(c) 2023 am|dev

(A) :: Plantar os plantadores

Plantar os plantadores

Portugal não tem falta de craques. Tem falta de terreno onde eles queiram ficar.

Pedro Santa Clara; José da Veiga
text

Em agosto de 1578, um rei de vinte e quatro anos entrou em Marrocos à frente da nobreza portuguesa e conseguiu que a maior parte dela morresse numa tarde. O corpo dele nunca foi encontrado.

Dois anos depois, Portugal tinha perdido a independência. E dessa catástrofe nasceu o mito mais persistente da nossa história: o de que D. Sebastião não morrera, que era o Encoberto, e que voltaria numa manhã de nevoeiro para restaurar a grandeza do país.

Quatro séculos e meio depois, continuamos à espera.

Chamamos-lhe Sebastianismo, e há muito que deixou de ser sobre um rei. É a convicção de que a salvação chega de fora: do nevoeiro, de Bruxelas, de um investidor estrangeiro, de um governo diferente, de alguém que ainda não apareceu. É a crença de que aquilo por que esperamos é uma salvação.

A pergunta que quase ninguém faz

Comecemos por afastar a explicação mais confortável, que é também a mais falsa: a de que Portugal não tem gente à altura.

Tem. Produz, com uma regularidade que devia ser motivo de orgulho e é motivo de perplexidade, pessoas de primeira linha em quase tudo. E depois exporta-as. Não uma vez, não numa geração má, mas sistematicamente, século após século, com uma constância que já não se pode atribuir ao azar.

Portanto a pergunta certa não é onde estão os nossos craques. Sabemos onde estão. A pergunta é outra, e é bastante mais desconfortável: o que é que falta aqui, que existe noutros sítios, e que faz com que uma pessoa capaz de construir algo escolha construí-lo a três mil quilómetros de casa?

Não é dinheiro. Não é, garantidamente, falta de diagnósticos: ninguém no mundo escreveu mais sobre a sua própria decadência do que nós.

A resposta não é uma pessoa, não é um plano nacional, é uma resposta que já a tivemos nas mãos, há quinhentos anos, numa ponta do Algarve.

Quantos anos leva uma ida à Lua

Sempre que um país leva o futuro a sério, alguém se levanta e exige um moonshot: um grande salto que muda tudo. É Sebastianismo de bata branca. E entende mal até o caso que venera.

Em setembro de 1962, Kennedy discursou na Universidade Rice e escolheu ir à Lua. Lembramo-nos daquele discurso como o princípio de uma coisa. Não foi. Foi o meio, a parte visível de um processo que tinha começado muito antes.

O princípio foi um memorando, escrito dezassete anos antes, por um engenheiro chamado Vannevar Bush. Chamava-se Science, the Endless Frontier, e a partir dele os Estados Unidos construíram em silêncio, sem saber o que daria, uma máquina de produzir conhecimento: as agências de financiamento, os contratos de investigação com as universidades, a ligação permanente entre laboratório e indústria.

Dezasseis anos com essa máquina a trabalhar no escuro. Depois, o discurso. Depois, mais oito anos, e então sim, finalmente uma bota no pó lunar.

Vinte e quatro anos entre a plantação e a colheita. A história arrumou tudo debaixo dos oito últimos, que é o que a história costuma fazer.

Há um provérbio alentejano que já sabia isto muito antes de existir NASA: quem planta um sobreiro, planta para os netos. Não é uma metáfora, é uma instrução agrícola, e vale a pena ser preciso sobre ela. Um sobreiro só se descortiça por volta dos vinte e cinco anos, e essa primeira cortiça, a desbóia, é grosseira e quase não vale nada. Só ao terceiro descortiçamento, perto dos quarenta anos, é que a árvore dá cortiça que preste. Quem a planta estará velho, ou morto, antes de ela pagar.

Planta-a na mesma.

Ponham agora os dois prazos lado a lado. A máquina de investigação americana deu a primeira cortiça útil aos vinte e quatro anos. O sobreiro dá aos vinte e cinco.

Um moonshot não é uma decisão. É uma colheita. O discurso é o som que uma colheita faz. Exigir um moonshot a um país que nunca construiu a máquina é exigir cortiça a um montado que ninguém plantou, e quando nada aparece conclui-se que faltam craques, e volta-se para a janela, à espera do Encoberto.

