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“Playback”: um filme tristonho e turvo sobre um cantor que espalhava alegria e boa disposição

"Playback", de Sérgio Graciano, não presta um bom serviço a Carlos Paião, nem à memória do que ele significou para os portugueses nos inesquecíveis anos 80. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Eurico de Barros
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Carlos Paião era a personificação da antítese de uma canção dos Heróis do Mar, Alegria (Não há ninguém/Capaz de me dar alegria/Alegria, alegria). Autor de centenas de canções, melodista consumado, letrista desenvolto, manejando como poucos a língua portuguesa (recordo só esta estrofe da brilhante Marcha do pião-das-nicas: “Galfarro afiambrado, pachola arremelgado/De grimpa levantada e garrafal/Amigo do amigo, farelo e muito umbigo/Vestiu-se e veio a pé pró arraial” — para já não falar na fabulosa Ga-gago: Eu sou ga-gago mas go-gosto/À be-berava de ca-cantar rock & roll/O o meu pai ta-também ca-ca-cantava quando apa-panhava sol), Paião trouxe o sentido de humor, a espirituosidade alegre, o piquinho da sátira, o riso gozão para a música ligeira portuguesa, e na altura ideal: o país já estava pelos cabelos com a música revolucionária e de intervenção do pós-25 de Abril.

Entre o início dos anos 80 e agosto de 1988, data da sua trágica morte num desastre de automóvel, quando dava espetáculos pelo país, Carlos Paião estava em toda a parte. Na rádio com as suas canções joviais — e também românticas —, que entravam pelo ouvido adentro e se recusavam a sair, e toda a gente trauteava; a dar entrevistas na imprensa; na televisão, nos Festivais RTP da Canção, nos programas de variedades e de Júlio Isidro, ou no Foguete com António Sala e Luís Arriaga; a escrever títulos popularíssimos para Herman José (A Canção do Beijinho, as canções de Serafim Saudade) ou Amália Rodrigues (Amigo Brasileiro, O Senhor Extra-Terrestre) e até, de novo para Herman, Bamos lá Cambada, a esfuziante canção de apoio à Seleção Nacional de Futebol no Euro de 1986, entoada pelo Estebes.

[Veja o “trailer” de “Playback”:]

https://www.youtube.com/watch?v=pN_Ob1JgyZc

Poucos cantores e compositores portugueses espalharam tanta alegria, satisfação e boa disposição, e puseram tanta gente a cantarolar as suas composições como Carlos Paião. Perante tudo isto, pergunto: como é possível fazer um filme biográfico sobre ele, tão tristonho, tão carrancudo, tão arrastado, tão literalmente escuro – as sequências de interiores parecem passar-se todas em dias plúmbeos de inverno – e tão monocórdico como Playback, de Sérgio Graciano? Um filme quase sem exteriores, que se passa em grande parte dentro de portas, no circuito fechado do mesmo punhado de personagens, entre família, amigos chegados e Mário Martins, o seu produtor na Valentim de Carvalho? Um filme que nem consegue chegar perto de sugerir quão popular e querido Carlos Paião era em Portugal?

Quem viveu esses tempos complicados mas inesquecíveis não encontrará sequer em Playback o “efeito de nostalgia” que fitas anteriores sobre outros fenómenos musicais nacionais de então (António Variações em Variações, de João Maia, as Doce em Bem Bom, de Patrícia Sequeira) conseguiram acionar, já que a própria sugestão da época no filme de Sérgio Graciano é vaga e esbatida, nem mesmo o guarda-roupa é sugestivo o suficiente. Rafael Ferreira é um Carlos Paião aceitável, mais na timidez do que no ar pachola que no-lo tornava simpático de imediato. E o filme falha também no intento de “mergulhar no universo criativo” do cantor e compositor (duas ou três sequências em que ele rabisca, concentrado ou em fúria, em folhas de papel, não são propriamente elucidativas).

Há dois momentos em que Playback insinua o filme que poderia ter sido, e que Carlos Paião mais do que merecia. O da interpretação da canção do título no Festival RTP da Canção de 1981 (que Playback ganharia); e o do casamento de Carlos e Zaida, que se transforma num divertido número musical e dançado, ao som de Pó-de-Arroz. Um e outro estão cheios do desaforo, da luz, da cor, do movimento e da alegria que deveriam abundar em Playback, e mostrar-se como a razão de ser da fita. Playback não presta um bom serviço a Carlos Paião, nem à nossa memória do que ele significou para os portugueses, nesses infelizmente breves anos em que brilhou com intensidade e júbilo.