Um dia destes reparei que após duas décadas e meia a escrever na imprensa já me pediram a opinião sobre centenas de temas desinteressantes, mas nunca alcancei a relevância necessária para ser sujeito à mais sublime forma de expressão jornalística: o Questionário de Verão. Durante a referida estação, todos os anos todos os jornais interrogam inúmeras pessoas acerca das férias e das praias e assim. Pelos meus cálculos, já uns dez milhões de portugueses devem ter merecido semelhante honra, alguns repetidamente. Excepto eu. De modo a colmatar esta falha, pedi a uma traquitana de “inteligência artificial” que seleccionasse 30 perguntas entre as formuladas pelos diários e semanários nacionais. A traquitana seleccionou. E eu respondi. Eis o resultado, que além de me remover um peso das costas será, estou seguro, de enorme iluminação para os leitores do Observador e, porque não admiti-lo, para a humanidade em geral.
1. Que livros leva para ler nas férias?
Esta é a pergunta que as pessoas aproveitam para exibir sabedoria e garantir que vão passar duas semanas ao sol a ler a quantidade de páginas que nunca leram a vida inteira. Os ingénuos escolhem trinta e sete obras recentes e de certeza deploráveis, de que não lerão nenhuma ou, pior, lerão realmente umas tantas. Os eruditos não lêem: releem. Entre duas banhocas no mar de Tavira, relêem todo o Eça, ou todo o Lobo Antunes, e depois se sobrarem uns minutos relêem o “Tractatus” do Wittgenstein enquanto engolem um pires de tremoços e duas minis. Eu levo centenas de livros no Kindle, e garanto que fora das longas viagens de avião não terei vagar para ler ou reler nada. Ainda assim, e para que não me tomem por apedeuta, ando a saltitar entre capítulos do “A New Literary History of America”. E recomendo.
2. Qual é a música ou o álbum que vai ser a banda sonora deste Verão?
Desde que não seja as porcarias que se metralham por aí, e a que sou submetido à força, para mim o silêncio serve perfeitamente. De resto, ouço o que calha, contanto que seja decidido por mim. Ando entretido com o Warren Zevon, com canções obscuras do Hank Williams e com velhos conjuntos “norteños” e “mariachis” – tudo o que está na moda, enfim.
3. Aproveita as férias para pôr séries em dia ou prefere não olhar para ecrãs?
Não vejo séries desde “Breaking Bad” e as duas primeiras temporadas de “Better Call Saul”. O único ecrã para que olho nas férias é o do GPS do carro, já que conduzo 3 ou 4 mil quilómetros em quinze dias e o meu sentido de orientação é a dar para o inexistente. Não levo computador. Não sou viciado no telemóvel. E acho que nunca liguei o televisor de um hotel.
4. Qual foi o concerto ou festival de Verão mais marcante da sua vida?
Acho que fui a dois festivais no Verão. Um, no início dos anos 1990, foi o de Vilar de Mouros, onde um bêbado me confundiu com um tal Paulo, que por sorte ele achava um “tipo muito fixe”, e não me largou noite fora. O outro, mais recente, aconteceu no Meco, e andei os dois dias seguintes a assoar o pó que inalei (o pó do solo, bem entendido). O melhor concerto que vi em época estival foi o dos Pixies, salvo o erro em Julho de 1991, no Coliseu do Porto.
5. Livro em papel para as férias ou e-reader/tablet?
Só o Kindle. Viajo leve.
6. Consegue realmente não consultar o e-mail de trabalho durante as férias?
Consigo: não tenho um e-mail “de trabalho”.
7. Qual é o seu maior foco de ansiedade quando pensa na rentrée de setembro?
Pensar que a seguir virá fatalmente Outubro. E a seguir Novembro. E a seguir Dezembro. E por aí fora, até chegar a Março e o maldito inverno ir embora. Com a idade, cada vez gosto menos de frio e de chuva. Estupidamente, não me mudei para o sul do Arizona ou para as Bahamas a tempo e horas.
8. Trabalha melhor no Verão por haver menos pressão ou detesta trabalhar com calor?
Trabalho sempre que tenho de trabalhar. Mas de facto no Verão o trabalho é intercalado com actividades mais doces.
9. Já alguma vez teve de interromper umas férias por causa de uma urgência profissional?
Estava em Miami Beach quando, através de notícias e mensagens sortidas, suspeitei forte e acertadamente que me iriam despedir da revista “Sábado”. Despedir, não: oferecerem-me condições para que me despedisse. Não interrompi as férias, mas passei parte substancial de dois dias ao telefone com pessoas diversas a tentar actualizar-me dos desenvolvimentos. Ao terceiro dia, já na manga para um voo Orlando-NYC, chegou o telefonema definitivo. O voo decorreu sob uma notável tempestade. Não guardo ressentimentos, e daqui envio um abraço a todos os que continuam a produzir a “Sábado”, que há lá gente boa.
10. Qual é o seu truque para enganar o “síndrome pós-férias”?
Cultivar uma bela e equilibrada semi-depressão até à Primavera.
11. Qual é o petisco de esplanada de que mais sente falta no Inverno?
Nenhum. As únicas esplanadas que frequento com regularidade no Verão são o pátio do Solar Bragançano, que não é bem uma esplanada, e a do restaurante Los Caprichos de Meneses, em Zamora. A sorte é que a última também consigo frequentá-la no Inverno.
12. Vinho branco fresco, sangria ou imperial bem tirada: qual é a bebida oficial da estação?
Em geral, só bebo água. Mas ocasionalmente bebo sangria, rosés banais e qualquer bebida pouco prestigiada com excepção de cerveja. Não gosto de cerveja.