Por isso a pergunta útil nunca é qual é a nossa Lua. Mas antes: quais são as nossas árvores, quem as planta, e quem guarda o montado nas longas décadas em que ele não rende nada?

O que o montado dá

O que o montado dá primeiro não é cortiça, é mel. As abelhas desempenham um papel vital no ecossistema do montado em Portugal, garantindo a polinização de várias plantas e a sustentabilidade da biodiversidade local, enquanto a apicultura aproveita a flora rica de sobreiros e azinheiras para produzir mel de qualidade única

Na nossa analogia, o mel não são foguetões nem patentes. É uma coisa mais antiga e mais difícil de nomear, a que os economistas chamam capital social, ou confiança generalizada.

O mel é a doçura entre estranhos. A promessa cumprida. O favor retribuído. A apresentação feita a quem não tem como pagá-la. O negócio fechado num aperto de mão, porque ambos sabem que o outro vai aparecer.

As sociedades com muito mel conseguem fazer uma coisa notável: construir organizações grandes com pessoas que não são parentes umas das outras. As que têm pouco não conseguem, e tudo se fica pela orla da família, para lá da qual o mundo se presume hostil e toda a instituição se presume viciada.

E a palavra não é capricho nosso. Nenhum ministério instala mel. Não se importa nem se compra. Faz-se ao longo de gerações, no uso, por todos e por ninguém em particular, e gasta-se numa só. O que se pode fazer é tratar das condições, que é precisamente o que se faz a um montado: preparar o solo, proteger o que é novo, e tirar menos do que a paisagem precisa para se refazer.

Aqui está a ligação que decide tudo, e vale a pena lê-la devagar, porque é a razão pela qual os grandes projetos nacionais quase sempre falham aqui.

Um moonshot é o projeto mais intensivo em mel que uma sociedade pode tentar.

Vejam o que ele exige, na prática. Milhares de estranhos, em instituições diferentes, sem contrato nenhum a uni-los, têm de investir as suas carreiras num retorno que só chega depois de o governo mudar e de alguns deles já terem morrido. Uma física entrega o resultado a um engenheiro que nunca vai conhecer. Um fornecedor produz para uma norma que ninguém vai inspecionar durante uma década. Uma ministra financia aquilo que dará crédito ao sucessor.

Onde há mel, promessas suficientes aguentam-se e a coisa capitaliza. Onde não há, cada um otimiza racionalmente o retorno que consegue ver, e o dinheiro escorre para tudo o que possa ser terminado e fotografado dentro de um ciclo político.

É exatamente por isso que os países de baixa confiança acabam com monumentos em vez de capacidades. Os edifícios acabam-se; é a vantagem dos edifícios. A capacidade nunca se acumula, porque a capacidade é feita de promessas cumpridas entre pessoas que nunca vão estar na mesma sala.

Não nos faltam moonshots por nos faltarem craques. Falta-nos o mel para os alimentar. E nenhum discurso, em toda a história, fez mel.

Antes de perguntar como se faz o mel, sejamos honestos sobre como se perde. A história cómoda é o acidente: as pessoas ficaram ocupadas, os ecrãs tornaram-se viciantes, as coletividades morreram de causas naturais. Parte disso é verdade. Não é o principal.

Um século de corporativismo licenciou, cartelizou e sufocou todas as formas de organização entre a família e o Estado. E fê-lo de propósito, porque um regime que governa por favor trata cada associação autónoma como uma rival. Também isto ninguém deve confundir com destino.

O que é a questão toda, e a única boa notícia desta secção: a erosão do mel de um país tem números de alvará e termos de utilização. Não é destino. É arquitetura. E o que foi desenhado pode ser desenhado ao contrário.

O que os bichos artificiais ensinam

A tentação, dito tudo isto, é concluir que o problema é cultural e, portanto, irremediável. Que uns povos têm mel e outros não, e que nós tivemos pouca sorte na distribuição. É a versão erudita do encolher de ombros, e é falsa. Refutá-la é o coração deste ensaio.

