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Mitos e ciência. Como um eclipse acabou com uma guerra, salvou Colombo e ajudou Einstein na grande teoria

Durante milénios, os eclipses inspiraram mitos sobre dragões, demónios e lobos gigantes. Depois ajudaram a acabar guerras, salvaram Colombo e confirmaram a teoria de Einstein. Há medos que perduram.

Filomena Martins
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Durante a maior parte da História da Humanidade, um eclipse não foi um espetáculo. Foi um problema. O Sol, que parecia obedecer a uma ordem imutável, começava a desaparecer em pleno dia; a luz enfraquecia, a temperatura mudava, os animais reagiam e a paisagem adquiria uma aparência que não se confundia com uma tempestade nem com a chegada normal da noite. Para quem não conhecia os movimentos da Lua e não dispunha de calendários capazes de antecipar o fenómeno, havia poucas razões para acreditar que aquela escuridão terminaria alguns minutos mais tarde.

Não admira, por isso, que os eclipses tenham sido transformados em histórias sobre criaturas que atacavam os astros, deuses ofendidos, reis condenados, guerras iminentes e mundos prestes a acabar. Essas explicações não nasceram de uma incapacidade para observar o céu. Muitas das civilizações que lhes deram origem já registavam os movimentos dos astros com extraordinário cuidado e acabariam por desenvolver métodos cada vez mais rigorosos para reconhecer ciclos e antecipar fenómenos. Mas os mitos preenchiam o espaço que a observação ainda não conseguia explicar.

Com o tempo, a relação da humanidade com os eclipses mudou. Aquilo que começara por ser interpretado como uma rutura da ordem natural tornou-se previsível. Os mesmos fenómenos que alimentaram presságios religiosos e políticos serviriam depois para organizar calendários, resolver problemas históricos, salvar uma expedição encurralada e testar uma das teorias científicas mais revolucionárias do século XX. A história dos eclipses é também a história da forma como aprendemos a olhar para o céu: primeiro com medo, depois com cálculo e, finalmente, com a possibilidade de prever ao segundo aquilo que durante milénios parecera anunciar o caos.

Quando um dragão devorava o Sol na China

Durante séculos, em várias regiões da China antiga, um eclipse não era visto como um simples fenómeno do céu. Era um sinal de que algo estava profundamente errado. À medida que o Sol começava a desaparecer, acreditava-se que um enorme dragão celestial o estava a devorar. O medo espalhava-se rapidamente e a reação era quase sempre a mesma: batiam-se tambores, gongos, panelas e qualquer objeto que produzisse ruído suficiente para assustar a criatura e obrigá-la a libertar o Sol. Quando, poucos minutos depois, a luz regressava, era a confirmação de que o ritual tinha resultado.

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A imagem do dragão faz parte da tradição chinesa sobre os eclipses há muitos séculos e está refletida até na própria linguagem. O caracter chinês antigo usado para eclipse, shi (食), significa literalmente “comer” ou “devorar”, uma associação que vários especialistas consideram refletir a forma como estes fenómenos eram entendidos nas primeiras civilizações chinesas. David W. Pankenier, um dos principais historiadores da astronomia chinesa, explica que os eclipses eram vistos como acontecimentos de enorme significado político e religioso, capazes de refletir a harmonia — ou a desarmonia — entre o Céu e o imperador, considerado o “Filho do Céu”.

Mas seria um erro pensar que a China antiga respondia aos eclipses apenas com mitos. Pelo contrário. Foi também uma das primeiras civilizações a observar sistematicamente o céu. As inscrições gravadas em ossos oraculares da dinastia Shang, datadas de há mais de três mil anos, já registavam fenómenos astronómicos, incluindo eclipses, enquanto sucessivas gerações de astrónomos da corte foram acumulando observações que hoje constituem um dos mais importantes arquivos astronómicos da Antiguidade. Esses registos são tão rigorosos que continuam a ser utilizados por cientistas modernos para estudar pequenas variações na velocidade de rotação da Terra ao longo dos últimos milénios.

É neste contexto que surge uma das histórias mais famosas da astronomia antiga: a dos astrónomos Hsi e Ho. Segundo uma tradição preservada no Shujing (Livro dos Documentos), serviam o rei Zhong Kang, tradicionalmente associado à dinastia Xia, e terão falhado a previsão de um eclipse solar. Sem aviso prévio, a corte não conseguiu preparar os rituais considerados indispensáveis para enfrentar o fenómeno e, de acordo com essa narrativa, ambos acabaram castigados. Quanto ao castigo, algumas versões posteriores garantem que foram executados.

A história atravessou mais de quatro mil anos e continua a ser repetida em inúmeros livros e documentários. No entanto, os historiadores aconselham prudência. A própria existência histórica de Hsi e Ho, a cronologia da dinastia Xia e a identificação do eclipse referido continuam a ser discutidas. Não existe consenso sobre se o episódio corresponde a um acontecimento real, a uma tradição construída séculos mais tarde ou a uma combinação de ambos. O que está solidamente estabelecido é outra coisa: na China antiga, prever os movimentos do céu era uma questão de Estado. Um eclipse inesperado podia ser interpretado como um aviso dos céus ao imperador e colocar em causa a legitimidade do seu poder.

O dragão explicava por que desaparecia o Sol. Os astrónomos procuravam descobrir quando voltaria a acontecer. Entre estas duas formas de olhar para o mesmo fenómeno começava já a desenhar-se uma mudança decisiva: a passagem do mito para a observação sistemática, um caminho que outras civilizações seguiriam de formas muito diferentes.

O demónio hindu que nunca conseguia engolir o Sol

Se, na China, era um dragão que tentava devorar o Sol, na Índia o responsável tinha nome, rosto e uma história muito mais complexa. Chamava-se Rahu e, segundo a tradição hindu, era um demónio que conquistou a imortalidade graças a um golpe de astúcia.

