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Urgências de Oftalmologia não preevem reforçar profissionais no pós-eclipse. Lesão pode ser "definitiva"

Olhar para o eclipse sem proteção pode provocar uma lesão "indolor e definitiva", mas a Direção Executiva do SNS não vai reforçar equipas de oftalmologia para quarta-feira — só se for preciso depois.

Tiago Caeiro
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As urgências de Oftalmologia dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não têm previsto um reforço do número de profissionais nem esperam um aumento significativo da afluência de utentes no pós-eclipse solar, que vai ter lugar ao final da tarde próxima quarta-feira, dia 12. Ainda assim, se for necessário, dois dos maiores hospitais do país (que têm a seu cargo na próxima semana, as urgências metropolitanas de Oftalmologia, em Lisboa e Porto) garantem que poderão mobilizar mais profissionais de saúde, caso a afluência seja muito superior ao normal.

Ao Observador, a Direção Executiva do SNS (DE-SNS) sublinha que “não existem, nesta data, indicadores que permitam antecipar um aumento significativo da procura dos Serviços de Urgência de Oftalmologia, nem foi identificada a necessidade de adoção de medidas extraordinárias de reforço de recursos humanos”. A entidade, liderada por Álvaro Almeida (e à qual cabe coordenar a resposta assistencial em conjunto com as Unidades Locais de Saúde), diz ser “expectável uma maior sensibilização da população para as lesões oculares associadas à observação inadequada de um eclipse solar”.

Ou seja, a Direção Executiva do SNS acredita que a sensibilização que tem sido feita nos últimos dias — com vários especialistas e entidades a partilharem recomendações e alertas quanto ao modo como deve ser observado o fenómeno astronómico — será suficiente para evitar um aumento significativo da afluência às urgências.

À noite e aos fins de semana, só há urgências de Oftalmologia em Lisboa, Porto e Coimbra

Os hospitais do SNS têm as urgências de Oftalmologia em funcionamento no período diurno (geralmente entre as 8h e as 20h) e nos dias úteis. Cabe aos diferentes serviços de Oftalmologia darem apoio aos serviços de urgências gerais nesse período quando surgem casos que necessitem de observação médica nessa área. Contudo, no período noturno e aos fins de semana e feriados, a resposta do SNS está concentrada, há anos, nas urgências metropolitanas de Lisboa e Porto. Já a população da região Centro está coberta pela urgência de Oftalmologia da ULS de Coimbra, aberta em permanência durante todo o ano.

No caso de Lisboa, durante a noite e os dias não úteis, a urgência de Oftalmologia é assegurada, numa rotação semanal, pelos hospitais de Santa Maria e de São José. Na próxima semana, e nomeadamente na noite de quarta para quinta-feira, a urgência metropolitana estará a funcionar no Hospital de São José, entre as 20h e as 8h.

No caso da cidade do Porto, a rotatividade é quinzenal. Na noite de quarta para quinta-feira, caberá ao Hospital de São João assegurar a urgência. Tanto na urgência metropolitana de Oftalmologia de Lisboa como na do Porto, as escalas são constituídas por dois médicos especialistas.

A Unidade Local de Saúde de São José sublinha que “não se prevê um aumento da afluência aos Serviços de Urgência especificamente relacionado com o eclipse solar”, mas garante que, “caso venha a verificar-se” esse cenário, “o Serviço de Oftalmologia da ULS São José encontra-se capacitado para assegurar uma resposta adequada”.

Na mesma linha, a Unidade Local de Saúde de São João diz que “não é esperado um aumento significativo da afluência”, embora “exista uma possibilidade de reforçar a equipa se a afluência e a gravidade assim o justificarem”.

A Direção Executiva do SNS lembra que, “sempre que necessitem de cuidados urgentes nesta área, os utentes deverão contactar previamente a Linha SNS 24 (808 24 24 24), que procederá à avaliação clínica da situação e encaminhará o utente para a unidade de saúde mais adequada e disponível, de acordo com a organização da rede de urgência em cada momento”.

Ao Observador, a Direção Executiva do SNS (DE-SNS) sublinha que "não existem, nesta data, indicadores que permitam antecipar um aumento significativo da procura dos Serviços de Urgência de Oftalmologia, nem foi identificada a necessidade de adoção de medidas extraordinárias de reforço de recursos humanos"

“As células morrem, e não há possibilidade de recuperação”

Durante o eclipse, a observação do fenómeno deve ser feita com recurso a óculos certificados pela norma internacional ISO 12312-2, com marcação CE, sob pena de poder ser gerada uma queimadura da retina. A diretora do Serviço de Oftalmologia da ULS de Santa Maria alerta que olhar para o sol de forma prolongada, e sem proteção adequada, pode provocar uma lesão “indolor e definitiva” na retina.

