As pessoas já vivem numa Área Metropolitana do Minho. As instituições é que ainda não perceberam.
Todos os dias, milhares de minhotos atravessam fronteiras que apenas existem nos mapas administrativos. Vivem num concelho, trabalham noutro e recorrem a serviços num terceiro. A economia já uniu o Minho. A política continua, demasiadas vezes, a dividi-lo.
Por isso, a iniciativa de Braga e Guimarães para promover a criação da Área Metropolitana do Minho merece ser saudada. Reconhece uma evidência: o Minho tem dimensão económica, demográfica, científica e empresarial para ser pensado como uma única região funcional.
Esta visão não é nova. Desde a sua criação, em 2021, a AEMINHO defende um Minho integrado, onde as decisões sobre mobilidade, investimento, ordenamento e desenvolvimento económico não sejam limitadas pelas fronteiras dos concelhos.
Na altura, a ideia pareceu prematura. Hoje, entrou na agenda política. Não se trata de reivindicar a sua autoria, mas de recordar que as regiões avançam quando alguém tem a coragem de as imaginar antes de se tornarem consensuais.
Braga e Guimarães podem liderar este processo, mas não podem defini-lo sozinhos. Uma Área Metropolitana sem o Alto Minho seria uma região incompleta. Viana do Castelo, o seu porto, a sua indústria, a ligação ao Atlântico e a dinâmica dos restantes municípios são parte insubstituível da competitividade regional. Excluir o Alto Minho seria substituir o municipalismo por um centralismo regional ligeiramente maior.
Esta discussão não pode terminar numa nova sigla ou em mais uma estrutura administrativa. Tem de melhorar a vida das pessoas, começando pela articulação entre habitação, mobilidade e ordenamento do território.
Durante demasiado tempo tratámos estes problemas como se fossem independentes. Não são.
A resposta à crise da habitação não passa apenas por construir mais casas. Passa também por aumentar o território onde as famílias podem viver sem perder acesso ao emprego, à escola, aos serviços e às oportunidades.
Nenhuma cidade conseguirá, sozinha, responder a toda a procura habitacional. Mas o Minho dispõe de solo e de cidades com capacidade para crescer. O problema é organizar o território pelos limites administrativos e não pelos movimentos reais das pessoas.
Se uma família puder viver em Esposende, Barcelos, Vila Verde, Ponte de Lima ou Viana do Castelo e trabalhar em Braga ou Guimarães através de transportes públicos rápidos, frequentes, confortáveis e acessíveis, aumentamos a oferta efetiva de habitação, reduzimos a pressão imobiliária sobre os principais centros urbanos e criamos uma ocupação mais equilibrada do território.
Nas regiões metropolitanas mais competitivas, o emprego concentra-se em alguns polos, mas a população distribui-se por um território vasto porque a mobilidade torna irrelevantes as fronteiras administrativas.
A ligação entre Esposende e Braga mostra quanto falta fazer. A carreira direta tem apenas três horários por sentido nos dias úteis e demora cerca de cinquenta minutos. O passe mensal pode custar entre 116,30 e 120,90 euros. Na Área Metropolitana do Porto, o Andante permite circular em toda a rede por 40 euros.
Um trabalhador do Minho pode, assim, pagar quase três vezes mais por uma rede muito mais limitada. Se optar pelo automóvel, suporta o combustível e as portagens. A fronteira administrativa transformou-se, na prática, num imposto sobre quem precisa de trabalhar.
É precisamente isto que uma verdadeira Área Metropolitana tem de corrigir. Precisamos de uma autoridade regional de mobilidade, de uma rede desenhada em função das deslocações reais, de frequências compatíveis com os horários de trabalho e de um título intermodal com um preço alinhado com os restantes passes metropolitanos do país.
Não podemos continuar a pedir às pessoas que utilizem transportes públicos quando a própria política pública torna essa opção mais cara, mais lenta e menos conveniente do que o automóvel.
Esta não é apenas uma questão de justiça social. É também uma questão de competitividade. Empresas que não recrutam porque os trabalhadores não suportam os custos da habitação ou das deslocações tornam-se menos produtivas e menos atrativas para o investimento. A mobilidade é hoje uma infraestrutura económica tão importante como uma estrada, um porto ou uma rede digital.
O Minho já tem escala, indústria, universidades, talento e instituições. O que lhe falta é uma governação comum capaz de ligar habitação, mobilidade, ordenamento e desenvolvimento económico numa estratégia integrada.
Braga e Guimarães abriram um debate importante. Agora é necessário dar-lhe verdadeira dimensão regional, envolvendo todo o Minho e transformando uma boa intenção numa mudança concreta na vida das pessoas.
O sucesso de uma Área Metropolitana não será medido pela criação de uma nova instituição. Será medido no dia em que uma família puder escolher onde viver, sabendo que continuará a ter acesso ao emprego, à escola, aos serviços e às oportunidades.
Nesse dia, o Minho deixará de ser um conjunto de concelhos vizinhos para passar a funcionar como aquilo que já é: uma única região.