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(A) :: A forma mais preguiçosa, estúpida e desonesta de fazer política: "E isto, claro, vai favorecer a extrema-direita!"

A forma mais preguiçosa, estúpida e desonesta de fazer política: "E isto, claro, vai favorecer a extrema-direita!"

Falar da crise migratória em Ceuta? Favorece a extrema-direita. Caso Luís Neves? Favorece a extrema-direita. Vivemos em permanente eclipse da realidade para não favorecer a extrema-direita.

Helena Matos
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Olhe-se para os menores marroquinos nas praias e ruas de Ceuta. Legalmente eles não podem ser devolvidos às suas famílias em Marrocos. Mas dentro em pouco estes mesmos menores começarão a ser transferidos para o território continental de Espanha onde, em nome do reagrupamento familiar, as famílias de muitos deles se lhes juntarão. Explicando melhor, as mesmas leis que impedem devolver às suas famílias e ao seu país os menores desacompanhados que chegaram a Espanha, obrigam a que assim que possível se acolham as suas famílias porque, diz essa mesma legislação, eles não podem viver longe dessas mesmas famílias de que fugiram e às quais pouco antes não quiseram ser entregues.

Como é que chegámos a estas armadilhas legislativas em que se tomam decisões absolutamente contraditórias, invocando os mesmos magnos princípios? Porque as agendas progressistas impuseram estas e outras agendas — querem falar da destruição da indústria automóvel europeia alegadamente para combater as alterações climáticas? Das mulheres que passaram a ser “pessoas que menstruam” e as mães designadas como “pessoas que amamentam” para não ofender as ditas mulheres trans que biologicamente são e serão sempre homens? Em boa parte porque a contestação, crítica ou simples formulação de dúvidas perante estas medidas foi estigmatizada. Estigmatizada como? Associada a sua contestação à extrema-direita.

Em nome de um avanço que ninguém pediu e que acabaria como só podia acabar, ou seja, num bárbaro retrocesso, os valores e o fundamental bom senso — esse cimento estrutural da sociedade — foram terraplanados. Quando nos interrogamos sobre como foi isto possível chegamos invariavelmente à extrema-direita.

Primeiro a extrema-direita era o sítio infrequentável daqueles que contestavam estas medidas que, diziam, elevariam as sociedades. Durante anos vimos os líderes do centro a calarem-se perante este tropel de legislação, causas e agendas para não serem rotulados como extremistas de direita. Na simples produção de opinião, uma coisa era o que muitos diziam com os microfones ligados e outra quando se chegava aos bastidores. O “se alguém disser que eu disse isto eu nego mas…” deixou de ser uma graça para se tornar uma forma de vida. Ou de sobrevivência: afinal ser rotulado de extrema-direita acabava com as expectativas duma carreira universitária ou artística.

Como era absolutamente inevitável, a realidade prosseguia o seu curso e a extrema-direita, até então residual, surgiu. E os populismos de direita cresceram exponencialmente. Nem podia, aliás, ser doutro modo: com as sociedades a enfrentarem momentos que questionavam todas as certezas dos seus cidadãos, os líderes do centro e muito particularmente do centro-direita desertaram do combate das ideias e das propostas, o que os deixou pessoalmente livres do estigma de serem apelidados de extrema-direita, mas obviamente entregou a liderança e o discurso à extrema-direita e aos populismos de direita.

Foi então que passámos do “Isso é de extrema-direita” para a fase do “E isto, claro, vai favorecer a extrema-direita!” E é precisamente aí que estamos: já ninguém é de extrema-direita por referir as consequências desastrosas daquilo que nos foi imposto pelos populismos de esquerda, particularmente na área da segurança e da imigração, mas tornámo-nos todos cúmplices do presente crescimento da extrema-direita por simplesmente aludirmos à realidade. Por outras palavras, já ninguém nega que há uma crise em Ceuta mas devemos mostrar preocupação por os vídeos que os seus residentes dizem sobre o que acontecia e acontece naquela cidade atravessada por vagas de imigrantes ir alimentar a extrema-direita.

Sim, estamos a viver uma espécie de eclipse da realidade. A realidade já não é negada mas falar dela pode ter efeitos perversos. Ou seja, olhe para outro sítio que o real faz mal à vista. Sim, “isto, claro, vai favorecer a extrema-direita!” apenas porque o centro ou boa parte dele se deixou ficar para trás no caminho. Escusado será dizer que só não ter medo de ser acusado pela esquerda e pela extrema-esquerda de estar a favorecer a extrema-direita poderá dar ao centro e à direita um discurso sobre a sociedade e autoridade perante os eleitores.

PS. No meio das confusões dos vários casos que envolvem o antigo director da PJ e agora MAI, Luís Neves, plasma-se tudo num magma de suspeições e, pior ainda, não se distingue o essencial do acessório. Contudo o argumentário do antigo director da PJ no enfrentamento com o Tribunal de Contas é da maior importância para os quadros dirigentes da administração pública e sobretudo para a falta de gente com qualidade a dispor-se a assumi-los. Recapitulando, Luís Neves, enquanto director da PJ, autorizou o pagamento de viagens no âmbito “de uma ampla ação policial” mas os procedimentos para autorizar essa despesa não foram respeitados. Segundo o antigo director da PJ e a própria PJ como se lê neste artigo do Observador, a necessidade de confidencialidade que rodeia muitas das operações desta polícia não é compatível com a informação prévia planeada e atempada aos serviços, podendo até o cumprimento desses requisitos burocráticos comprometer a confidencialidade fundamental para o sucesso das operações, segurança do Estado e dos próprios agentes. Se isto for verdade, e provavelmente é, temos de evitar que acabe amalgamado no que chamamos casos Luís Neves. Em conclusão, a burocracia põe em causa ou não a operacionalidade da PJ? E os outros quadros da administração pública o que têm a dizer sobre o que acontece nas suas áreas?