A história é contada em textos fundamentais do hinduísmo, como o Mahabharata, o Bhagavata Purana e o Vishnu Purana. Tudo começa quando deuses e demónios unem esforços para agitar o oceano cósmico na procura do amrita, o néctar da imortalidade. Quando finalmente o conseguem obter, o deus Vishnu decide distribuí-lo apenas pelos deuses. Rahu, porém, disfarça-se, senta-se entre eles e consegue beber algumas gotas antes de ser reconhecido.

Segundo a tradição, Vishnu reage de imediato e corta-lhe a cabeça com o disco divino Sudarshana. Mas já era tarde. O néctar tinha tornado Rahu imortal. A cabeça continua viva, separada do corpo, enquanto a parte restante passa a ser conhecida como Ketu.

Desde então, Rahu procura vingar-se do Sol e da Lua, que o denunciaram. Sempre que os alcança, engole-os. Mas como já não tem corpo nem estômago, não consegue retê-los durante muito tempo. Poucos minutos depois, o Sol ou a Lua reaparecem, explicando, segundo esta tradição, por que razão os eclipses acabam sempre.

Ao contrário de muitos outros mitos antigos, este continua profundamente enraizado na cultura do sul da Ásia. Ainda hoje, em várias regiões da Índia, Nepal e Sri Lanka, algumas pessoas evitam comer ou cozinhar durante um eclipse, suspendem atividades religiosas, permanecem em casa ou tomam banho ritual depois de o fenómeno terminar. As práticas variam entre comunidades e não são seguidas pela maioria dos hindus, mas mostram como uma narrativa com mais de dois mil anos continua presente na vida quotidiana.

Há um detalhe particularmente curioso. Embora a astronomia moderna explique os eclipses através da geometria das órbitas da Terra e da Lua, a astronomia tradicional indiana preservou os nomes Rahu e Ketu para designar os dois nós da órbita lunar, os pontos onde a órbita da Lua cruza o plano da órbita terrestre. É precisamente nesses pontos que os eclipses podem acontecer. O mito e a astronomia acabaram, assim, por partilhar a mesma linguagem: aquilo que durante séculos foi explicado por um demónio transformou-se, mais tarde, num conceito astronómico que continua a usar o seu nome.

Povos nórdicos — os lobos que perseguiam o Sol e a Lua

Na mitologia nórdica, o Sol e a Lua não atravessavam tranquilamente o céu. Eram perseguidos por lobos. Na Edda Poética, uma das principais fontes escritas da mitologia escandinava, Sköll corre atrás do Sol, enquanto Hati surge associado à perseguição da Lua. A imagem atravessou séculos: dois astros em fuga, dois animais atrás deles e a ameaça de que, um dia, a perseguição terminasse.

Esse dia chegaria com o Ragnarök, a sucessão de acontecimentos que conduziria à morte de vários deuses e à destruição do mundo conhecido. Nas diferentes tradições preservadas nas Eddas, o Sol acaba por ser alcançado e devorado por um lobo. O céu escurece e a ordem do mundo desfaz-se.

É tentador ver nesta história uma explicação direta para os eclipses — e a relação entre os lobos que engolem os astros e o desaparecimento temporário do Sol ou da Lua tem sido feita por vários autores. Mas as fontes medievais que preservaram estes mitos não dizem simplesmente que um eclipse acontecia porque Sköll ou Hati tinham conseguido apanhar o Sol ou a Lua. Essa ligação deve, por isso, ser apresentada como uma interpretação do mito, e não como uma certeza sobre aquilo em que acreditavam todos os povos nórdicos.

Ainda assim, para quem olhasse para o céu sem conhecer a mecânica de um eclipse, a imagem dificilmente poderia ser mais poderosa: durante alguns minutos, o astro que parecia condenado a fugir para sempre desaparecia. O lobo parecia finalmente tê-lo alcançado.

Os Maias sabiam que o Sol ia desaparecer — e ainda assim tinham medo

Não era preciso explicar aos Maias que os eclipses regressavam em ciclos. Muito antes da chegada dos europeus à América, os astrónomos e sacerdotes desta civilização tinham aprendido a seguir o movimento do Sol, da Lua e dos planetas com uma precisão extraordinária. Observavam o céu durante gerações, registavam datas, comparavam intervalos e construíam calendários capazes de reconhecer os períodos em que um eclipse se tornava possível. O desaparecimento do Sol não os apanhava necessariamente de surpresa. Isso não significava, porém, que o encarassem como um fenómeno banal.

Um dos testemunhos mais impressionantes desse conhecimento sobreviveu no Códice de Dresden, um dos raríssimos livros maias anteriores à conquista espanhola que chegaram aos nossos dias. Entre as suas páginas encontra-se uma extensa tabela de eclipses, organizada a partir dos ciclos da Lua. Não funcionava como uma previsão moderna, capaz de indicar com exatidão o local e o minuto em que a sombra passaria, mas permitia identificar sucessivas janelas em que poderiam ocorrer eclipses solares ou lunares e identificar ciclos astronómicos complexos. Estudos recentes mostram que a tabela abrangia centenas de lunações e podia ser corrigida e reutilizada, mantendo a sua utilidade ao longo de séculos.

Era ciência, mas era também religião. Para os Maias, o céu não estava separado da vida humana. Os ciclos do Sol, da chuva, do milho e do calendário faziam parte da mesma ordem. Um acontecimento celeste podia anunciar uma alteração nessa ordem, abrir um período perigoso ou exigir uma resposta ritual. Prever um eclipse não servia apenas para saber quando o céu escureceria: permitia preparar cerimónias, interpretar presságios e tentar proteger a comunidade e os governantes das consequências que se acreditava poderem acompanhar o fenómeno: o calendário, a agricultura e o poder político encontravam-se ligados pela observação do céu.

As imagens presentes nas páginas do códice reforçam essa ideia de ameaça. Junto das tabelas aparecem divindades, sinais de escuridão e representações de destruição ou perigo. A Biblioteca Estatal da Saxónia, que conserva o manuscrito, explica que os eclipses eram temidos como sinais de aflição e adversidade. Não existe, portanto, uma contradição entre prever o fenómeno e receá-lo: saber que o Sol desapareceria não anulava aquilo que esse desaparecimento podia significar.