A confiança constrói-se, não se herda. E constrói-se por demonstração, não por exortação.

A Dinamarca, depois da derrota catastrófica de 1864, virou-se para dentro e construiu escolas populares para filhos de camponeses. Quando, décadas mais tarde, o cereal americano barato obrigou a agricultura dinamarquesa a virar-se para a manteiga e o bacon, produtos que exigem cooperação à escala da aldeia, os antigos alunos dessas escolas eram exatamente as pessoas capazes de gerir uma cooperativa leiteira de um-agricultor-um-voto. Numa geração havia mil delas. A célebre confiança dinamarquesa está a jusante dessa infraestrutura, não a montante: é filha dela, não mãe. Duas gerações, e não os nove séculos que os pessimistas costumam exigir.

E quanto a nós? A baixa confiança portuguesa é fabricada, não congénita, e a prova é doméstica.

Este é um país com Misericórdias desde 1498, associações de socorros mútuos desde o século XIX, e bombeiros voluntários em quase todas as terras. Entrem em quase qualquer aldeia do interior e encontram uma banda filarmónica, algumas mais velhas do que a República, que é dona da sua sede, compra os seus instrumentos, ensina música de graça a qualquer criança que apareça, é gerida por uma direção eleita de gente com empregos, e transmitiu uma competência ao longo de seis gerações sem que nenhum ministério desse por isso.

O filho do médico e a filha do mecânico sentam-se no mesmo naipe de clarinetes. É exatamente a mistura entre classes que a investigação sobre mobilidade social identifica hoje como o bem mais escasso que existe, e nós temos centenas de instituições a produzi-la de graça, há um século, sem que ninguém lhes chame política pública.

Não nos falta o gene associativo. Não estamos a importar uma cultura estrangeira: estamos a recuperar uma nativa que foi deliberadamente abafada.

Porque é que temos tanta confiança em dizer que a variável é o terreno, e não o talento? Porque cada um de nós o viu de um posto diferente, e viu a mesma coisa.

Um de nós fez um doutoramento em Arquitetura, na UCLA, e, ao lado disso, correu com um professor de biologia uma investigação sobre criaturas artificiais. Eram animats: agentes autónomos com pequenos cérebros de rede neuronal, que tinham de comer, não morrer de fome e fugir a predadores, ao longo de quinhentas gerações de seleção. A pergunta era o que faz uma espécie perder a capacidade de reconhecer o perigo.

A resposta intuitiva seria: perde-a quando o perigo desaparece. A resposta verdadeira é outra, e é mais interessante. O que mais explicava a degradação da capacidade não era a ausência do predador. Era o custo que o ambiente cobrava pelo comportamento: o preço de fugir, a margem de erro tolerada, o que se pagava por estar atento.

Uma capacidade não se perde por falta de ameaça. Perde-se quando o ambiente a cobra demasiado caro.

Fixem esta frase. Ela vai explicar, uma coisa sobre Portugal que os números da emigração descrevem e não explicam.

O outro de nós aprendeu a mesma lei a construir escolas. Construiu um campus de craveira mundial à beira-mar, e alunos que nunca teriam considerado estudar cá, começaram a chegar. Porque o terreno mudou. Carcavelos não se limitou a atrair alunos alemães às centenas: provou, uma turma de cada vez, uma tese sobre o que o terreno faz às pessoas que o pisam.

O talento não parte por deslealdade, e não fica porque uma campanha lho pediu com jeitinho. Vai para onde o terreno paga para se construir.

E o terreno é sempre desenhado por alguém. A única questão é por quem, para quê, e se há alguém honesto ao ponto de admitir que foi uma escolha.

A meritocracia

Há uma peça do terreno que gasta o mel de um país mais depressa do que qualquer outra, e quase ninguém a conta como terreno: a forma como uma sociedade escolhe quem faz o quê.

Quando Portugal se diagnostica como um país de conhecimentos, a cunha que arranja o lugar ao sobrinho, o boy que é escolhido para o cargo, o problema é sempre o mesmo: falta de meritocracia. Parem de premiar os bem-relacionados, premeiem os melhores.

