Nota: As imagens que acompanham esta reportagem limitam-se ao ambiente pré-concerto junto do público, uma vez que a produção do espetáculo de Kanye West proibiu o acesso de equipamento fotográfico profissional, autorizando apenas a captação através de telemóvel — uma limitação que inviabiliza a obtenção de um registo com a qualidade exigida e condiciona severamente o trabalho dos fotojornalistas. O Observador não fotografou o concerto.
Poderá Kanye West alguma vez ser desculpado? Haverá sequer razão para a sua condenação pública? Ainda que possa parecer insólito — falamos de um espectáculo ao vivo — estas eram algumas das perguntas que se impunham esta sexta-feira, dia em que o rapper norte-americano regressou a Portugal ao fim de 15 anos, uma das poucas datas que se mantiveram de pé numa digressão marcada por cancelamentos provocados pelos seus atos, declarações e músicas dos últimos anos. “You been puttin’ up with my shit just way too long”, admite o próprio na clássica Runaway, ele que sempre fez das suas fraquezas forças até esse veio criativo se esgotar. De qualquer forma, um concerto — bom ou mau — nunca dará uma resposta taxativa a questões éticas, mas se o avaliarmos estritamente pela música, podemos pelo menos dizer que está a dar passos tímidos na direção certa.
De facto, entre 2011 e 2026 parece que se passaram várias vidas para o artista, que agora se apresenta publicamente como Ye. Essa vinda — a segunda a Portugal, depois da estreia em 2006 — ocorreu enquanto se encontrava no pico da sua fase imperial, na sequência do lançamento de My Beautiful Dark Twisted Fantasy, para muitos o seu melhor álbum. Volvidos 15 anos, recebemos o artista que há meses lançou Bully, disco consecutivamente adiado e cuja maior virtude é mostrar lampejos do seu génio e deixar para trás os desastres dos últimos tempos.
Quem segue o rapper sabe que o seu enorme talento andou sempre de braço dado com a egomania e que atraiu constantes polémicas desde que se tornou numa figura de relevo na música. No entanto, é do conhecimento público que a última década de West tem sido particularmente conturbada: desde a revelação do seu diagnóstico de bipolaridade às adições a opiáceos e a óxido nitroso, passando pelo seu divórcio com Kim Kardashian, a sua candidatura à presidência dos EUA em 2020, ou a sua estranha relação com Bianca Censori.
Todavia, aquilo que justifica as perguntas do início do texto e que, para muitos, significou um ponto de não retorno foi um abraçar da extrema-direita norte-americana — associando-se a pessoas como Nick Fuentes, Candice Owens e Milo Yiannopoulos —, do nazismo e do anti-semitismo. A título de exemplo está o lançamento do tema Heil Hitler em 2025 — entretanto removido e denunciado — e a comercialização de t-shirts com simbologia nazi. E enquanto tudo isto acontecia, o homem que ficou conhecido pelo seu cuidado meticuloso e obsessivo com a música que escrevia e produzia pareceu deixá-la para segundo plano, com uma série de lançamentos desfocados e de qualidade sub-par.
https://observador.pt/especiais/ainda-nos-lembramos-de-kanye-west/
Já no início deste ano, Ye iniciou uma aparente nova fase da sua vida a fazer um ato público de contrição, pedindo desculpa num anúncio publicado no Wall Street Journal intitulado “Àqueles que magoei” e afirmando que “não era nazi nem anti-semita” e que o seu comportamento se devia a um episódio bipolar. Seguiram-se declarações semelhantes na rede social X, mas não foi suficiente, tendo tido concertos cancelados no Reino Unido, na Polónia e em Itália, além de ver-se impedido de atuar na Suíça e de ter adiado indefinidamente um espetáculo em França.
Portugal — não obstante a oposição do embaixador israelita e de grupos como a Comunidade Israelita de Lisboa — fez parte do rol de exceções, que incluiu Albânia, Geórgia, Países Baixos, Turquia e Espanha, onde atuou para mais de 60 mil pessoas no estádio Wanda Metropolitano em Madrid a 30 de julho. Nessa ocasião estiveram à venda t-shirts alusivas ao concerto, várias das quais pudemos observar durante a tarde desta sexta-feira junto ao Estádio do Algarve — prova de que muitos dos presentes quiseram repetir a experiência. Esse detalhe, somado ao facto de o recinto estar muito bem composto (embora sem esgotar a lotação de 35 mil pessoas), mostra-nos que, além daqueles dispostos a perdoar Ye, há muitos outros que optam por separar o artista do homem e focar-se estritamente na música.
Entre a arte e as transgressões: quem são os fãs de Ye?