É precisamente aqui que os maias obrigam a desmontar uma ideia demasiado simples sobre a História: a de que o mito termina quando começa a ciência. Durante grande parte do passado, as duas coisas não viveram em mundos separados. Os mesmos homens que calculavam os ciclos da Lua podiam acreditar que esses ciclos revelavam a vontade dos deuses. A capacidade de prever um eclipse não retirava poder ao fenómeno, podia até aumentá-lo, porque colocava nas mãos de sacerdotes e governantes o conhecimento de quando o céu voltaria a escurecer.

Para os Incas, o Sol não era apenas uma estrela

Mais a sul, no império inca, o eclipse atingia o centro da própria ordem política. O Sol, Inti, não era apenas uma divindade distante. Era o antepassado simbólico da dinastia, a fonte de legitimidade do imperador e uma das figuras fundamentais da religião do Estado. O Sapa Inca governava como filho do Sol. Quando Inti perdia a luz, não era apenas o céu que parecia ameaçado: era também a relação entre os deuses, o governante e o império.

Os relatos coloniais, escritos depois da conquista espanhola e por isso obrigatoriamente lidos com cautela, descrevem os eclipses solares como sinais da cólera ou do descontentamento de Inti. Sacerdotes e adivinhos tentavam descobrir a causa da perturbação. Realizavam-se jejuns, orações e oferendas para apaziguar o deus e restabelecer a ordem. Algumas fontes referem sacrifícios, embora seja difícil separar os rituais efetivamente praticados das interpretações, exageros e preconceitos introduzidos pelos cronistas europeus.

Também por isso convém evitar uma das imagens mais repetidas nos textos modernos sobre os Incas: a de um jaguar que estaria a devorar o Sol. O grande felino surge em diferentes cosmologias americanas e é frequentemente associado à noite, ao mundo subterrâneo e ao poder solar, mas a afirmação de que todos os Incas explicavam os eclipses através de um jaguar é uma simplificação difícil de sustentar. O elemento mais seguro nas fontes é outro: um eclipse era interpretado como uma rutura grave da relação com Inti, um aviso que podia atingir diretamente o governante e exigir uma resposta ritual.

O medo tinha ainda uma dimensão muito concreta. Numa sociedade em que o imperador apresentava uma ligação genealógica e sagrada ao Sol, qualquer enfraquecimento de Inti podia ser lido como ameaça ao próprio Estado. A escuridão inesperada não era apenas um acontecimento astronómico, podia ser uma mensagem sobre guerras, colheitas, epidemias, a vida do imperador ou o futuro do império.

Tal como entre os Maias, a observação rigorosa do céu coexistia com uma leitura religiosa. Os Incas conheciam os solstícios, organizavam cerimónias em torno do percurso solar e construíram espaços em que a luz marcava momentos importantes do calendário. A diferença entre astronomia, religião e política, tão evidente para um observador moderno, praticamente não existia. Quando o Sol desaparecia, desaparecia por instantes o eixo que sustentava o mundo.

Os egípcios e o eclipse que ninguém consegue explicar

Se há uma civilização onde esperaríamos encontrar uma grande história para explicar um eclipse, é o Antigo Egito. O Sol era um deus. Todos os dias, atravessava o céu na sua barca solar, iluminando o mundo. Todas as noites descia ao submundo, onde enfrentava as forças do caos antes de renascer ao amanhecer. A ordem do universo dependia dessa viagem eterna e os faraós governavam precisamente porque eram vistos como os garantes dessa ordem, conhecida pelos egípcios como maat.

Seria natural imaginar que um acontecimento tão extraordinário como um eclipse tivesse dado origem a um dos grandes mitos da religião egípcia. Mas acontece precisamente o contrário. Ao contrário da China, da Índia ou da Escandinávia, os historiadores nunca encontraram um mito egípcio claramente dedicado a explicar um eclipse solar. Não existe um texto equivalente ao dragão que devora o Sol, a Rahu ou aos lobos Sköll e Hati. E isso tornou-se um dos pequenos mistérios da história da astronomia antiga.

O silêncio é tanto mais surpreendente quanto sabemos que os egípcios observavam cuidadosamente o céu. Alinharam pirâmides e templos com acontecimentos astronómicos, ainda hoje irrepetíveis, desenvolveram calendários sofisticados e colocaram o Sol no centro da sua religião. Ainda assim, quando este desaparecia em pleno dia, as fontes sobreviventes dizem muito pouco.

Isso não significa que não existam pistas. Vários egiptólogos admitem que um eclipse possa ter sido entendido como uma manifestação do caos, associada ao eterno combate entre Rá e a grande serpente Apep (ou Apófis), inimiga da luz e da ordem. Todas as noites, segundo a mitologia egípcia, Apep tentava impedir o deus-sol de completar a sua viagem. Se vencesse, o mundo mergulharia nas trevas.

É uma associação tentadora, mas é preciso cautela. Os textos conhecidos descrevem esse combate como um acontecimento noturno, durante a travessia do submundo. Não afirmam explicitamente que um eclipse fosse provocado por Apep. Alguns investigadores consideram que essa ligação é plausível; outros lembram que não existe qualquer texto egípcio que a faça de forma inequívoca. É uma hipótese moderna construída a partir da cosmologia egípcia, não um mito claramente documentado.

Também existem referências antigas a episódios de “escuridão durante o dia“, mas o seu significado continua a ser debatido. Poderão descrever eclipses? Poderão ser apenas imagens literárias para falar de crises políticas ou religiosas? A documentação disponível não permite responder com segurança. Alguns especialistas colocam outra hipótese: talvez os eclipses fossem acontecimentos tão perturbadores para uma civilização assente na ideia de ordem cósmica que simplesmente não merecessem ser registados ou celebrados. É uma possibilidade interessante, mas continua a ser apenas isso — uma hipótese.

Por vezes, o mais fascinante da História não são as respostas. São os silêncios. Enquanto outras civilizações encheram o céu de dragões, demónios e lobos gigantes, o Antigo Egito deixou-nos uma pergunta que ainda hoje permanece sem resposta: como explicavam, afinal, o desaparecimento do Sol?

