Tal como se esperava, ou não fosse este um filme de Edgar Pêra, Guerrilha no Asfalto não é uma adaptação cinematográfica do livro com o mesmo nome (Guerrilha no Asfalto – As FP25 e o Tempo Português, de Manuel Ricardo Sousa) mas sim um traçado de linhas paralelas e perpendiculares, históricas e autobiográficas, entre os relatos do livro (escrito por um ex-operacional sob pseudónimo) e as memórias do cineasta (n.1960) daqueles inícios dos anos 1980 portugueses.
Daqui nasceu um filme que é, simultaneamente, memória, balanço de uma trajectória (nenhum outro trabalho do autor é tão auto-biográfico) e manifesto sobre a liberdade de fazer cinema. Os arquivos, os projectos inacabados, a inteligência artificial (Pêra é um pioneiro na matéria e um dos primeiros a usá-la com propósitos artísticos) e a própria relação entre o cineasta e o seu produtor de há muitos anos, Rodrigo Areias, entram na equação da “guerrilha” que Locarno vai mostrar em estreia mundial esta segunda-feira, tal como aqui já se havia anunciado.

À conversa em Locarno com Edgar Pêra e Rodrigo Areias, o cineasta admite que uma das maiores dificuldades de Guerrilha no Asfalto foi aceitar expor uma dimensão da sua própria trajectória que normalmente prefere manter fora de campo: “O que o Rodrigo me levou a fazer foi tornar a minha guerrilha visível”. Isto porque Guerrilha no Asfalto — que tem 77 minutos em rima com o ano de 1977 em que nasceu o punk — é um confronto entre quatro décadas de arquivos e “uma rodagem de ficção muito recente, com actores, personagens e cenas de acção”, conta Areias, incluindo imagens de amigos e familiares entretanto desaparecidos.
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Neste processo, fala Pêra de si próprio, inclusivamente com a sua própria voz, a assumir em off o papel de narrador (facto raro na sua obra, senão inédito), por exemplo, quando às tantas confessa que, para ele e para o irmão, o produtor cultural Fernando Pêra (1963-2024), o grande pânico antes do 25 de Abril era a possibilidade de ser chamado para a Guerra Colonial. “Este filme foi um processo doloroso em certos momentos, um confronto com coisas pessoais, arquivos de familiares e amigos que já morreram”, acrescenta Edgar. “Mas se o filme fala do passado e da minha história, também aposta no futuro, naquilo que ainda poderá ser feito.”
A conversa em Locarno, de resto, começou exactamente por aqui. Pêra tem um espólio de material de arquivo tão vasto e em tantos formatos, que o ANIM (Arquivo Nacional das Imagens em Movimento), o centro de conservação e restauro da Cinemateca Portuguesa, chegou a ter uma secção exclusivamente dedicada ao trabalho do autor; “uma jaula só para mim”, ironiza. Ao longo do seu percurso, Pêra deixou vários projectos por concluir, sobretudo por questões de produção, mas não só: também houve casos em que se avariou a câmara e a película ficou estragada.

Ora, nesta revisita ao passado que é Guerrilha no Asfalto, o cineasta também procura imaginar o que teriam dado tantos filmes desejados mas que não se fizeram e que deixaram vestígios naquele espólio. “Através da IA, alguns projectos que ficaram inacabados ou que nunca chegaram a concretizar-se podem ganhar uma nova possibilidade de existência.” As aparições neste filme do próprio Terence McKenna, escritor e etno-botânico norte-americano (1946-2000) que Pêra filmou em Manual de Evasão (1994), tornam-se reveladoras desta ideia. “O mundo mudou imenso entre 1994 e hoje, tanto assim é que as premonições das frases do McKenna daquela altura parecem hoje um comentário sobre a realidade em que vivemos.”
https://www.youtube.com/watch?v=GWYbMfsaGO4
Outra ideia central nas declarações de Pêra sobre Guerrilha no Asfalto é a recusa do realismo. “É o realismo que nos mata, não apenas no cinema mas também na vida, porque pode transformar-se numa forma de medo e de conformismo.” Na obra do cineasta, esta recusa está directamente relacionada com a defesa do prazer de filmar. Pêra reconhece que sempre houve quem se incomodasse com a ideia de que fazer cinema pudesse ser uma experiência de prazer, e não um sacrifício em nome de uma determinada “concepção religiosa” do cinema. Em Guerrilha no Asfalto, esse prazer de filmar é especialmente evidente nas cenas de acção que — ao som de Ghost Rider, dos Suicide — recriam com escárnio episódios violentos do Portugal revolucionário dos anos 80, ou em momentos mais confessionais em que o filme mostra as suas próprias costuras, o seu processo de fabrico “baseado em factos surreais” (com o papel da personagem de Albano Jerónimo em estúdio).

A IA, por seu lado, tem uma forte palavra a dizer nesta forma experimental e artesanal de fazer cinema. Pêra recusa a ideia de demonizar uma tecnologia que pode ser utilizada como instrumento de criação e de combate dentro do próprio sistema, isto é: “a IA não é o inimigo, mas sim uma nova ferramenta.” O seu filme anterior, também estreado em Locarno há dois anos, Cartas Telepáticas, fora inteiramente concebido por IA e teve engenheiros da Google na plateia.
Guerrilha no Asfalto vai muito mais longe. No espírito de guerrilha que, afinal, caracteriza desde sempre o cinema único de Pêra, numa lógica de produção em que arquivos reais convivem com arquivos recriados, incluindo imagens produzidas actualmente para parecerem provenientes dos anos 80 e 90 (a película, o Super 16, o Super 8, as imagens digitais e a IA são misturados e manipulados), Rodrigo Areias fala do novo filme como “uma decisão entre nós dois, realizador e produtor, em que, no fundo, nos perguntámos: cedemos ou não cedemos? Continuamos ou não a fazer cinema com esta liberdade, desta maneira, fora das regras dominantes? A decisão foi não ceder.”
À semelhança de toda a obra de Pêra, Guerrilha no Asfalto é um gesto artístico de invenção e risco, a transformar limitações de produção em matéria criativa. A sua chamada do passado — incluindo o dos filmes que ficaram por fazer — nunca chega ao ecrã por nostalgia mas enquanto procura de instrumentos para imaginar o futuro. Por outro lado, o factor humano aqui envolvido é inegável, insubstituível, parte da nossa história.
O autor escreve segundo a antiga ortografia