Só que para quase qualquer cargo sério não há três candidatos suficientemente bons. Há milhares. E quando há milhares, a escolha entre eles deixa de ser uma medição de mérito e passa a ser outra coisa: uma ideia, na cabeça de quem decide, de quem é que pertence àquela cadeira, montada a partir de todos os que já lá estiveram.

O cargo é objetivo. O papel é um espelho.

A demonstração mais cara disto na história industrial tem nome. Morris Chang passou um quarto de século na Texas Instruments, brilhante e condecorado, e foi preterido para o cargo máximo por uma empresa que não o conseguia ver naquela cadeira. Aos cinquenta e tantos anos partiu para Taiwan e fundou a TSMC, sem a qual não se fabrica hoje um único chip avançado no planeta. A Texas Instruments selecionou pelo espelho, e o mérito foi-se construir a máquina noutro sítio.

Um ambiente de seleção é terreno. E a má seleção é a forma mais eficaz de perder mel que se conhece: de cada vez que o papel vence o cargo, o preterido aprende que o jogo não é o que diz ser, conta-o a outros, e eles acreditam nele porque têm as suas próprias provas. Cada episódio retira um pouco de mel do fundo comum.

Faça-se isto durante gerações e obtém-se exatamente a condição que todos lamentamos: um país onde presumir a cunha é racional, onde ninguém se dá ao trabalho de bater à porta da frente, e onde os mais capazes concluem que o caminho mais curto para fazer qualquer coisa é ir fazê-la a outro lado.

É a conclusão dos animats aplicada a pessoas. A capacidade não emigra por falta de oportunidade. Emigra quando o ambiente a cobra demasiado caro.

O remédio não é mais uma grelha de avaliação. É humildade sobre o que a seleção pode saber, e desenho onde não pode: alargar as portas, porque são milhares os que passam a fasquia; testar o trabalho e não a semelhança; preferir provas a entrevistas, porque uma entrevista mede o papel e uma prova mede o cargo.

Sagres, não Sebastião

Prometemos uma resposta.

O que se constrói, então? Não outro monumento. E, sobretudo, não outra instituição brilhante isolada.

O instinto de um país pequeno é apontar para a sua única exceção de craveira mundial e dizer: mais disto. Mas competir num campeonato global contra instituições com cinquenta vezes o nosso capital é uma estratégia disponível para uma instituição portuguesa por geração. Não é um modelo. É um milagre, e os milagres não se planeiam.

O movimento transferível é outro, e a boa notícia é que fomos nós que o inventámos.

Seja qual for a conclusão a que os historiadores cheguem sobre a escola de Sagres, a forma da coisa não está em disputa. Um país pequeno e pobre, na orla da Europa, juntou tudo o que era preciso: pilotos, cartógrafos, fabricantes de instrumentos, astrónomos, os diários reunidos de todas as viagens anteriores, um desenho de casco apurado ao longo de décadas. E depois mandou gente para um oceano que ninguém tinha cartografado.

Ninguém, em Sagres, sabia que a Índia estava lá. Construíram a capacidade e deixaram as descobertas emergir dela.

Não se pode planear a descoberta. Pode-se construir aquilo que a torna provável, e depois sair da frente.

É a resposta à pergunta que deixámos no início. O que falta a Portugal não é um salvador nem um plano: é a capacidade instalada, e a paciência de a instalar sem saber ainda o que vai sair dela.

E acontece que isto é a mesma disciplina que os melhores construtores já impõem ao Estado. O parque de investigação de Stanford, o instituto de chips de Taiwan, o KAIST coreano criado por uma lei que o isentava do ministério da educação, a indústria de capital de risco israelita acesa por um fundo desenhado em torno da sua própria extinção. A fórmula que sai de lá merece ser gravada.

O setor público contribui com exatamente três coisas, e depois retira-se: espaço, uma carta constitutiva, e ocasionalmente a procura de um primeiro cliente sério. Cascais deu uma praia. Um estatuto coreano deu autonomia. O Pentágono comprou, generosamente, o que Palo Alto produziu, sem planear nem operar coisa nenhuma. Todo o sucesso deste género é um Estado confinado a esse mandato. Todo o fracasso é um Estado que o excedeu, escolheu os vencedores, e ficou a geri-los.