“Caso as pessoas olhem de forma fixa e prolongada para o sol, a lesão que provoca na retina é indolor e definitiva. As células morrem, e não há possibilidade de recuperação, nem tratamento cirúrgico”, alerta Mun Faria, em declarações ao Observador.

Olhar de forma prolongada para o sol, mesmo que parcialmente coberto pela lua, pode “provocar uma lesão das células fotorrecetoras da retina [responsáveis por filtrar diferentes níveis de luz e cor], que é imediata”, realça a médica, acrescentando que, geralmente, “o doente só se apercebe no dia seguinte”.

Nestes casos, os oftalmologistas nada podem fazer para reverter o quadro de lesão na retina, limitando-se a realizar um exame, designado por tomografia de coerência ótica, para confirmar o diagnóstico, indica Mun Faria. Se a exposição for breve, “provoca inflamação das células, que podem recuperar”, acrescenta a médica.

Assim, a responsável alerta para a importância de utilização de óculos certificados, e lembra que outros materiais (como radiografias, CD ou óculos de sol) não protegem o olho contra os raios infravermelhos, que são os responsáveis pelas lesões na retina. O impacto na retina pode traduzir-se, nas horas seguintes, na diminuição da visão central, no aparecimento de uma mancha escura, bem como visão distorcida ou alteração na visão cromática das cores.

No programa Guia para o Eclipse, da Rádio Observador, o médico Miguel Lume, responsável pela área da retina da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, sublinhou também que a lesão provocada pela observação do eclipse sem óculos certificados pode ser permanente, mas ressalvou que, “na maioria dos casos”, os doentes “recuperam espontaneamente”. Cerca de 20% dos doentes ficam “com redução significativa da acuidade visual” e, mesmo nos restantes casos, a recuperação da visão apenas “é parcial”.

O especialista apela ao comportamento da população durante o eclipse, para que, depois do fenómeno astronómico, o país não se veja confrontado “com uma epidemia de casos de retinopatia solar”.

Há dezenas de casos descritos de lesões oculares pós-eclipses

Não são raros os casos — descritos na literatura científica e noticiados nos órgãos de comunicação social — de pessoas que ficaram com lesões oculares devido à observação de eclipses. Em abril de 2024, o Departamento de Saúde de Quebec, no Canadá, informou ter recebido 28 relatos de lesões na visão relacionados com a observação do eclipse solar total que foi visível na América do Norte. Os casos incluíam inflamação da córnea e retinopatia solar e foram comunicados por optometristas. As autoridades do Quebec estimavam, no entanto, que o número de casos seria muito superior.

Em 2017, o Washington Post revelou o caso da jovem Nia Payne, à data com 26 anos, que olhou para o sol sem proteção adequada durante seis segundos, entusiasmada para ver o histórico eclipse solar total de agosto desse ano na cidade de Nova Iorque. O resultado: uma lesão na retina, que se traduziu no aparecimento de uma mancha negra na visão. A jovem acabou por se dirigir ao serviço de urgência do centro oftalmológico do Hospital Mount Sinai, onde os médicos confirmaram a lesão.

No Journal Français d’Ophtalmologie é descrito o caso de um homem de 44 anos que procurou cuidados médicos devido a um longo histórico de desconforto visual no olho direito, com deficiência na fixação visual. O paciente relatou ter observado o sol durante um eclipse ao longo de cerca de 10 a 15 minutos — sem proteção — quando tinha 16 anos. Imediatamente após a observação do eclipse, o homem apresentou visão turva, situação que persistiu durante décadas no olho direito.

Os efeitos adversos da radiação solar no olho humano são conhecidos há muito tempo, com o primeiro caso clínico de retinopatia solar a ser descrito ainda no século XVII. No Journal of Optometry, são relatados quatro casos de jovens com retinopatia solar aguda grave após observação do eclipse solar de 4 de janeiro de 2011, que foi visível também em Portugal e em grande parte da Europa e Médio Oriente. Nenhum usou proteção ocular adequada. Todos apresentaram visão turva, mas em três dos quatro casos as lesões foram consideradas reversíveis.

https://observador.pt/2026/08/06/eclipse-solar-dgs-emite-guias-com-recomendacoes-para-observacao-segura-e-alerta-para-risco-de-lesoes-na-retina/

Notícia atualizada às 14h30 com a informação de que a população da região Centro (distritos de Coimbra, Leiria, Guarda, Viseu, Aveiro e Castelo Branco) é abrangida pela urgência de Oftalmologia da ULS de Coimbra, que funciona em permanência durante todo o ano