Gregos, quando os deuses começaram a dar lugar à razão

Durante milhares de anos, um eclipse foi sobretudo uma história. Uns viam um dragão a devorar o Sol. Outros imaginavam um demónio em busca de vingança ou lobos gigantes a perseguir os astros até ao fim do mundo. Mas, algures entre os séculos VII e V a.C., alguns filósofos gregos começaram a fazer uma pergunta diferente. E se o Sol não estivesse a ser atacado por ninguém? E se houvesse uma explicação natural para aquele estranho desaparecimento?

Foi uma mudança discreta, mas revolucionária. Em vez de procurar respostas nos mitos, alguns pensadores passaram a procurá-las na observação da Natureza. Entre eles destaca-se Anaxágoras, que, no século V a.C., propôs uma explicação que hoje nos parece quase evidente: a Lua não tinha luz própria, refletia a luz do Sol e um eclipse solar acontecia quando passava entre a Terra e o Sol, projetando a sua sombra. Um eclipse lunar ocorria pelo motivo inverso: era a Terra que lançava a sua sombra sobre a Lua. Hoje sabemos que estava essencialmente certo.

A ideia parece simples, mas na época era profundamente ousada. Retirava os eclipses do domínio do sobrenatural e colocava-os no domínio da observação e da geometria. Não admira que Anaxágoras tenha sido acusado de impiedade por algumas das suas ideias sobre o céu e acabado por abandonar Atenas. Explicar os fenómenos naturais sem recorrer à intervenção dos deuses podia ser visto como uma ameaça às crenças tradicionais.

Os gregos não foram, porém, os primeiros a descobrir que os eclipses obedeciam a padrões. Séculos antes, os astrónomos da Babilónia já tinham identificado ciclos que permitiam antecipar a repetição destes fenómenos, nomeadamente o ciclo de Saros, com cerca de 18 anos, 11 dias e oito horas. O mérito dos gregos foi outro: procurar compreender por que esses ciclos existiam. Não bastava prever um eclipse. Era preciso explicar o mecanismo que o produzia.

É também neste período que surge uma das histórias mais conhecidas da História da ciência. Segundo Heródoto, o filósofo Tales de Mileto terá previsto um eclipse solar que interrompeu uma batalha entre Medos e Lídios, em 585 a.C. Durante seis anos, Medos e Lídios combateram pelo controlo da Anatólia, a região que corresponde hoje a grande parte da Turquia. A guerra arrastava-se sem vencedores claros e nada fazia prever que terminasse de um momento para o outro.

Até que, no dia 28 de maio de 585 a.C., aconteceu algo que nenhum dos dois exércitos esperava. Quando o céu escureceu em pleno combate, os dois exércitos interpretaram o fenómeno como um sinal divino e decidiram depor as armas, assinando a paz. Segundo o historiador grego, o eclipse foi interpretado por Medos e Lídios como um aviso dos deuses para cessarem as hostilidades e a paz foi selada com um tratado e reforçada por um casamento entre as famílias reais dos dois povos.

A história tornou-se um símbolo do nascimento da astronomia grega. Mas também aqui é preciso distinguir tradição de certeza histórica. A maioria dos historiadores aceita que um eclipse total ocorreu realmente a 28 de maio de 585 a.C. e que coincidiu aproximadamente com o conflito descrito por Heródoto. O que continua a ser discutido é se Tales conseguiu verdadeiramente prever o fenómeno ou se essa capacidade lhe foi atribuída mais tarde para reforçar o prestígio do filósofo. Alguns investigadores defendem que Tales poderá ter conhecido métodos desenvolvidos pelos astrónomos da Babilónia. Não existem escritos do próprio Tales que o confirmem, nem sabemos que método teria utilizado.

Mesmo com essa incerteza, uma coisa parece clara. Na Grécia antiga começou a afirmar-se uma nova forma de olhar para o céu. Os eclipses deixavam de ser apenas sinais enviados pelos deuses para se tornarem fenómenos que podiam ser observados, discutidos e explicados. Era o primeiro passo de um caminho que, muitos séculos depois, permitiria calcular um eclipse ao segundo e usar o Sol para testar a teoria da relatividade de Einstein.

Roma, a quem o céu anunciava desastres

Os romanos não precisavam de imaginar um animal a engolir o Sol para recearem um eclipse. O próprio céu podia enviar mensagens. Eclipses, cometas, relâmpagos e outros acontecimentos invulgares eram registados entre os fenómenos que podiam ser entendidos como sinais de uma perturbação da ordem entre deuses e homens que exigia interpretação e, por vezes, rituais para restabelecer essa relação.

Num mundo em que religião, guerra e poder político estavam profundamente ligados, um fenómeno celeste extraordinário podia rapidamente adquirir significado político. Os relatos romanos estão cheios de prodígios associados a guerras, derrotas, mortes e mudanças de poder. E um Sol que desaparecia em pleno dia ou uma Lua que escurecia durante a noite eram acontecimentos suficientemente extraordinários para provocar medo.

Mas a história romana conserva também um episódio que mostra como a astronomia começava a oferecer uma alternativa ao presságio. Na noite de 21 de junho de 168 a.C., nas vésperas da batalha de Pidna, ocorreu um eclipse total da Lua. O fenómeno é confirmado pelos cálculos astronómicos modernos. As fontes antigas contam que os soldados romanos ficaram alarmados e associam o episódio a Caio Sulpício Galo, oficial romano conhecido pelos seus conhecimentos de astronomia. Os relatos não coincidem inteiramente nos pormenores — incluindo sobre quando o eclipse foi previsto, quem foi avisado e de que forma o fenómeno foi explicado às tropas —, pelo que é mais seguro não transformar a história numa demonstração científica demasiado perfeita.

O essencial, porém, sobrevive às diferentes versões: um fenómeno que podia ser recebido como um sinal dos deuses também podia ser antecipado e explicado como um acontecimento do céu. No dia seguinte, o exército comandado por Lúcio Emílio Paulo derrotou o rei macedónio Perseu em Pidna, numa batalha decisiva para a expansão do domínio romano sobre o mundo grego.

