9 de agosto de 2026, o dia que perdurará na história do futebol português. Seja lá o que isso signifique, este domingo o Estádio da Luz fechou-se numa noite quase sem precedentes a fazer lembrar os tempos de pandemia. Por conta de um comportamento que a legislação portuguesa e as entidades que tutelam o futebol português consideram incorreto — embora não se coíbam de utilizar a chamada “pirotecnia do bem” —, a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) castigou o Benfica com um jogo à porta fechada e uma multa de 150 mil euros devido ao acumular de processos jurídicos por conta das multas relacionadas com o uso de pirotecnia e o arremesso de objetos para o relvado. Para se encontrar uma decisão semelhante é preciso recuar a 2024, quando o FC Porto foi forçado a jogar em Aveiro frente ao Moreirense, nos quartos de final da Taça da Liga, devido à interdição do Dragão. A diferença é que, na altura, havia público nas bancadas.
https://observador.pt/2026/08/01/a-luz-vai-mesmo-voltar-a-ficar-as-escuras-por-uma-noite-benfica-confirma-jogo-a-porta-fechada-com-ac-viseu/
“Uma das grandes forças — para não dizer a maior — do Benfica é a sua massa adepta. Sem isso, a força será diferente. Retiraram-nos algo que é muito para nós. Não é agradável, de todo. Soube mais ou menos a história, não sei bem o que aconteceu, mas se achamos que é a retirar 60 mil ou 65 mil pessoas do estádio que vamos resolver problemas, estamos completamente enganados. Temos muitos bons exemplos pela Europa de contrariar coisas que não são boas e não é a interditar o estádio que se vai resolver o que seja. Só faz sentido jogar futebol se houver adeptos. Vamos fazer tudo para ganhar o jogo. Mesmo o Académico de Viseu preferiria poder contar com adeptos e voltar à Primeira Liga com um ambiente de futebol a sério, de uma forma bonita. Retiraram isso ao Benfica, ao Académico, ao espetáculo… É tirar um pouco a razão de todos estarmos aqui. Dever-se-iam arranjar soluções para combater sem ser desta forma”, partilhou Marco Silva na antecâmara do jogo.
Também Bruno Pinheiro, treinador dos viseenses, falou publicamente sobre o sucedido. “É o que é. Quando saem as informações, já estamos em modo de trabalho e acaba por não alterar rigorosamente nada. Não provoca qualquer tipo de sentimento. Obviamente toda a gente sabe que o futebol é bom com o público. Também seria bom para os nossos adeptos terem a possibilidade de ver o Académico na primeira jornada no Estádio da Luz. Também não o vão poder fazer, obviamente. Não estariam em maioria, mas também seria interessante ter os nossos adeptos. Contaremos com o apoio deles à distância e no próximo jogo, no Fontelo. Quanto a eventuais vantagens? De facto, a multidão galvaniza os jogadores. Esperemos que a ausência de público possa equilibrar um bocadinho mais as contas entre as equipas”, explicou.
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Antes, durante a semana, as águias tinham encontrado uma forma de mitigar a ausência de público das bancadas e de diminuir o impacto dessa decisão nas suas contas que, segundo o Correio da Manhã, poderá superar os 1,5 milhões de euros: abrir a chamada Pepsi Fan Zone a todos os adeptos. A concentração aconteceu no Complexo Desportivo dos encarnados, com a fan zone habitual a deslocar-se na direção da estátua de Eusébio da Silva Ferreira e a espalhar-se pelos P4 e P5, onde foram instalados dois ecrãs gigantes para ver o jogo. Esse era o ponto alto de uma tarde de festa que começou às 12 horas, com a abertura dos espaços de restauração. Neste capítulo também houve novidades, com o Benfica a permitir a entrada das rulotes que normalmente estão localizadas no Alto dos Moinhos em dias de jogo. Pelas 16 horas deu-se início ao momento de animação com vários DJs e milhares de adeptos presentes nas imediações do Estádio da Luz.
A mobilização aconteceu durante toda a semana, com o Benfica a lançar inúmeros apelos para que os sócios se “fizessem ouvir dentro do estádio”. Um dos reptos foi lançado por Tomás Araújo, um dos capitães da equipa de Silva. “Benfiquistas, infelizmente no domingo não vamos poder estar juntos dentro da casa. Mesmo assim tenho um convite para vos fazer: venham ao estádio apoiar-nos e vejam o jogo na fan zone. Transmitam-nos a vossa energia. Mesmo separados vamos estar juntos e mostrar a força do Benfica”, apelou o internacional português. Foi pelas 18h49 que o repto do central ganhou vida: ao contrário do que é habitual, em que a tendência tem sido a de fintar os adeptos, seja na rotunda Cosme Damião ou na Avenida Lusíada, o autocarro do Benfica entrou pela porta principal da Luz e parou junto à estátua de Eusébio.
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Nessa altura o ambiente já estava em polvorosa, pintado com o regresso das bandeiras ao anfiteatro encarnado, muita pirotecnia e inúmeros cânticos. Os adeptos aproveitaram inclusivamente para galgar as grades de segurança e aproximarem-se ainda mais do autocarro, mostrando uma tarja com a inscrição “vençam por nós” para o seu interior. Tomás Araújo foi o primeiro a sair do autocarro e a saudar os adeptos, liderando a comitiva que se concentrou de frente para os adeptos na Praça Centenarium, de costas para a Luz, para fazer em simultâneo a habitual vénia.
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Importa realçar que, durante a semana, a eventual realização da fan zone esteve em suspenso, por questões de segurança, mas a PSP deixou a decisão para o Benfica durante a tarde de sexta-feira. “Quanto ao evento que será promovido pelo Benfica, já fora do perímetro do recinto desportivo, o mesmo é da inteira responsabilidade e organizado pelo promotor. À PSP caberá a manutenção da ordem pública e a segurança do espetáculo desportivo e dos agentes desportivos”. Ao Público, fonte da força policial explicou que apenas intervirá caso haja algum desacato ou desordem pública, com a segurança dos adeptos a ser assegurada pela empresa privada contratada pelos encarnados. A atuação da PSP remete-se, apenas, ao estádio e ao anel pedonal que permite o acesso às bancadas.
“Importa igualmente esclarecer que a sanção não foi aplicada em consequência direta da utilização de artigos de pirotecnia por adeptos. O fundamento da condenação residiu na prática de infrações decorrentes do incumprimento dos deveres legais que sobre o clube recaem em matéria de segurança. Em concreto, foram sancionadas falhas imputáveis ao Benfica, designadamente a não adoção de medidas de segurança exigíveis e o incumprimento de solicitações concretas formuladas pelas forças de segurança para suprir vulnerabilidades identificadas, factos que vieram a ser considerados provados no âmbito do processo de contraordenação. A sanção acessória de realização de espetáculos desportivos à porta fechada não constitui uma medida inédita nem dirigida a um único clube. Entre 2022/23 e 2024/25 foram aplicadas 366 interdições a adeptos do Benfica, 309 a adeptos do Sporting, 186 a adeptos do FC Porto e 64 a adeptos do Sp. Braga”, sublinhou a APCVD.
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