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(A) :: "Pole pole"

"Pole pole"

O nosso pole pole é «Ah, mas este solzinho não há noutro sítio do mundo». Ou «Sim, mas o peixe é muito bom».

Nuno Gonçalo Poças
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Como todos aqueles que passam pela estúpida adolescência e descendem de agricultores semi ou totalmente analfabetos, eu também já tive a arrogância de julgar, por ter vivido sempre na cidade, por ter estudado e por ter uma vida que em nada se compara à dos meus avós, que sabia mais que aqueles a quem os que ainda mais sobranceiros que eu tratam por povo. Não há nada, na verdade, mais repugnante na intelectualidade, na política ou no radar mediático, do que a frasezinha que inclui a expressão povo. O povo, tão fofo, que nada sabe e que de tudo precisa, incluindo da suposta lucidez de algum outro estúpido autoproclamado brilhante, para não ser enganado por quem pretende abusar dele ou fazer dele bandeira. O povo, afinal, é estandarte de toda a gente, uma muleta que serve essencialmente para fazer distinguir positivamente aquele que, por alguma razão, se destaca desse mesmo povo, como uma superioridade anunciada totalmente carente de justificação. Antes houvesse, mas não há, de facto, menos estúpidos, menos broncos ou menos intelectualmente brutos naquilo a que se chama povo do que há naquilo a que se chama elite. Haverá nesta também autoproclamada elite lisboeta, nalguns casos mais felizes por jeito ou por hereditariedade, a elegância de saber pedir licença, de não tirar macacos do nariz, de não buzinar, de mastigar de boca fechada ou de não dizer ‘prontos’, mas o que separa a elite deste regime dos velhos lá da minha terra que me pediam para explicar o que ouviam na missa ou na televisão, é mais o estilo que a substância. Subsiste muita arrogância de casta que se julga uns patamares acima da banalidade dos comuns mortais que, na verdade, não passa de outra espécie de banalidade com a aparência da sofisticação.

De vez em quando, por exemplo, damos de caras com a tese do copo meio cheio para falar da situação social, económica ou institucional portuguesa. Não, as coisas não vão assim tão mal como pintam alguns profetas da desgraça, normalmente acusados de quererem lucrar de alguma forma com o anúncio dessa mesma desgraça. Não, não estamos assim tão mal, há cinquenta anos estávamos muito piores. E têm razão, que estávamos. Mas também nunca ninguém se lembrou, em 1974, de vir acudir aos recentíssimos democratas ou às esquerdas, ou mesmo às direitas, revolucionárias, dizendo-lhes que em 1933 estávamos muito piores, como se esse pudesse ser um argumento. Nunca foi. E não sei por que diabo o há-de ser agora. A tese do copo meio cheio é a validação da estagnação, é a salvaguarda da mediania, a versão moderna da alegria da pobreza que está nesta grande riqueza que é dar e ficar contente.

Há dez anos, numa aldeia de pescadores, em Zânzibar, cheia de miúdos paupérrimos a pedir doces, por entre cabanas e tijolos, visitei uma escola que tinha em si todos os graus de ensino e um director que dava aulas de todas as disciplinas. No grupo de gente onde me inseria, todos naturalmente ocidentais, uns com mais ar de miss Mundo do que outros, íamos fazendo perguntas sobre quantas pessoas ali moravam, quantas crianças ali estudavam, quantas conseguiam continuar os estudos, quem financiava tudo aquilo, entre computadores, livros, salários e obras. Estavam a construir, de forma muito lenta, segundo o que todos percebemos, um novo edifício para novas salas de aula. E um homem sueco, sem um pingo de sobranceria, apenas cheio de confiança e curiosidade, perguntou ao director qual era o prazo para a conclusão da obra. O director não compreendeu a pergunta. Deadline, replicou o sueco, julgando que não tinha sido claro na pergunta. E o director, sentado, levantou as mãos ao céu, estendeu-as pela secretária e explicou-lhe com algum orgulho que ali não havia prazos, que ali existe uma expressão para esse tipo de coisas que é pole pole e que significa “pouco a pouco”, assim como quem diz que é para se ir fazendo e logo se vê, se Deus quiser. O sueco estranhou, ergueu as sobrancelhas, torceu o nariz e, quando todos nós víamos que ele achava a resposta abominável, foi educado o suficiente para dizer qualquer coisa como «bom, está bem, se é assim que vocês funcionam…». O pole pole é assim como aquilo que todo o português, mais ou menos erudito, mais ou menos pobre, mais ou menos inteligente, costuma dizer sempre que alguém lhe fala das misérias do País. O nosso pole pole é «Ah, mas este solzinho não há noutro sítio do mundo». Ou «Sim, mas o peixe é muito bom». João Vieira Pereira, director do Expresso, escreveu na semana passada um texto procurando mostrar «um lado B de estudos encomendados que ao longo dos anos sistematicamente ridicularizam o povo português, nos tratam como mentecaptos, incapazes de nos governarmos e profundamente incompetentes. Todos nós preferíamos um país mais rico, menos desigual, mais moderno, com melhor Estado, mas nem isso consegue apagar o que temos conseguido na última década.» É o nosso pole pole.