Se alguém ainda duvidasse, os últimos dias provaram-no: Giorgia Meloni é neste momento a mais importante figura política da Europa. A poucos dias de o seu executivo se tornar o mais duradouro governo italiano desde a II Guerra Mundial, tem sido ela a dar o tom à reacção europeia à crise de Ceuta. Foi a primeira a reagir, foi a inspiradora da carta dos 22 chefes de Governo em que se criticava o governo espanhol e foi a única que cumpriu a ameaça de suspender temporariamente Schengen. E quando Pedro Sánchez procurou intimidá-la com um ultimato, respondeu com a mesma dureza com que tinha respondido a Donald Trump quando este sugeriu que lhe tinha implorado que tirassem uma fotografia juntos. Mais: fá-lo pois se a Itália reintroduziu controlos de fronteira foi porque tinha uma boa razão para o fazer (os acontecimentos de Ceuta e o que daí podia saltar para o continente europeu), ao passo que Espanha está apenas a retaliar porque Pedro Sánchez necessita de uma narrativa política.
Seja lá como for o que é espantoso não é isto tudo estar a acontecer – o que espanta é tanta gente continuar a dizer-se surpreendida quando estamos a caminho de quatro anos de presença da líder dos Fratelli d’Italia no Palácio Chigi, a sede do governo italiano. O que espanta também é vermos como tantos políticos, comentadores e jornalistas continuam a insistir num retrato caricatural e preconceituoso de alguém que é porventura muito mais transparente e sincera nas suas declarações do que a maioria das elites que nos governam (ou nos pastoreiam, para nossa desgraça), mas que eles preferem retratar como uma espécie de diabo de saias.
Uma das características mais evidentes de Giorgia Meloni é que é incapaz de fazer aquilo que na gíria se chama “cara de poker” pois nem tenta esconder o que sente, mesmo quando expressar qualquer sentimento pode ser inconveniente, sobretudo se estiver a enfrentar jornalistas hostis. Essa transparência – eu diria mesmo essa frontalidade – é o que encontramos num livro que escreveu já há alguns anos (em 2021, antes portanto de se tornar primeira-ministra) mas que só agora chegou a Portugal: Eu, Giorgia – As Minhas Raízes, As Minhas Ideias. Quem quiser perceber quem realmente ela é e o porquê do seu sucesso deve lê-lo.
Há quase dois anos referi nesta coluna esse livro, que li na edição francesa. E referi-o porque não se trata apenas de mais um livro escrito por um político, de mais uma autobiografia produzida a pensar numa próxima campanha eleitoral. Não tem nada a ver com tantas bugigangas sem espessura que às vezes enchem as prateleiras das livrarias antes de umas eleições ao mesmo tempo que em nada se assemelha àquela espécie de relatórios e contas que tantos governantes gostam de escrever sob o pretexto de “prestar contas”. O que distingue “Eu, Giorgia”, e isso nota-se desde as primeiras páginas, é que é um livro sincero, às vezes quase pueril na sua frontalidade, e é por isso mesmo que percebemos que nele há poucos disfarces e muita genuinidade.
Meloni nasceu num bairro modesto de Roma, a mãe esteve quase a recorrer a um aborto para que ela não nascesse, o pai tornou-se muito rapidamente uma figura ausente e nunca a vida na sua casa foi fácil. Trabalhou em bares, fez babysitting, não pôde frequentar o curso que gostaria de ter tirado porque não tinha dinheiro suficiente. E interessou-se muito cedo pela política, aos 15 anos.
Quando adere, no início da década de 1990, à organização juvenil do MSI-Movimento Social Italiano, fê-lo mais por impulso do que por ideologia: “Aos quinze anos ainda não se têm os instrumentos para distinguir com exatidão as diversas teses que animam a política, a pertença a uma área em vez de outra é um facto puramente instintivo”.
Mesmo assim, porquê a juventude de um partido relativamente marginal e herdeiro do neofascismo, mesmo considerando que esse movimento já estava em transformação profunda? Em parte porque o MSI “era totalmente estranho à roubalheira e à corrupção que foram descobertas naqueles anos” (e que levaram à destruição dos grandes partidos tradicionais), em parte porque sentia que “tinha de fazer alguma coisa” por viver “a raiva que se mistura com a emoção” quando o juiz Giovanni Falcone foi assassinado.
Pode haver quem ache esta exposição piegas ou falsa, mas senti-a como genuína por uma razão simples: eu próprio, aos 15 anos, vivi um processo semelhante só que no outro extremo do leque político e também depois de um assassinato político. Da mesma forma senti como verdadeiras as descrições das assembleias e das guerras estudantis e porque é que Meloni considera essa experiência fundamental na sua formação política. Esta passagem é muito reveladora: “A educação para a coragem foi um aspecto importante do nosso crescimento, como ativistas e como indivíduos. Uma pessoa que foi educada na coragem será mais difícil de corromper quando se encontrar num cargo público ou numa posição de poder, porque já se deparou com a escolha entre o conforto pessoal, por um lado, e os seus princípios por outro lado.”