E a lição sobe um nível, para nós próprios: o nosso trabalho é preparar o terreno e depois resistir à tentação de dizer o que nele deve crescer. As instituições são necessárias, a cultura é decisiva, e estrutura sem solo não pega. Foi por isso que o próprio arquiteto de Stanford tentou duas vezes transplantar o seu modelo, para Nova Jérsia e para Dallas, e nenhuma das duas vingou.

Plantar os plantadores

Falta a parte incómoda, e é a razão pela qual escrevemos isto os dois.

Um de nós passou quinze anos a fazer exatamente o que este texto defende, e à vista de todos: um campus de craveira mundial erguido sobre uma praia com mais de cinquenta milhões de euros de dinheiro privado, em plena bancarrota nacional; uma escola de programação gratuita e sem professores; centros onde milhares de adolescentes constroem robôs e filmes depois das aulas; uma operação que hoje exporta educação para Espanha.

Quinze anos. A demonstração mais visível do país. E o número de portugueses a construir instituições àquela escala continua a ser, honestamente contado, muito pequeno.

Foi ele o primeiro a formular a objeção, com toda a força, antes de qualquer de nós ter resposta para ela.

E a objeção mantém-se. Isto não é a demonstração a falhar. É a prova de que a demonstração, sozinha, não reproduz construtores.

Porquê? Porque já sabemos porquê. Um exemplo luminoso não muda o terreno de ninguém. Quem o observa continua a enfrentar um chão que não é fértil para se plantar, e um ambiente que cobra demasiado caro por tentar.

Um país que quer mais construtores não pode limitar-se a mostrar-lhes um. Tem de plantar os plantadores: plantar o montado, a paisagem inteira que se renova a si mesma, e não mais um sobreiro plantado pelas mesmas mãos cansadas.

A boa notícia é que as peças já existem, e existem porque já foram construídas, uma a uma, cinco vezes, de raiz, e desmontadas a seguir. Um veículo que permite a dinheiro privado financiar um fim público através de uma estrutura em que os doadores confiam. Um operador que desenha e gere instituições por contrato. Capital paciente reunido junto de empresas, fundações e famílias que dão porque veem o resultado. Um aprendizado, as pequenas equipas que trabalham como se a coisa já existisse, algumas das quais saem capazes de a fazer sozinhas. E uma forma de propriedade construída para sobreviver aos fundadores, em vez de ser vendida.

Cinco peças, hoje montadas projeto a projeto e reconstruídas do zero para o seguinte. O trabalho que falta é montá-las de uma vez num motor de uso geral: algo que continue a girar depois de os seus autores deixarem de empurrar, que produza construtores em vez de edifícios, e ao qual um desconhecido em Braga ou em Faro se possa ligar em 2045 sem saber o nome de nenhum de nós.

Ao concreto

Um ensaio que terminasse aqui seria mais um manifesto, e o país já tem que chegue.

As cinco peças descritas acima são o que é preciso montar. Não se montam por decreto, nem de uma vez. Começa-se pequeno, com três instrumentos, e o primeiro custa pouco mais do que a vontade de o fazer.

Primeiro, a métrica. Tudo o que fica acima se sustenta ou cai sobre uma única pergunta mensurável, e preferimos ser julgados por ela do que pela nossa prosa: o próximo fica?

Não o PIB. Não os unicórnios. Não os rankings. As pessoas concretas, identificáveis, que poderiam construir algo aqui e que hoje partem: ficam, voltam, constroem cá? Um país que não sabe dizer se a sua resposta está a melhorar não tem uma estratégia. Tem um estado de espírito. Isto conta-se, e nós tencionamos contá-lo.

Segundo, por onde se começa.

O Encontro. Cinquenta pessoas, duas vezes por ano, dois dias. Quem constrói coisas em Portugal e quem as constrói lá fora, na mesma sala. Uma regra à entrada: ninguém entra de mãos vazias, traz-se um projeto, um problema por resolver, ou uma porta que se pode abrir a outro. Num país onde toda a gente está a um telefonema de toda a gente, a sala é ela própria a infraestrutura, e é a fábrica de mel mais barata que existe. As regras que fazem estas coisas durar são conhecidas, e devem ser escritas antes da primeira edição e não remendadas depois: quem entra e quem não entra, regras feitas por quem vive sob elas, consequências para quem só vem buscar, e uma forma barata de resolver disputas. Custa uma sala e dois dias de trabalho de alguém. Se falhar, falha por se tornar mais uma conferência com as caras do costume, e é por isso que a regra da entrada não é decorativa.

