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Católicos e ciganos

Temos gente que acha o Cristianismo falso a mostrar-nos que as ideias de Ventura sobre os ciganos são más porque são contrariadas por alguma coisa em que eles não acreditam.

Carlos Maria Bobone
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Há irritações que, por mais que as empurremos, teimam em não descer aos fundos a que mereciam. Esta tem umas semanas, e em vez de desbotar, foi fermentando, até se tornar incontrolável.

Começou quando André Ventura se apresentou a mais uma ronda de entrevistas em horário nobre, e a matilha de entrevistadores ressuscitou, de dedinho acusador, a flagrante contradição capaz de o destruir: como é que um católico era capaz de dizer o que ele dizia, e achar o que ele achava, sobre os ciganos?

Pouco depois, repetiu-se a cena, desta vez numa entrevista com Jaime Nogueira Pinto. Como era possível? Um católico, com opiniões como as dele sobre os imigrantes? E defende Ventura, mesmo com o que ele diz sobre os ciganos?

Como em todas as comichões, começa-se a coçar de um lado, e a coisa começa a alastrar. E aqui tudo arde ainda antes de chegar à questão concreta; mais, é o pressuposto geral o pior de tudo.

Há pouca coisa mais irritante do que exigir às convicções dos outros mais do que exigimos a nós próprios. Não vale apenas para os católicos, para não defender só a minha dama, vale também para comunistas ou qualquer convicção com um mínimo de força. Eu posso açambarcar ferraris à vontade, mas tu, que tens uma bicicleta, como é que vives com a tua consciência? Há um cinismo especial em contestar ideias, não porque estão erradas, mas simplesmente porque o outro não as devia defender. O problema não está só na posição moralmente superior (que não se percebe de onde vem, porque só é possível reagir assim se não mostrarmos moral nenhuma) de quem consegue ver melhor do que o outro as implicações daquilo em que o outro acredita; essa arrogância já seria tola e própria de quem não percebe um dos mecanismos fundamentais das ideias: há sempre elementos que entram na engrenagem entre uma ideia e as consequências que dela surgem, de tal modo que, para dar apenas um exemplo, é possível defender com igual sinceridade que, porque todos os homens nascem iguais, a desigualdade é uma consequência legítima ou ilegítima. Não é só esta arrogância de quem entra na estrada sem olhar para os ângulos mortos que é irritante; é mesmo esta forma protegida de crítica, própria de quem não quer ter de dizer se acredita ou não no que diz. Como é que um católico não acolhe a viúva, o órfão e o migrante, como diz na Bíblia? Eu podia enxotá-lo, defendo-me até de dizer com clareza o que acho sobre o assunto, mas tu? Como é que és capaz?

E assim, com uma maravilhosa pirueta, o pequeno inquisidor consegue mostrar que é errado o que o outro defende, sem precisar de explicar verdadeiramente porquê. Simplesmente porque é contraditório, mesmo que seja contraditório em relação a ideias em que quem acusa não acredita.

Ou seja, temos gente que acha o Cristianismo falso a mostrar-nos que as ideias de Ventura sobre os ciganos são más porque são contrariadas por alguma coisa em que eles não acreditam.

E se esta maneira de pensar já era suficientemente irritante fosse qual fosse o assunto, vale ainda assim a pena ir a um ponto mais específico.

Venho de uma tradição crítica da Revolução Francesa e das ideias modernas de Estado em boa parte por causa de casos como o dos ciganos. A tentativa de uniformização das sociedades, dos tipos de soberania, de indissociar a ideia de Estado da ideia de território, foi especialmente problemática diante de modos de vida como o dos ciganos, cuja itinerância dificilmente se adaptava aos ideais dos Estados modernos. É difícil cumprir a escolaridade obrigatória e apresentar-se ao controlo burocrático das matrículas, testes e relatórios quando se anda de terra em terra e de feira em feira. O Estado moderno tornou, com as suas exigências, o nomadismo – de um modo de vida necessário às próprias cidades muitas vezes sem massa crítica para a existência de lojas permanentes de um ou outro produto, mas com população suficiente para justificar feiras mais esporádicas (como volta a acontecer cada vez mais) – um crime. Ora, está nos livros – da esquerda e da direita, é o pressuposto tanto de Foucault como de Giuliani – a ideia de que uma pessoa que se percebe como marginal num assunto tem a via aberta para se perceber como marginal noutros.

Tenho, por isso, tendência a ver um problema com os ciganos não como um problema com os ciganos – o meu problema é com o Estado, com um Estado que, de uma forma sonsa, tira a uma série de comunidades as hipóteses de perpetuarem o seu modo de vida tradicional, mas ao mesmo tempo não tem coragem para acabar com elas. Não vejo, por isso, nenhuma torpeza moral em querer acabar com um estado de coisas que julga possível atacar juridicamente todos os valores fundamentais de uma comunidade ao mesmo tempo que se proclama querer integrar essas comunidades e combater a discriminação.

Percebo, ainda assim, que não se queira ter benevolência suficiente para ver um bom propósito nos estribilhos que Ventura lança sobre ciganos ou paquistaneses. Espero sinceramente nunca vir a falar de ninguém como Ventura fala sobre eles; ainda assim, não me parece legítimo encontrar uma contradição entre o catolicismo e as ideias de Ventura sobre ciganos ou imigração; não por serem estas, mas porque procurar esta contradição – ou concórdia, para o caso é igual – implica falhar a dimensão fundamental do Catolicismo. Não há contradição porque o Cristianismo não é um sistema legal, construído a partir de leis gerais – é antes de mais uma exortação individual. O que faz o Cristianismo escapar a este esquema de contradições é o facto de o abraçar. Precisamente porque o publicano está errado é que Cristo o acolhe. Podemos dizer que seria mais Cristão da parte de Ventura usar palavras mais simpáticas com os outros – ele lá saberá a medida do seu feitio e as razões íntimas do que diz – mas isso nada diz sobre as suas ideias, da mesma maneira que Cristo não legitimou a prostituição por salvar Maria Madalena.

A relação do Catolicismo com o Estado é complexa, precisamente por causa disto. A misericórdia é um valor imune às ideias. A piedade é um reduto salvífico das sociedades cristãs porque nos obriga a estar do lado daquilo com que não concordamos, sem perder a consciência de que aquilo está mal. É possível ser católico e estar contra a imigração em massa, claro que sim, a Bíblia nada diz sobre isso. O que o catolicismo pede é que, mesmo contra a imigração (seja lá isto o que for, porque é claro que ninguém é contra a imigração em abstracto), sejamos bons com o imigrante. Era bom que não tivéssemos uma série de chicos-espertos a tentarem aproveitar-se desta diferença, sob pena de perdermos quer as ideias, quer a misericórdia.