João, Sara e Miguel fazem parte desse segundo grupo. Os primeiros, os progenitores, trouxeram o terceiro, o filho de 15 anos, diretamente da Maia para o Algarve para que pudesse assistir pela primeira vez a Ye. O pai não participa na conversa com o Observador porque está na extensa fila para a banca de merchandising — onde há t-shirts à venda a 55 euros e camisolas a 110 —, tendo sido também ele a comprar os bilhetes no dia em que foram lançados. “Como o Miguel queria muito, fizemos um plano familiar”, conta Sara, que assume conhecer “meia dúzia de músicas” e gosta do artista, apesar de considerar o seu percurso mais recente “inconstante”. Já o jovem começou a ouvir West quando este lançou Donda, álbum de homenagem à mãe, frisando que prefere focar-se mais nas músicas do que nas polémicas.
Esse, no entanto, não é o entendimento de Tiago e Iara, que apresentam uma postura compassiva para com o rapper. “Ele passou por muita coisa. A morte da mãe e a bipolaridade alteram qualquer pessoa a nível mental. Estamos aqui para apoiá-lo, por ser um artista de que gostamos muito. É a oportunidade de uma vida”, afirma a jovem de 20 anos. Os dois não vencem o prémio de dedicação a Ye pela maior distância percorrida para vê-lo — vieram de Albufeira —, mas compensam-no por trazerem uma bandeira de Portugal com uma montagem onde o artista surge como Jesus Cristo. O objeto tem a sua dose de ironia iconoclástica, mas esconde um fundo de verdade — o rapper marcou o panorama musical de tal forma que inspira devoção quase religiosa, não obstante as suas transgressões.
Que o digam os dois jovens mexicanos que vieram de propósito à Península Ibérica para assistir aos dois concertos, acompanhados pelo pai. Vestidos a rigor com trajes acompanhados de peluches, chapéus e óculos alusivos ao artista, dizem que gastaram todo o seu dinheiro para acompanhar o artista. O mais velho, de 20 anos, dá pelo nome de stickmanized, nome que emprega nas redes sociais para tentar tornar-se num influencer conhecido pelo seu amor a Ye. O mais novo, Elias, de 13 anos, também é fã, mas vem mais para apreciar a aventura.

Não é surpreendente que tenham vindo tantos estrangeiros a este concerto. Afinal de contas, não só Portugal tem-se tornado num destino cada vez mais apetecível no que toca ao turismo musical, como os sucessivos cancelamentos das datas de Ye têm reduzido as opções. Zack e Emily, por exemplo, queriam ter ido aos concertos do festival Wireless, em Londres, entretanto cancelados devido à retirada do visto de entrada do rapper no Reino Unido, o que merece um comentário duro: “Ele disse coisas más, mas não fez nada de realmente mau. Há gente que já fez pior e que pode entrar no país”. Ambos são fãs, mas ele destaca-se, dizendo que ouve o artista desde que se lembra porque o pai também já ouvia. “Adoro-o”, diz peremtoriamente. Estiveram em Madrid, onde o concerto cumpriu expectativas. “Foi tudo o que estávamos à espera”, afirmam.
Já Georgia e Alfie partilham a nacionalidade, mas não as opiniões. Vieram de Manchester, mas não tinham interesse em ver Ye em Londres, já que o intuito era apenas o de assistir a um concerto e aproveitar para fazer férias. Assumem que gostam da sua música, em particular das coisas mais antigas, mas não são fãs por aí além, tendo vindo por temer que esta seja “a última oportunidade” para vê-lo. Porquê? “Porque ou vai ser cancelado de vez ou nunca vai voltar a fazer digressões deste tipo”, afirma o membro masculino do casal. O passado recente de West merece da sua parte expressões da fleuma tipicamente britânica: “he’s been off the rails, hasn’t he?” (“ele tem-se passado dos carretos, não é verdade?”) dele, seguido de um “we love him, but he’s crazy” (“adoramo-lo, mas ele é louco”) dela. Assumindo um pouco mais de seriedade, Alfie considera que vai ser preciso muito mais da parte de Ye para atingir a redenção, já que ”ele andou a vender coisas nazis na Internet e isso é indesculpável”.




Old Kanye vs New Kanye
Foi, portanto, entre mãos estendidas e quebras de confiança que, com 45 minutos de atraso, Ye subiu à famigerada semi-esfera, do cimo da qual tem atuado ao longo desta digressão. Dado que durante grande parte das duas horas de concerto estiveram a ser projetadas imagens do planeta Terra em rotação sobre este inusitado palco, é difícil não apreender que a ideia é de que o rapper afirma continuar a estar no topo do Mundo. O tema com que arranca, KING, confirma-o com a subtileza de uma marretada. O que os últimos anos têm mostrado — e que este concerto não contestou — é que isso é mais intenção que constatação.
Nunca tendo sido um rapper fora de série no que concerne à capacidade técnica e lírica, Ye pautou-se ao longo da carreira por ser artista com “A” grande. Até recentemente, isso estava patente nos dotes de produção inacreditáveis, nas escolhas estilísticas que, mais do que refletir o ar dos tempos, o moldavam, e nos espetáculos de grande produção com que partilhava esta música com o público, fazendo valer o seu magnetismo. Da produção nada temos a apontar: foi um espetáculo de luzes e explosões do melhor que se pode ver. Já da presença, temos dúvidas.
