Pode parecer estranho, mas a verdade é que tenho por esta extremidade tão esquecida, e em particular pela sua versão no feminino, um fetiche que aos meus olhos dispensa justificações. Admiro o pé feminino, em particular se longo, magro e cinzelado. Um pé assim é altivo, vistoso, eleva qualquer corpo e enobrece quem nele se apoie.
Sempre que me é permitido, passo horas de olhar pousado nas suas linhas, no curvilíneo das sinuosidades plenas de mistérios. Calçados, descalços ou pelo próprio pé, a todos aquilato na beleza simples das formas.
Abomino vê-los tatuados, pintados de vermelho paixão ou, pior ainda, com um dissonante negro gótico. Um pé com personalidade não necessita nem depende de tais adornos. Um bonito pé longo, magro tem personalidade própria. Um pé assim, altivo e esguio sempre foi, na antiguidade clássica, no romantismo oitocentista, ou na atualidade o símbolo de um garbo aristocrático.
John Godward, pintor vitoriano, registava as figuras femininas em ambientes clássicos, adornados de tapeçarias, tecidos e mármores. Nos seus quadros, os pés femininos surgem quase sempre nus e são-nos devolvidos com minúcia igual à que dedicava a mãos, rosto e enquadramento. Nas suas obras, o pé nunca é apenas uma extremidade anatómica, é um elemento de elegância, serenidade e equilíbrio. E esse é o pé que me fascina.
Admiro-os nos bailarinos, e em particular as versões femininas saídas da palete de Degas. Admiro-os pela altivez e destreza, e arrebata-me a firmeza e precisão com que movem os corpos esculpidos. Seduz-me a harmonia, a geometria e uma fluidez, só permitida a alguns eleitos.
Há quem os retrate igualmente longos, magros e ossudos, mas desprovidos de elegância. El Greco coloca-os assim, mas em sofrimento e na angústia da ascensão.
Outros pés há em que o sofrimento não se limita a uma expressão simbólica, mas ao legado do enfaixamento castrador que desde tenra idade lhe amputou formas e sonhos.
Outros, como o pé diabético comportam-se como o virtuoso que em sofrimento seráfico, carrega as feridas de toda uma humanidade.
Outros há ainda que são enjeitados desde a infância como o boto, o raso, ou ainda o cavo, esse pedante, que toca o chão como se o não pretendesse calcar, e se arrepia sobressaindo-lhe um voluptuoso peito, alvo da cobiça no olhar fixo deles e da inveja não confessada delas.
Os pés dizem muito de quem somos e ainda mais de quem fomos. Os pés nunca mentem sobre a distância percorrida. O rosto disfarça, o cabelo pinta-se, as rugas esticam-se e até a memória, quando lhe convém, reescreve o passado. Os pés não. Cada calo é um calendário, cada deformidade uma ocorrência e cada cicatriz uma nota de rodapé.
Talvez por isso os pés sejam o currículo silencioso do corpo. Dizem se caminhámos, se corremos, se dançámos ou se passámos a vida sentados à espera do que fortuitamente acontecia.
Há quem tenha pés magníficos e nunca saiba para onde ir. Há quem, tendo-os por miseráveis, atravesse meio mundo com eles. Ninguém foge aos próprios pés e muito menos de si próprio.
Os pés são ainda a parte mais sensata do corpo. Vivem em baixo, conhecem o chão e nunca lhes ocorreu subir à cabeça. Os pés sustentam o corpo, mas raramente sustentam o ego.
Há, por fim, qualquer coisa de profundamente indiscreta neles. O corpo inteiro pode mentir, os pés acabam sempre por confessar. São raízes que podem escolher o solo onde pousam, mas que nunca apagam as pegadas que deixam para trás. No fim, talvez os pés não sirvam apenas para nos levar onde queremos, talvez sirvam também para denunciar por onde andámos.
Há, porém, ironias que a natureza reserva a quem, como eu, nela atenta em contemplação.
Eu tenho dois pés. Tenho o esquerdo, um pé bonito, ou melhor, um não tão feio quanto o direito, esse sim verdadeiramente hediondo. Essa aberração da natureza tem um hálux que teima em tombar como um ponteiro do relógio para as quinze horas. Teima, ainda que há anos não consiga passar das quatorze e trinta. Nesse esforço hercúleo de se aproximar do meio da tarde, é acompanhado de quatro minorcas que, não migrando de igual modo por fusos horários, se encarquilham numa garra perversa, aparentemente indisponíveis para largar uma presa a que nunca provaram pelo ou penugem.
Nesse descompasso assimétrico, é um pé difícil calçar e, nem mesmo com chinelo escapa a essa inevitabilidade. O primo interpares, quando livre de contenção, tal como um déspota, tenta endireitar-lhes a espinha saltando-lhes na lombada num ato de subjugação e castigo.
O primeiro metatarso, vendo o discípulo distal a desviar-se resolutamente para a direita, tenta equilibrar as coisas tombando para a esquerda, assumindo o conjunto um aspeto sinuoso de curva e contracurva a lembrar a antiga estrada do Marão.
O esquerdo, não sendo o “belo” ou apenas bonito, está longe de ter aspeto assim repugnante. Não sendo uma obra de arte, sinto-me tentado a tratá-lo com mais carinho.
Corto-lhe as unhas assiduamente, limpo-o sempre que saio do banho, espreito-lhe regularmente as reentrâncias, sempre à procura de erupções ou pruridos suspeitos. Ao primeiro sinal de alarme trato-o como se dele dependesse para seguir em frente ou, ocasionalmente, para subir na vida. Tenho dele uma dependência que, a olhares menos benévolos, pode passar por doentia. Mimo-o, acarinho-o, apaparico-o, e tudo isso faço sem custo, sem lhe pedir que me ajude a andar ou me equilibre em momentos de aflição. O direito, trato-o como a gata borralheira da história, ele que se desemerde.
Nunca percebi porque gosto mais do esquerdo. Nunca me salvou de uma queda, nunca caminhou um quilómetro a mais do que o outro. Em aperto, nunca me permitiu fugir deixando o outro para trás.
Talvez seja por isso que a vida se faça pé ante pé. Um adianta-se, o outro segue-o, um hesita, o outro sustém-no, um tropeça e é o outro que, sem saber porquê, nos impede de cair. Caminham juntos uma vida inteira, condenados à mesma distância e destinados ao mesmo caminho, e nem por isso lhes dispensamos igual estima. Também nos afetos é assim. Raramente sabemos por que escolhemos este e não aquele, por que cuidamos de um e descuramos o outro. Há afetos que começam pé ante pé e, depois, passam a vida inteira a inventar razões para o caminho que escolheram.