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Carta à Carolina

A religião cristã não é adversária da mulher: ela permitiu a emancipação da mulher.

Patrícia Fernandes
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Cara Carolina,

foi com interesse que ouvi o episódio do podcast As histórias da Bíblia: Perguntas dos ouvintes dedicado à tua pergunta. E apreciei de tal forma a tua iniciativa, pouco comum entre os mais jovens, de colocar perguntas e tentar compreender melhor o mundo que não resisto a esta intromissão para tentar contribuir igualmente para a tua reflexão.

De acordo com o jornalista João Francisco Gomes, que apresenta o teu email, gostarias de compreender melhor a fé cristã porque tens muitos objetivos e sonhos e o papel da mulher na Bíblia te parece “desmerecido”. Como estudiosa do pensamento feminista, interpretei as tuas inquietações como reflexo de um certo “feminismo cultural” que invadiu o nosso espaço público nos últimos anos e que tem origem num tipo específico de feminismo, que se alimenta da fantasia de que existiram três inimigos históricos das mulheres: os homens, a religião e as tradições. O problema é que nenhuma destas hipóteses-inimigas sobrevive a um escrutínio rigoroso.

Comecemos pelos homens e o uso da linguagem. A verdade é que as palavras que usamos para falar sobre o mundo não são neutras: carregam sentidos específicos e podem condicionar a forma como pensamos. É por isso que devemos ser cuidadosos na escolha do vocabulário, em especial quando elas se tornam ideológicas, ou seja, quando têm como objetivo fazer-nos pensar de determinada forma política. O melhor exemplo é a palavra “género”, que entrou no nosso léxico com o objetivo de nos fazer pensar de uma determinada maneira: que tudo é uma questão de género (de papéis sociais) pelo que não haverá uma realidade biológica subjacente ao modo como nos comportamos e organizamos socialmente. Mas uma pessoa intelectualmente rigorosa sabe que isso não é verdade: “género” e “sexo” correspondem a coisas diferentes, pelo que devemos saber quando usar uma palavra e quando usar a outra. Estar consciente dessa diferença significa que, embora possamos reconhecer que homens e mulheres são juridicamente iguais, homens e mulheres nunca serão materialmente (biologicamente) iguais.

É este tipo de raciocínio que devemos aplicar igualmente à palavra “patriarcado” (que o padre João Basto utiliza com demasiada facilidade, mas que talvez nem tenhas utilizado no teu email). A palavra “patriarcado” tem sofrido uma alteração no seu sentido e é usada habitualmente como “sistema político organizado pelos homens para exercer poder e opressão sobre as mulheres”. Isto significa que o seu uso nos leva a crer – ao estilo de uma teoria da conspiração – que os homens se reuniram com o objetivo explícito de criar uma sociedade que prejudicasse as mulheres. Há até feministas que falam, a esse propósito, em “contrato sexual” em vez de “contrato social” (que abordarás melhor na disciplina de Filosofia no 11.º ano) para destacar um suposto compromisso masculino para oprimir as mulheres. É claro que esta hipótese não tem qualquer demonstração histórica, nem é intelectualmente rigorosa: as organizações políticas que nos antecederam resultaram da adaptação difícil dos seres humanos a uma natureza que é sempre adversa. E em sociedades que não dispunham da tecnologia que hoje temos, e que estavam por isso mais sujeitas às dificuldades da natureza, a força física tornava-se o fator mais relevante. Sendo fisicamente mais fortes, cabia aos homens a responsabilidade e o dever de zelar pela proteção e segurança da comunidade, o que se traduzia em poder político. Assim, foi por necessidade e não por exercício de poder que as sociedades políticas se organizaram em torno do poder masculino: a culpa é da natureza, mas quanto a isso não há nada a fazer.

Felizmente, nem todas as feministas são conspirativas: podes ler, por exemplo, a norte-americana Camille Paglia, que reconhece o quanto as mulheres devem aos homens (o livro dela é Mulheres livres, homens livres):

“Os homens têm todo o direito de reclamar para si o mérito das enormes conquistas que alcançaram ao conceberem e construírem toda a estrutura da civilização, desde os grandes projetos de irrigação da antiga Mesopotâmia até à rede eletrónica global da atualidade. Postos em causa e silenciados pelo feminismo, os homens continuam a fazer o trabalho mais sujo, mais perigoso e menos valorizado da sociedade moderna.”

O problema é que o discurso público (em particular nas redes sociais) está hoje cheio de chavões feministas que fazem com que as meninas acreditem que houve e continua a haver uma conspiração dos homens contra as mulheres. A verdade é que nunca como agora foi tão fácil para as mulheres concretizarem “os seus objetivos e os seus sonhos”. Devemos, por isso, recusar os discursos que têm apenas como objetivo criar divisões entre mulheres e homens. Somos todos – homens e mulheres – seres frágeis e decaídos a tentar viver o melhor que conseguimos (o que não é nada fácil). Mas não somos inimigos e, por isso, o uso da palavra “patriarcado” não tem qualquer utilidade.