E que ela é alguém de coragem não haja dúvida, senão veja-se a forma como se dirige a um adversário político que lhe tinha chamado “p…ta”: “Presidente de Luca, sou a p…ta Meloni, como está?”, diz-lhe enquanto o cumprimenta. Quantos políticos seriam capazes de fazer o mesmo à frente das câmaras de televisão?
Mas se aquilo que conta sobre os seus anos de formação, a sua família, os seus amigos, o seu namorado nessa época (o livro é anterior à separação abrupta após se tornar conhecido o comportamento inapropriado do companheiro), os monumentos que mais admira, as músicas de que gosta, a forma como se tornou ministra num governo de Berlusconi (a mais nova ministra da República Italiana) ou as suas dificuldades com os vestidos e os penteados, o que é estruturante no livro é a sua organização em torno da frase dita num comício da campanha de 2019 e que se tornou viral: “Querem chamar-nos ‘progenitor 1’, ‘progenitor 2’, ‘género LGBT’, ‘cidadão X’, como números de código. Mas nós não somos números de código… e defenderemos a nossa identidade. Eu sou Giorgia. Sou mulher, sou mãe, sou italiana, sou cristã. Ninguém vai tirar isso de mim.”
Nesta frase está, de certa forma, toda a sua identidade e o que inspira as suas propostas políticas – propostas conservadoras, propostas assumidamente de direita (apesar de por vezes também as situar no centro-direita), propostas ao mesmo tempo soberanistas e europeístas. Ou seja, bem antes de a Europa bem-pensante se espantar com a sua moderação e o seu pragmatismo, bem antes de Bruxelas se surpreender com o bom entendimento que construiu com Ursula von der Leyen, já ela deixava claro que aquilo que defendia para o futuro era “uma Europa como a que os nossos irmãos mais velhos imaginaram forte e autónoma (…), capaz de unir os seus povos não com parâmetros abstratos ou com uma moeda, mas com a força da sua antiga civilização.” Sendo que “a soberania democrática reside sobretudo nos Estados nacionais governados por governos e por parlamentos eleitos diretamente pelos cidadãos, se deixarmos a iniciativa legislativa a burocratas europeus que ninguém elegeu acabamos por prejudicar a democracia.”
Podemos concordar ou discordar, podemos gostar mais ou menos do filósofo que cita mais vezes – Roger Scruton –, mas estamos a enganar-nos a nós mesmos se a metermos no mesmo saco de outros políticos da direita radical que parecem apenas guiados pelos temas mais populares e que – como já sucedeu em alguns países – quando chegam a qualquer governo, mesmo que em posições subalternas, se mostram tão incapazes como, em Itália, se mostraram os populistas de esquerda do Movimento 5 Estrelas. O que este livro nos revela é uma política com espessura, não alguém que apenas juntou umas frases para se apresentar aos cidadãos antes de uma eleição. O que ele também nos permite perceber, até por ter sido escrito logo a seguir à crise da Covid e depois de uma primeira passagem por um ministério secundário nos anos de Berlusconi, é que se nessa altura ela ainda não imaginava o sucesso eleitoral que teria passados poucos meses, já se preparava para ele.
E se digo que este “Eu, Giorgia” sempre me pareceu genuíno é porque são raras as autobiografias de políticos de que podemos dizer o mesmo. De repente só me lembrei de uma outra: a que Barack Obama escreveu aos 33 anos, Dreams from my Father, A Story of Race and Inheritance, um livro muito escrito à sombra da memória do pai – já o seu segundo livro, publicado anos depois já a pensar na eleição presidencial, A Audácia da Esperança, é uma pepineira insossa.
Regressando a Meloni e ao que no seu livro podemos encontrar de chaves para antever qual possa ser o desenlace para a actual crise, talvez ajude esta passagem onde ela explica porque é que a esquerda gosta mais de falar em “país” e a direita prefere “nação”: “O país é um simples lugar físico, no qual se vive em conjunto, indistinto, material, enquanto a nação é um lugar também mental, ao qual se pertence por compartilhar cultura, história, tradições. E, ainda mais, a pátria é um lugar que envolve o coração, aquela vontade de compartilhar as raízes e participar no destino de uma comunidade que é a própria essência do princípio de pertença”.
O choque com Pedro Sánchez não me parece pois só uma coisa de cálculo político por haver eleições em Itália para o ano – o que está em causa é mais profundo, mais inegociável e, no limite, convoca também o que entendemos por Europa e como queremos viver esta união. Por tudo isso regresso onde comecei: não subestimem Giorgia Meloni nem julguem que, num braço de ferro, ela será a primeira a ceder.
PS. Em Espanha e com Pedro Sánchez já vale tudo. Para mostrar que continua a trabalhar mesmo em férias, o Palácio da Moncloa divulgou uma fotografia de uma videoconferência de Sánchez com os seus ministros em que o presidente do Governo aparece… sem pernas. Porquê? Aparentemente porque poderia estar de calções e alpercatas e isso dava um ar pouco sério. E ainda há quem diga que a manipulação de fotos é um exclusivo das redes sociais, em Espanha começa no topo do Governo.