A Rota. A emigração, a ferida que lamentamos, tornou internacional a rede de um país pequeno: chega hoje a Londres, Zurique, Boston, São Paulo, Luanda. Mas dois milhões de portugueses no estrangeiro são água, e a água não é um ativo. Uma rota é. Comece-se com vinte pessoas por ano e um formato simples: três meses em Portugal, dentro de uma universidade, de uma empresa ou de um laboratório, a fazer trabalho relacionado com aquilo que já fazem lá fora. Muitas vezes pago pelo próprio empregador, sob a forma de um sabático ou de um destacamento, o que resolve o problema do dinheiro antes de ele existir. Escolhem-se pelo que construíram, não por quem conhecem, e chegam com uma obrigação: dar aulas a uma turma, abrir uma porta, deixar alguma coisa atrás. A carga que importa não são as pessoas. São as normas que elas transportam. Se falhar, falha por virar turismo de nostalgia, e a obrigação à chegada é o que o impede.

O Consórcio. Capital que regressa com as normas agarradas e, mais importante do que o capital, procura. O que matou uma geração de empresas subsidiadas foi que o seu cliente era um avaliador: o dinheiro premiava a candidatura, não o produto. Há portugueses da diáspora sentados dentro de empresas estrangeiras com verdadeira autoridade de compra, e dez deles a comprometerem-se a comprar trabalho real, a padrões reais, a construtores portugueses mudam o terreno mais depressa do que qualquer linha de subsídio, porque mudam aquilo que o chão paga. Dizemo-lo do lado de quem aloca e do lado de quem recebe: um de nós ajudou a montar um fundo de capital de risco e dirigiu a sua incubadora, e a lição desse posto é que o dinheiro é a coisa menos interessante que um investidor traz. As condições, os padrões e as apresentações é que fazem o trabalho. Se falhar, falha por se tornar um fundo vulgar, e as normas nunca viajarem.

Terceiro, o que não estamos a propor. Não um ministério. Não um plano nacional. Não um documento de estratégia com logótipo. E não pedir autorização, de espécie nenhuma: tudo o que fica acima pode ser começado por pessoas privadas com uma lista de contatos, o que é, aliás, a única razão para acreditar que começará.

E não um setor escolhido. Não sabemos se a latada será a biotecnologia, a economia do mar ou a inteligência artificial em língua portuguesa. Sagres também não sabia. A circunstância fornece a latada; o nosso trabalho é o terreno.

Parem de olhar para o nevoeiro

O génio por quem esperamos não está no nevoeiro. Está numa sala de aula em Braga, num laboratório no Porto, numa garagem em Luanda, numa cozinha em Newark, neste preciso momento. E se fica, se constrói cá ou para outros, não é um enigma de carácter nacional. É uma propriedade do terreno.

Os preteridos vão fundar as suas empresas em algum sítio. A única pergunta a que um território responde, alguma vez, é se esse sítio é aqui.

O trabalho é o de quem trata de um montado, e é sem glamour por construção. Ler as plantas, porque a erosão foi desenhada e pode ser desenhada ao contrário. Reparar os ambientes de seleção, para que o candidato de aspeto errado deixe de ser a exportação mais fiável do país. E guardar o montado ao longo dos anos em que nada rende, o que quer dizer honrar os plantadores enquanto estão vivos, e não apenas os que chegam para o corte da fita.

Portugal conhece a instrução há séculos, em sete palavras, e passou esses mesmos séculos à janela à espera de que um rei morto saísse do nevoeiro. Quatro séculos e meio depois daquela tarde em Marrocos, talvez seja tempo de fechar a janela.

Nós já escolhemos, e começámos a construir a máquina que torna a escolha mais fácil a quem vier a seguir. Quem planta um sobreiro, planta para os netos.

Parem de olhar para o nevoeiro. Plantem. E depois plantem os plantadores.