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(A) :: A Mitologia da "Palestina Histórica"

A Mitologia da "Palestina Histórica"

A pergunta não é se ”és a favor ou contra a Palestina". A pergunta é se usas a mesma régua para medir a mesma coisa duas vezes.

João Antas de Barros
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Uma das pedras basilares do discurso dominante assenta na premissa de que existiu, um dia, um Estado soberano, coeso e independente chamado Palestina, extinto pela criação de Israel. Confrontada com o registo histórico, esta narrativa não resiste ao escrutínio.

O próprio nome deriva da designação romana Syria Palaestina, um rótulo administrativo, não uma pátria, herdado depois pelos impérios Bizantino e Otomano como simples categoria geográfica. E a genealogia recua ainda mais fundo, os romanos herdaram o termo de “Filisteia”, a terra dos filisteus, cujo nome remonta ao egípcio antigo Peleset, um dos chamados “Povos do Mar” que a arqueologia associa ao mundo Egeu, não à população semita do Levante. Não eram, portanto, um povo nativo da região, chegaram do mar, terão tido origem em Creta ou noutras zonas do Egeu, e fixaram-se numa faixa costeira que passou a herdar o seu nome muito antes de qualquer noção de nacionalidade árabe ali existir. A própria palavra “Palestina”, rastreada até à origem, não nomeia um povo autóctone nem uma pátria, nomeia uma invasão marítima de há mais de três mil anos. Nunca existiu, sob esse nome, uma entidade estatal com governo próprio, moeda própria, diplomacia própria. Havia território, havia povos, havia impérios que passavam por cima deles. Não havia soberania palestiniana a extinguir, porque nunca houve soberania palestiniana a constituir.

Com o colapso do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações confiou ao Reino Unido o Mandato da Palestina, instituído, no seu próprio texto fundador, para restabelecer o lar nacional judaico. Não para inaugurar um Estado árabe que ali nunca existira. Quando, em 1947, a ONU propôs a Resolução 181 e o Plano de Partilha, a liderança judaica aceitou a divisão. O bloco árabe recusou-a em bloco e escolheu a guerra. É desse ponto de partida, não de uma alegada expulsão de um Estado que nunca existiu, que nascem as décadas de instabilidade que se seguiram.

É contra este pano de fundo que ganha relevo o fenómeno exposto por debates, como o protagonizado por estes “influencers”, para uma parte considerável do activismo ideológico, o rótulo “pró-Palestina” funciona menos como defesa construtiva das populações locais do que como veículo para negar, pura e simplesmente, o direito de Israel a existir.

Repare-se onde o discurso militante nunca pousa os olhos, nas condições institucionais, na liberdade política, nos direitos civis de quem vive sob regimes totalitários ou teocráticos na região, o Hamas em Gaza incluído. O eixo do protesto não é a emancipação de um povo. É a deslegitimação de um Estado. O rigor moral gasto a escrutinar cada acção defensiva de Israel desaparece, por inteiro, perante os grupos armados, não-estatais, e as ditaduras vizinhas, tratados com um silêncio que só pode chamar-se condescendência.

Desmontar os chavões dogmáticos que dominam o espaço público não é um exercício de estilo, é uma exigência de rigor, dados empíricos, enquadramento jurídico sério, história factual em vez de slogan. Só assim se evita reduzir um conflito de complexidade regional imensa a uma caricatura maniqueísta.

A pergunta não é se ”és a favor ou contra a Palestina”. A pergunta é se usas a mesma régua para medir a mesma coisa duas vezes. Quem responde caso a caso, sem nunca aplicar o mesmo padrão duas vezes seguidas, não está a defender um povo, está a alimentar um inimigo.