Os eclipses não deixariam de ser associados a presságios. Mas o episódio revela uma mudança que atravessa toda esta história. Durante séculos, perante o desaparecimento de um astro, a primeira pergunta tinha sido o que queriam os deuses. Aos poucos surgia outra: quando voltará a acontecer — e será possível prevê-lo?

Os mitos que sobreviveram até aos nossos dias

Os eclipses já não são vistos como sinais de dragões, demónios ou lobos gigantes. Sabemos exatamente por que acontecem e conseguimos prevê-los com décadas de antecedência. Ainda assim, em muitos países continuam rodeados de crenças, superstições e conselhos transmitidos de geração em geração. Alguns têm milhares de anos, outros nasceram muito mais recentemente. Quase todos têm uma coisa em comum: não existe evidência científica que os confirme.

  • As grávidas não devem sair de casa?

É provavelmente uma das crenças mais difundidas no mundo. Em vários países da América Latina, da Índia e de outras regiões da Ásia, continua a dizer-se que uma grávida não deve olhar para um eclipse nem permanecer ao ar livre enquanto o fenómeno decorre.

Dependendo da tradição, acredita-se que isso pode provocar malformações no bebé, como o lábio leporino, ou deixar marcas na pele da criança. Uma grávida mexicana continua a usar um alfinete de segurança durante um eclipse porque a avó lhe ensinou essa tradição.

A medicina nunca encontrou qualquer relação entre eclipses e malformações congénitas. As únicas recomendações especiais para uma grávida são exatamente as mesmas que para qualquer outra pessoa: nunca olhar diretamente para o Sol sem proteção adequada.

  • Não se deve comer durante um eclipse?

Em muitas comunidades hindus, continua a ser tradição evitar cozinhar ou comer durante um eclipse. Alguns alimentos preparados antes do fenómeno chegam mesmo a ser deitados fora depois de este terminar, por se acreditar que perderam a sua pureza espiritual. Em algumas famílias colocam-se folhas de manjericão (tulsi) nos alimentos, numa tradição que simboliza proteção.

Estas práticas fazem parte da tradição religiosa e cultural hindu e variam muito entre regiões e famílias. Não existe qualquer evidência científica de que um eclipse altere os alimentos ou represente um risco para a saúde.

  • Um eclipse anuncia desgraças?

Durante séculos, os eclipses foram associados à morte de reis, guerras, epidemias e catástrofes naturais. Sempre que um acontecimento importante coincidia com um eclipse, era fácil estabelecer uma ligação entre os dois. O problema é que os eclipses acontecem com relativa frequência: todos os anos ocorrem entre quatro e sete eclipses solares e lunares em diferentes partes do mundo. Quando se analisam os dados de forma sistemática, não existe qualquer relação entre eclipses e acontecimentos políticos ou naturais.

  • Os eclipses anunciam o fim do mundo?

Esta é talvez a crença mais resistente de todas. Ao longo da História, praticamente todas as gerações tiveram quem anunciasse que determinado eclipse marcaria o início do fim dos tempos. Aconteceu na Idade Média, voltou a acontecer nos séculos XIX e XX e continua a repetir-se nas redes sociais sempre que ocorre um eclipse particularmente raro.

Até hoje, nenhum eclipse anunciou o fim do mundo. Anunciam apenas que a Lua passou exatamente entre a Terra e o Sol, algo que acontece há milhares de milhões de anos e continuará a acontecer muito depois de nós.

Os animais comportam-se de forma diferente?

Este é um dos poucos casos em que a ciência dá razão, pelo menos em parte, à sabedoria popular. Durante muito tempo, os relatos de aves que se calavam, morcegos que saíam mais cedo ou animais que regressavam aos abrigos eram vistos como curiosidades sem grande valor científico. Nos últimos anos, porém, investigadores começaram a estudar essas reações de forma sistemática.

Um dos trabalhos mais completos foi realizado durante o eclipse total de 21 de agosto de 2017, no Riverbanks Zoo, na Carolina do Sul (Estados Unidos). Uma equipa de investigadores acompanhou o comportamento de 17 espécies de mamíferos, aves e répteis antes, durante e depois do eclipse. Os resultados surpreenderam até os próprios cientistas: 13 das 17 espécies observadas (cerca de 75%) alteraram o seu comportamento durante o fenómeno. A reação mais frequente foi iniciar rotinas normalmente associadas ao final do dia ou ao início da noite.

Alguns exemplos ficaram particularmente bem documentados. Os flamingos-americanos juntaram-se num grupo muito mais compacto do que o habitual e colocaram as aves mais jovens no centro do bando, enquanto permaneciam em alerta.

As girafas começaram a correr pela instalação, num comportamento que os investigadores classificaram como aparente ansiedade. Os gorilas dirigiram-se para o abrigo onde costumam passar a noite, os elefantes fizeram o mesmo e uma espécie de ave noturna australiana, o tawny frogmouth, tornou-se ativa quando a escuridão chegou.

Os próprios autores deixam, no entanto, um aviso importante. Nem todas estas reações terão sido provocadas apenas pelo eclipse. O jardim zoológico estava cheio de visitantes e o comportamento das pessoas também pode ter influenciado alguns animais. Ainda assim, o padrão geral foi suficientemente consistente para concluir que muitos responderam às alterações súbitas da luz ambiente, como fariam perante um pôr do sol inesperado.

O estudo despertou tanto interesse que, durante o eclipse total de 8 de abril de 2024, vários jardins zoológicos norte-americanos repetiram a experiência para perceber se estas respostas se repetem entre diferentes espécies e em diferentes épocas do ano. Entre os comportamentos observados em eclipses anteriores contam-se tartarugas-das-Galápagos que iniciaram comportamentos reprodutivos, gibões que vocalizaram em horários invulgares e flamingos que voltaram a agrupar-se de forma protetora em torno das crias.

Isso não significa que os animais “prevejam” um eclipse ou sintam qualquer fenómeno sobrenatural. Tudo indica que respondem, sobretudo, a uma combinação invulgar de estímulos ambientais — a diminuição rápida da luz, uma ligeira descida da temperatura e alterações no comportamento de outros animais e até dos seres humanos. Como acontece tantas vezes na Natureza, o extraordinário tem uma explicação muito mais simples do que o mito.

