tatyana Kim, apesar de serem bilionários, não vão fazer nada para terminar o conflito. Assim, ao atacar a “Amazon” russa, os ucranianos pretendem que a população e as elites sintam na pele os custos reais do conflito. Seja na peça de roupa que um morador de Moscovo encomendou e que nunca chegou, seja em prejuízos milionários para os mais ricos.
A Wildberries é um ponto de pressão perfeito na perspetiva ucraniana, porque serve como um exemplo claro para as elites. Ao angariar pequenos vendedores e milhões de consumidores, os ataques à gigante do retalho geram impactos diretos no quotidiano da população russa. “Nem as pequenas empresas, nem as elites com ligações políticas podem contar com o Estado para proporcionar um ambiente empresarial estável — seja para as proteger dos drones ucranianos, seja das crescentes perdas económicas, seja das próprias intervenções estatais. A proximidade ao poder já não garante segurança”, expõe Natalya Kovaleva.
No caso da gigante do retalho, a Ucrânia tem destacado ainda que serve como uma facilitadora da cadeia de abastecimento militar russa. “São instalações logísticas russas, especificamente armazéns utilizados para fornecer material de guerra: equipamento de navegação, componentes para a produção de drones e outros mantimentos para o exército russo”, acusou o Presidente ucraniano.
Em resposta a estes ataques e acusações, Tatyana Kim gravou um vídeo para abordar os “ataques terroristas” ucranianos. “O inimigo declarou publicamente que os ataques à Wildberries são direcionados a cidadãos comuns. O seu único objetivo é exercer pressão, desestabilizar e causar pânico e choque entre a população”, atirou a empresária, que lançou ainda uma mensagem à “comunidade empresarial russa”: “Manter a cabeça fria, ter um plano para nos reorganizarmos a curto prazo, adaptarmo-nos e transformarmo-nos”.
É um “período difícil“, admitiu a mulher mais rica da Rússia, que nunca escondeu a proximidade com o Kremlin. Aliás, a presidência russa tem interesse em manter a Wildberries a funcionar: é controlada por alguém que se mostrou pelo menos conivente com o regime. Por causa disso, foram já ativados vários planos para apoiar a empresa. Grandes bancos russos — como o Sberbank ou o VTB — investiram na gigante do retalho nos últimos anos.
https://twitter.com/NatalkaKyiv/status/2083317378113261979
O Banco Central Russo foi acionado, esta segunda-feira, para ajudar as pequenas e médias empresas que foram afetadas pelas quebras da Wildberries. Na mesma linha, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou, no final de julho, que já estão a ser discutidas formas de “apoiar a empresa” e que o Governo está a “monitorizar” os impactos dos ataques ucranianos. Mas ainda não foi tomada nenhuma medida concreta.
A professora de inglês que começou a vender roupa de duas marcas alemãs durante a licença de maternidade transformou-se numa das empresárias mais bem-sucedidas da Rússia. Tatyana Kim juntou-se à elite financeira russa. Para isso, teve de tolerar a influência do Kremlin e subjugar-se às vontades da presidência russa. Isso manteve-a à frente dos negócios e aumentou a sua fortuna, mas também transformou o “seu segundo filho” — a Wildberries — num alvo apetecível para a Ucrânia.