Passemos agora para a religião e para um dos problemas mais graves dos nossos tempos: a falta de conhecimento histórico. Há quem tenha designado este problema como “presentismo”: o facto de estarmos de tal forma mergulhados no momento presente que deixamos de ter noções mínimas de História, do modo como as sociedades evoluíram e dos acontecimentos que contribuíram para essa evolução. É por essa razão que é importante, caso ainda não o tenhas feito, ler o livro Domínio: como o Cristianismo transformou o pensamento ocidental do historiador Tom Holland: ele permite-nos compreender o carácter verdadeiramente revolucionário da mensagem de Cristo na proteção dos mais fracos – ou seja, e entre outros, das mulheres. Ao contrário do que é dito pela cruzada antirreligiosa da maioria das feministas atuais, foi o Cristianismo a fundar no Ocidente a convicção de igualdade entre homens e mulheres e a exigir que o homem se comprometesse com ela da mesma forma que se compromete com Cristo e a Igreja – e foi a consolidação histórica destas ideias que permitiu afirmar os valores que hoje prezamos.

Basta pensar que o próprio movimento feminista encontra as suas raízes no Cristianismo: se o pensamento feminista moderno terá começado com o livro Uma Vindicação dos Direitos da Mulher (que fala muito sobre a importância da religião) de Mary Wollstonecraft, o movimento político feminista propriamente dito começa com os Quakers – uma comunidade religiosa nos Estados Unidos que defendeu a abolição da escravatura e a emancipação das mulheres. De facto, foram as mulheres quakers (em especial Lucretia Coffin Mott e Susan B. Anthony) que organizaram a convenção de Seneca Falls de 1848 (um momento histórico na fundação do feminismo), usando os princípios cristãos para defender a igualdade política para as mulheres. A religião cristã não é adversária da mulher: ela permitiu a emancipação da mulher.

É certo que poderíamos perguntar: mas porquê só no século XIX? Por que razão a emancipação das mulheres demorou tanto tempo? Mas a pergunta não faz sentido: a emancipação política das mulheres não demorou muito tempo; simplesmente, ela não seria possível sem um sentido de emancipação política geral e este só foi garantido com os princípios liberais que amadureceram no século XVIII e deram origem às revoluções liberais posteriores. Ou seja, só no final do século XVIII é que a Europa e os Estados Unidos passaram a ter condições materiais e intelectuais para que a ideia de emancipação política fosse possível: foi primeiro garantida aos homens, depois alargada aos negros na América e finalmente às mulheres – num processo de ampliação de direitos e liberdades que tem pouco mais de duzentos anos e encontra as suas raízes nos valores cristãos que subjazem ao Liberalismo filosófico.

Por fim, consideremos as tradições. O recente processo de laicização social tem-nos feito esquecer de como o Cristianismo foi fundamental para criarmos as sociedades que temos hoje, mas também tem tentado eliminar instituições e tradições que desempenharam um papel fundamental no modo como homens e mulheres se relacionam. Devemos, no entanto, desconfiar da pressa com que certas feministas querem abolir instituições como o casamento ou a família, que nos serviram durante centenas de anos. As consequências de o fazermos podem revelar-se catastróficas, em particular para as mulheres, como chama a atenção a feminista Louise Perry num livro que, acredito, será traduzido muito em breve entre nós: The case against the sexual revolution.

Ao contrário de querer abolir todas as convenções sociais só porque não as compreendemos, devemos fazer o esforço de compreender e atualizar as antigas convenções. Pensemos no exemplo que referes de como as mulheres deveriam cobrir a cabeça quando rezavam (regra que a minha avó e a minha mãe ainda seguiam quando iam à missa): podemos não saber exatamente por que razão naquele tempo se defendia isso, mas podemos intuir que o objetivo seria demonstrar respeito pelas instituições ou pelos locais que frequentamos.

É o que acontece quando assistimos a um julgamento: tanto os magistrados como os advogados cobrem-se com vestes próprias para sinalizar a relevância social daquele momento: é uma questão de respeito e solenidade. E é também por essa razão que os alunos (e, em especial, as alunas) não devem ir vestidos para a escola ou para a universidade sem cuidado: devem manifestar respeito pelas instituições e pelas outras pessoas. E, reconheçamos, trata-se de algo que deve ser recordado aos mais novos quando vão à missa: o decoro é um valor importante e, se agora não se convenciona o uso de véu, isso não significa que possamos ir à missa vestidos de qualquer maneira.

Espero que estas leituras te permitam compreender melhor a fé cristã e, em particular, reconhecer que, na verdade, as “passagens difíceis de compreender aos dias de hoje” não causam inquietação se tivermos um espírito curioso, lermos muito e não nos deixarmos enganar pelos chavões que inundam o espaço público.

Votos de umas boas férias,

Patrícia