A escuridão da Crucificação de Jesus na sua morte e a Estrela de Belém no seu nascimento

Poucos fenómenos do céu deram origem a tantas interpretações religiosas como os eclipses. Desde a Antiguidade que o desaparecimento do Sol foi associado à morte de reis, ao nascimento de impérios ou à intervenção divina na História. Não surpreende, por isso, que alguns dos episódios mais conhecidos da tradição cristã tenham sido, ao longo dos séculos, relacionados com acontecimentos astronómicos.

Mas será que essas associações resistem à investigação histórica?

  • A escuridão da Crucificação

Os Evangelhos de Mateus (27:45), Marcos (15:33) e Lucas (23:44-45) relatam que, durante a crucificação de Jesus, “houve trevas sobre toda a terra” entre a hora sexta e a hora nona, aproximadamente entre o meio-dia e as três da tarde.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, muitos perguntaram se essa escuridão poderia ter sido provocada por um eclipse solar. Hoje, a resposta da astronomia é praticamente unânime: não.

A razão é simples. A Páscoa judaica, durante a qual ocorreu a crucificação, celebra-se sempre na época da Lua Cheia. Um eclipse solar, pelo contrário, só pode acontecer na Lua Nova, quando a Lua passa entre a Terra e o Sol. As duas situações são astronomicamente incompatíveis. É por isso que praticamente todos os historiadores da astronomia rejeitam a hipótese de um eclipse solar durante a crucificação.

Isso não significa que a narrativa bíblica esteja necessariamente a descrever um fenómeno impossível. Alguns investigadores sugerem que a escuridão poderá ser uma construção literária com forte significado teológico, destinada a simbolizar a dimensão cósmica da morte de Cristo. Outros admitem fenómenos naturais alternativos, como uma tempestade de poeira (khamsin), comum naquela região, embora não exista qualquer prova direta de que tenha acontecido nesse dia.

Existe ainda um detalhe curioso. No Evangelho de Lucas aparece uma expressão grega (ἐσκοτίσθη ὁ ἥλιος) que algumas traduções antigas interpretaram como “o Sol eclipsou-se“. A maioria dos especialistas em grego bíblico considera, porém, que essa leitura não pretende descrever tecnicamente um eclipse, mas apenas indicar que o Sol escureceu. A associação ao eclipse nasceu sobretudo da interpretação posterior dos textos, e não da astronomia.

  • A Estrela de Belém

Se a escuridão da Crucificação dificilmente pode ter sido um eclipse, já a Estrela de Belém deu origem a um número impressionante de hipóteses astronómicas. O Evangelho de Mateus descreve uma estrela que guiou os Magos até ao local onde nasceu Jesus. Ao longo dos séculos, investigadores tentaram identificar esse fenómeno com quase tudo o que existe no céu.

Já foi proposto:

  • uma conjunção muito rara entre Júpiter e Saturno, em 7 a.C.;
  • uma conjunção entre Júpiter e Vénus;
  • um cometa, incluindo a passagem do cometa Halley, embora a cronologia não seja compatível;
  • uma supernova;
  • uma nova;
  • e até um alinhamento astrológico de significado especial para os sábios orientais.

Entre todas estas hipóteses, não existe nenhuma teoria amplamente aceite. Também aqui, um eclipse praticamente nunca surge entre as explicações consideradas plausíveis. Um eclipse dura poucos minutos, não guia viajantes durante dias ou semanas e não corresponde à descrição do Evangelho de Mateus.

É por isso que a maioria dos historiadores e astrónomos considera mais provável que a Estrela de Belém tenha um significado sobretudo simbólico ou teológico, embora a possibilidade de ter sido inspirada por um fenómeno astronómico real continue em aberto.

Fátima: houve realmente um eclipse?

Poucos acontecimentos da história contemporânea portuguesa estão tão ligados ao Sol como o chamado “Milagre do Sol“, testemunhado por dezenas de milhares de pessoas na Cova da Iria, a 13 de outubro de 1917. Segundo inúmeros relatos da época, depois de horas de chuva intensa, as nuvens abriram-se e muitas pessoas afirmaram ter visto o Sol mudar de aspeto, rodar sobre si próprio, emitir luzes de diferentes cores e parecer aproximar-se da Terra. O episódio tornou-se um dos acontecimentos mais conhecidos da história das aparições de Fátima e continua, mais de um século depois, a ser objeto de estudo por historiadores, teólogos, psicólogos e cientistas.

Terá sido realmente um eclipse solar? A resposta é clara: não. Os registos astronómicos não deixam margem para dúvidas. No dia 13 de outubro de 1917 não ocorreu qualquer eclipse solar visível em Portugal, nem total, nem parcial. Os catálogos internacionais de eclipses permitem reconstruir com enorme precisão todos os fenómenos deste tipo ao longo dos séculos e não existe qualquer eclipse compatível com a data e o local das aparições de Fátima.

Além disso, vários aspetos descritos pelas testemunhas não correspondem ao comportamento de um eclipse. Durante um eclipse solar, o Sol é progressivamente ocultado pela Lua e nunca parece rodar, emitir feixes coloridos ou aproximar-se da Terra. A duração, a evolução e os efeitos observados também são diferentes.

Isso não significa que os investigadores tenham deixado de procurar explicações para aquilo que aconteceu naquele dia. Ao longo do último século foram propostas várias hipóteses naturais. Alguns autores sugeriram efeitos óticos provocados pela observação prolongada do Sol através de nuvens finas, que podem originar pós-imagens na retina e criar a sensação de movimento. Outros referem fenómenos atmosféricos, como cristais de gelo ou difração da luz. Há ainda quem sublinhe a importância das expectativas criadas antes do acontecimento, uma área estudada pela psicologia da perceção. Nenhuma destas hipóteses conseguiu, porém, explicar de forma consensual todos os testemunhos.