A Ye não se exige que seja um artista palrador, e por isso não choca que raramente se tenha dirigido ao público senão nas raras ocasiões em que pediu saltos ou mãos no ar. O problema é que, se houve temas onde pareceu estar presente de corpo e alma, encarnando o mito à nossa frente, noutros pareceu estar em piloto automático, quase como que um intérprete de um espetáculo de tributo a si mesmo ou um taciturno fã de karaoke (“karaok-ye”, diríamos). É bizarro vermos um homem sozinho em palco a parecer um elemento secundário como durante a pulsação house de Fade, especialmente quando antes, em Black Skinhead, esteve a recordar-nos porque é que Yeezus foi uma corrente elétrica ligada às têmporas da cultura popular.
A esta questão somou-se outra de monta: a qualidade sonora. Mesmo que este, infelizmente, continue a tornar-se num tema mais e mais irrelevante no que toca a música ao vivo, à falta de energia resultante de não haver banda a tocar somou-se um som ecoado e desequilibrado onde por vezes não se discerniam samples e, noutras, a voz de Ye estava ora demasiado baixa, ora demasiado alta. Não deixa de ser uma falha curiosa para um artista que, mesmo dada a inconstância dos últimos anos, continua a pautar-se pelo perfecionismo: prova disso é que repetiu Can’t Tell Me Nothing do início, já o tema ia a meio, porque se confundiu numa parte, apesar do público estar a adorar e dificilmente ter reparado.
Este último elemento, há que dizer, foi o que fez deste concerto uma experiência acima de tudo positiva e memorável. Ao contrário do que se passou no Wanda Metropolitano, este concerto no Algarve teve plateia em pé e notou-se na energia do estádio: entre moshes e o fenómeno recente das remadas, teve efeito de contágio, fazendo com que temas que já estavam a ecoar em uníssono soassem com ainda mais convicção, especialmente os mais antigos.
É aqui que chegamos à última constatação, a de que Ye, não sendo um artista a viver de antigas glórias, para lá caminha. É prova do seu repertório recheado de clássicos que, num espetáculo de mais de 30 músicas, tantos bons temas tenham ficado de fora (Through the Wire, Diamonds from Sierra Leone, No More Parties in LA, à cabeça). Mas é também pela necessidade de trazer canções mais recentes que a comparação não é lisonjeira. Sim, Carnival tem uma envolvência impressionante — ainda para mais num estádio, tendo samplado cânticos dos ultras do Inter de Milão —, mas soa estéril e inferior ao lado da magnitude de Power, que veio logo a seguir.

Tome-se como exemplo a sequência de canções entre Say You Will, ALL THE LOVE, BEAUTY AND THE BEAST, I CAN’T WAIT e FATHER, que não obstante os esforços de André Troutman — diretor musical que acompanha Ye e fez-se ouvir a cantar através de um vocoder em vários temas —, começou a cair na morosidade, quebrada por Heartless, que teve direito a vários refrães em que só o público cantou. E depois destes temas, ocorreu um momento tão enternecedor quanto musicalmente desagradável, sendo mesmo o ponto mais baixo do concerto. North West, filha de Ye e Kardashian, subiu ao palco para demonstrar que está a dar os primeiros passos na música, dada a mistela ininteligível que apresentou. Valeu, sobretudo, pela rara ocasião de ver Ye sorrir com o orgulho de um pai por uma filha.
“What if Kanye made a song about Kanye called ‘I Miss The Old Kanye’, man, that would be so Kanye”, cantou o rapper no álbum The Life of Pablo, prevendo com matreirice queixas como esta, de que o “Ye de antes é que era bom”. Mas é difícil argumentar contra este sentimento quando, na reta final do concerto, dá-se de longe o melhor momento destas duas horas, com um desfilar de clássicos que não foi sequer maculado pelo hábito desagradável do rapper de cantar apenas um ou dois minutos de cada música. E, mais importante ainda, onde o público esteve mais presente que em qualquer outra altura.
Da cover de American Boy — recordando-nos quando Ye lançava ou produzia músicas com outra leveza — até ao beat four-on-the-floor irresistível e as orquestrações gloriosas de Flashing Lights, foi uma sequência impressionante onde o público se fez ouvir com especial veemência: em Jesus Walks, em All Falls Down, em Gold Digger, em Homecoming ou em All of the Lights. Esta sequência teve uma travagem brusca, mas necessária, com Ghost Town, tema solitário do álbum Ye, de 2018, seguindo-se o corolário de toda a noite com a já mencionada Runaway. À distância de 16 anos, podemos afirmar que é o destilar perfeito da genialidade de Ye e da sua capacidade de nos pôr a torcer por um “asshole”, e nem a bagagem toda que traz consigo desde então foi capaz de manchar esse momento.
Parece evidente, mas essa acaba por ser a grande lição a tomar desta degeneração que tomou Ye desde então: que aos artistas tudo parece ser perdoado quando a sua arte está ao nível da sua perfídia. Nem que seja no momento em que toca uma canção.