É precisamente aqui que termina o trabalho da astronomia e começa o da fé. A astronomia consegue responder a uma pergunta objetiva: houve um eclipse? A resposta é não. Tudo o que diz respeito ao significado religioso do acontecimento pertence a um plano diferente, que não pode ser confirmado nem refutado pelos instrumentos da ciência.

Talvez seja essa a razão pela qual, mais de cem anos depois, o episódio continua a despertar tanto interesse. Não porque tenha sido um eclipse — sabemos hoje que não foi —, mas porque permanece um dos acontecimentos mais debatidos da história religiosa do século XX.

Colombo sabia quando a Lua escureceria. Os Taínos não sabiam que ele sabia

No início de 1504, Cristóvão Colombo estava encurralado na Jamaica. A quarta e última viagem ao outro lado do Atlântico, iniciada dois anos antes, transformara-se numa sucessão de tempestades, doenças, conflitos e fracassos. Os dois navios que ainda lhe restavam estavam tão danificados pelo teredo — um molusco que perfurava a madeira — que acabaram encalhados na costa norte da ilha. Colombo e cerca de uma centena de homens viviam havia meses dentro dos cascos imobilizados, à espera de um socorro que não chegava.

Ao princípio, as comunidades taínas da região forneceram-lhes mandioca, milho, peixe e outros alimentos, trocando-os por pequenos objetos europeus. Mas a permanência prolongava-se, os espanhóis exigiam cada vez mais e parte da tripulação roubava e agredia os habitantes. A relação deteriorou-se. Quando os Taínos começaram a recusar novos abastecimentos, Colombo percebeu que a expedição podia ficar sem comida antes de chegar ajuda.

Foi então que consultou as tabelas astronómicas que transportava. O almanaque compilado por Johannes Müller von Königsberg, conhecido como Regiomontanus, indicava que ocorreria um eclipse total da Lua na noite de 29 de fevereiro de 1504 — madrugada de 1 de março segundo outros referenciais horários. Colombo não descobrira o eclipse nem fizera sozinho os cálculos. Possuía uma informação produzida por astrónomos europeus e percebeu que podia transformá-la numa arma.

Chamou os líderes locais e anunciou-lhes que o seu Deus estava indignado por terem deixado de alimentar os cristãos. Como prova dessa cólera, disse, retiraria a luz à Lua e fá-la-ia arder de raiva. Na noite marcada, a sombra da Terra começou a avançar sobre o disco lunar. A Lua escureceu e adquiriu a cor avermelhada característica de um eclipse total.

Segundo o relato posterior de Fernando Colombo, filho do navegador, os habitantes ficaram aterrorizados, correram para os navios com alimentos e pediram a Colombo que intercedesse junto do seu Deus. A versão foi escrita anos depois e apresenta o episódio do ponto de vista dos vencedores, pelo que não permite saber exatamente como os Taínos compreenderam aquilo que observaram. Mas não há dúvida de que Colombo conhecia antecipadamente o eclipse e usou esse conhecimento para recuperar o controlo da situação.

O momento mais teatral ainda estava para acontecer. Colombo fechou-se na cabine, alegando que precisava de falar em privado com Deus. Na realidade, acompanhava o avanço do eclipse com uma ampulheta, tentando calcular quando começaria a terminar. Saiu pouco antes de a Lua recuperar progressivamente a luminosidade e anunciou que Deus aceitara o arrependimento dos habitantes, desde que voltassem a abastecer os espanhóis. A Lua reapareceu. Os alimentos também.

A história costuma ser apresentada como uma demonstração de inteligência e sangue-frio do navegador. É igualmente uma história de exploração. Colombo não controlou o céu e não possuía qualquer poder sobrenatural. Utilizou uma diferença de informação para intimidar uma população de quem os seus homens dependiam e que já sofrera meses de abusos. O episódio mostra até que ponto o conhecimento astronómico podia funcionar como instrumento de autoridade quando apenas um dos lados sabia que o fenómeno era previsível.

Também encerra uma ironia. Colombo conseguiu prever o eclipse através de tabelas europeias, mas continuava profundamente enganado acerca do lugar onde se encontrava. Morreu dois anos depois sem aceitar plenamente que as terras alcançadas não eram a costa oriental da Ásia. Na Jamaica, o homem que não compreendeu a verdadeira geografia do seu próprio percurso salvou-se porque sabia, com antecedência suficiente, quando a sombra da Terra passaria sobre a Lua.

O eclipse que pôs Einstein nas primeiras páginas dos jornais

Na manhã de 29 de maio de 1919, Arthur Eddington acordou na ilha do Príncipe com o som da chuva. Não era uma chuva passageira. Uma tempestade atravessara a ilha durante a noite e o céu permanecia coberto. Durante meses, o astrónomo britânico viajara, transportara telescópios, instalara instrumentos numa plantação de cacau e preparara cada detalhe para aqueles poucos minutos. Agora, quando faltavam poucas horas para o eclipse total, havia a possibilidade de as nuvens destruírem toda a experiência.

O que Eddington procurava fotografar não era propriamente o eclipse. Eram as estrelas que apareceriam em redor do Sol quando a Lua escondesse a sua luz. Quatro anos antes, Albert Einstein concluíra a Teoria da Relatividade Geral. A ideia central alterava a própria descrição da gravidade. Na física de Newton, a gravidade funcionava como uma força exercida entre corpos. Para Einstein, a matéria e a energia deformavam o espaço-tempo; os planetas, as estrelas e até a luz seguiam os caminhos traçados por essa geometria.

Da teoria resultava uma previsão concreta. A luz de uma estrela distante, ao passar muito perto do Sol, deveria desviar-se ligeiramente devido à curvatura do espaço-tempo provocada pela massa solar. Esse desvio era minúsculo: cerca de 1,75 segundos de arco para um raio de luz que passasse junto ao bordo do Sol. Correspondia aproximadamente ao ângulo formado por uma moeda observada a vários quilómetros de distância, um ângulo tão pequeno que corresponde aproximadamente à espessura de um cabelo observado a cerca de 20 metros de distância, um efeito minúsculo, mas suficiente para confirmar uma das teorias científicas mais revolucionárias de sempre. Mas havia uma dificuldade: em circunstâncias normais, a luminosidade solar impedia ver as estrelas que apareciam naquela região do céu.

Um eclipse total criava durante alguns minutos o laboratório perfeito. Com o disco do Sol tapado pela Lua, seria possível fotografar as estrelas aparentemente próximas e comparar as suas posições com fotografias tiradas quando o Sol já não estivesse à frente daquele campo estelar. Caso a posição aparente se alterasse na medida prevista por Einstein, a luz teria sido desviada pela gravidade.

Frank Watson Dyson, o Astrónomo Real britânico, percebeu que o eclipse de 29 de maio de 1919 oferecia uma oportunidade excecional. Nesse dia, o Sol estaria diante das Híades, um aglomerado com várias estrelas suficientemente brilhantes para aparecerem nas placas fotográficas. Foram organizadas duas expedições. Eddington e o fabricante de instrumentos Edwin Cottingham seguiram para a ilha do Príncipe, no golfo da Guiné. Andrew Crommelin e Charles Davidson viajaram para Sobral, no Ceará, Brasil. Dyson coordenaria o trabalho a partir do Observatório de Greenwich.

A expedição tinha ainda um significado que ultrapassava a Física. A Primeira Guerra Mundial terminara havia apenas seis meses. Einstein era alemão; Eddington, Dyson e os restantes organizadores eram britânicos. Eddington era quaker e pacifista e escapara ao serviço militar depois de a Universidade de Cambridge defender que o seu trabalho científico era indispensável. Uma equipa britânica preparava-se agora para testar a teoria de um cientista do país que fora inimigo até poucos meses antes. A experiência seria mais tarde apresentada como símbolo de uma ciência capaz de reabrir pontes que a guerra destruíra.

No Príncipe, a chuva abrandou perto da hora do eclipse, mas as nuvens não desapareceram completamente. Durante a totalidade abriram-se breves clareiras. Eddington e Cottingham mudaram sucessivamente as placas de vidro, tentando aproveitar cada intervalo. Obtiveram 16 fotografias, mas a nebulosidade deixou estrelas mensuráveis em apenas algumas. Em Sobral, as condições foram melhores. A equipa brasileira e os astrónomos britânicos observaram o eclipse sob um céu globalmente limpo e conseguiram produzir várias séries de placas com dois instrumentos diferentes.

O trabalho mais difícil começou depois. Era necessário medir nas placas deslocações inferiores à espessura de um cabelo e controlar alterações causadas pela temperatura, pela focagem e pelos próprios telescópios. Os resultados não eram todos iguais. As placas de um dos instrumentos de Sobral tinham ficado desfocadas durante o eclipse e forneciam um valor próximo da previsão newtoniana; as fotografias obtidas com o aparelho menor em Sobral e as placas utilizáveis do Príncipe aproximavam-se do valor previsto pela Relatividade Geral.

Durante décadas repetiu-se que Eddington rejeitara deliberadamente os dados desfavoráveis para provar que Einstein tinha razão. A documentação histórica e as reanálises posteriores não sustentam essa acusação na forma simplificada em que costuma aparecer. A exclusão das placas desfocadas de Sobral foi decidida por razões técnicas e a análise do conjunto dos resultados, embora menos definitiva do que as manchetes sugeriram, favorecia efetivamente a previsão de Einstein. Medições realizadas posteriormente, com instrumentos muito mais precisos, confirmaram de forma inequívoca a deflexão da luz prevista pela Relatividade Geral.

A 6 de novembro de 1919, os resultados foram apresentados numa sessão conjunta da Royal Society e da Royal Astronomical Society, em Londres. O artigo científico, assinado por Dyson, Eddington e Davidson, seria publicado no ano seguinte: concluía que os resultados apoiavam a previsão de Einstein e não o valor que resultaria de uma interpretação newtoniana.

A notícia saiu rapidamente das salas académicas. O Times de Londres anunciou uma “revolução na ciência” e jornais de vários países apresentaram Einstein como o homem que derrubara Newton. Era um exagero — a Relatividade Geral não tornava a física newtoniana inútil, mas mostrava os seus limites —, porém transformou um físico até então conhecido sobretudo entre especialistas numa celebridade mundial.

O eclipse não provou sozinho toda a Teoria da Relatividade Geral, nem encerrou a discussão científica em 1919. O que fez foi fornecer o primeiro grande teste público de uma das suas previsões mais surpreendentes. Mostrou que a gravidade podia alterar o caminho da luz e que o espaço não era o cenário rígido e imóvel que durante séculos se imaginara.

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Durante milhares de anos, os seres humanos olharam para os eclipses e viram deuses zangados, animais a devorar o Sol ou avisos sobre o destino dos reis. Em 1919, olharam para a mesma escuridão e encontraram uma forma nova de compreender o Universo. A Lua ocultou o Sol durante alguns minutos e ao fazê-lo, tornou visível a curvatura do espaço-tempo.

Talvez seja por isso que os eclipses continuem a fascinar-nos tanto. São exatamente os mesmos que assustaram faraós, imperadores chineses, navegadores, guerreiros, reis e camponeses. A Lua continua a passar diante do Sol da mesma forma que o fazia há milhares de anos. O que mudou foi a forma como escolhemos olhar para esse momento.

Primeiro inventámos histórias para explicar aquilo que parecia impossível. Criámos dragões, demónios, lobos e deuses porque eram as melhores respostas que tínhamos. Depois aprendemos a observar o céu, a reconhecer padrões e a prever o regresso da sombra. Mais tarde, usámos um eclipse para terminar uma guerra, salvar uma expedição perdida e provar uma das teorias científicas mais importantes da História.

A história dos eclipses não é apenas a de um fenómeno astronómico, mas a história da própria curiosidade humana. Esta quarta-feira, 12 de agosto, quando a Lua começar lentamente a esconder o Sol sobre Portugal, estaremos a assistir ao mesmo espetáculo que intrigou todas as civilizações que nos precederam. A diferença é que hoje sabemos exatamente por que acontece. Mas compreender um eclipse nunca lhe retirou a magia.