13. Qual foi a refeição de Verão mais memorável que já teve numa viagem?
Agosto de 2024, num dos restaurantes do “resort” junto ao Lago Powell, entre o Arizona e o Utah. O lago, na verdade uma albufeira imensa, é o lugar onde se filmou o início do “Planeta dos Macacos” original, com o Charlton Heston. Foi escolhido para simular (e enganar as personagens e o espectador, como quem viu o filme compreende) outro planeta – e não por acaso. O jantar, igualmente do outro mundo, consistiu em “tacos” de lagosta acompanhados com mezcal. Repeti a dose e o mezcal.
14. É de almoços longos em esplanadas que se prolongam até ao jantar ou prefere refeições rápidas?
Não sou de almoços. É raro comer qualquer coisa que se veja antes do anoitecer. Pertenço a uma seita religiosa, de que sou o único devoto, que adaptou de forma exagerada os hábitos dos antigos romanos e condena os repastos diurnos. Mas gosto de jantares tardios e longos, muito longos.
15. Existe algum prato típico de Verão que recuse terminantemente comer?
Os únicos alimentos triviais que não como são pizzas, lasanha e bolo-rei. Mas julgo que não podem ser considerados pratos típicos de Verão.
16. Prefere férias no meio da natureza e montanha ou a explorar uma capital europeia?
Capitais? E europeias? Hoje em dia? Preferia ser seviciado por um bando de “activistas” em prol de Gaza a berrarem slogans ao som de batuques. Talvez um dia regresse a Praga. Sobretudo gosto dos desertos americanos e das estradas que atravessam os desertos americanos e as pequenas cidades nos desertos americanos.
17. Qual é a cidade portuguesa que fica mais bonita durante os meses de Verão?
A cidade portuguesa menos arrasada pelo progresso e pela arquitectura “moderna” é capaz de ser Aveiro, no Verão e nas restantes estações. Miragaia, no Porto, é um bonito pedacinho de cidade. Alfama, em Lisboa, também, embora com excessivos declives para o meu gosto. E há uns bocados pequeninos de Amarante, Évora e Sintra que escapam. Mas sempre que é subjugado à acção dos portugueses, Portugal torna-se mais feio. E feio é favor.
18. Prefere fazer uma grande viagem por ano ou várias pequenas escapadinhas ao longo do Verão?
Faço duas viagens longas e anuais pelo Sudoeste americano. Tirando Espanha, a que vou regularmente porque moro boa parte do tempo junto à fronteira, há muito que deixei de frequentar a Europa e a chamada América Latina. E nunca tive a curiosidade suficiente em conhecer o resto do mundo que me fizesse suportar os incómodos das viagens.
19. Qual foi o pior imprevisto ou peripécia que já lhe aconteceu numa viagem de férias?
Raspar metade de um Buick alugado no tronco de uma árvore petrificada, em Lupton, Arizona. Fazer com que o tampo de uma mesa de pedra me caísse no dedo maior do pé direito, em Mariposa, Califórnia. Apanhar uma intoxicação alimentar com amêijoas em Pisa, Itália. Perder voos em Paris e Madrid. Ver-me interceptado, e logo após mandado seguir, por uma patrulha de miúdos armados com armas automáticas nas profundezas da selva mexicana. Falhar um concerto da Iris DeMent algures na Nova Inglaterra. Ser resgatado pela aparição do “metro” de um grupo de hooligans que, do outro lado dos trilhos, num subúrbio de Londres e à meia-noite, se preparavam para me iniciar nos preceitos da velha aliança luso-britânica. Nada de especial, pois. Tenho tido sorte.
20. Há algum lugar no mundo para onde jura que nunca mais voltará no Verão devido ao calor ou ao turismo?
Quase todos aqueles lugares a que já fui na Europa, com hipotéticas ressalvas para a Toscana e a cidadezinha de Hay-on-Wye, no País de Gales, e não exactamente devido ao calor e ao turismo. O calor não me incomoda: costumo viajar para sítios imensamente mais tórridos. E o turismo não é uma razão legítima: sou tão turista quanto os demais. As razões são outras.
21. Qual é a sua memória mais antiga e marcante de umas “férias grandes”?
A alegria do último dia de aulas, por perceber que as férias estavam a começar, e a morrinha quase simultânea por perceber que em meros três meses as férias teriam fim.
22. Que cheiro ou aroma o faz regressar instantaneamente aos Verões da sua infância?
O cheiro da praia, que em Matosinhos se misturava agradavelmente com o cheiro das industrias locais. Nasci e cresci perto do mar, e desde os 12 anos que vivo em casas mesmo, mesmo, mesmo em frente ao areal. Até aos 22 ou 23 anos, com o intervalo de Agosto na aldeia transmontana, passei os Verões nas praias de Matosinhos e arredores. Desde então, praticamente não voltei a uma praia portuguesa, salvo Porto Santo. Nunca apreciei esticar-me ao sol (ou contrair-me ao sol, acrescento), e se me permitem um trocadilho atroz, digamos que a água do mar abaixo de 25 graus não é a minha praia.
23. Lembra-se da primeira vez que viajou sem os seus pais? Para onde foi?
Em Portugal, costumava acampar na ria de Aveiro, hábito recorrente a partir dos 16 anos. Fora de Portugal, aproveitei uma pausa entre duas namoradas e fui com três amigos passar uma semana a Sanxenxo, na Galiza, para aí com 20.
24. Qual era a sua brincadeira ou passatempo favorito durante as férias da escola?
Ir à praia, jogar futebol, ler histórias aos quadradinhos, vulgo banda desenhada. Fui uma criança original, como se nota.
25. Se pudesse regressar no tempo, a que ano ou Verão da sua vida voltaria sem pensar duas vezes?
Por causa de turbulências sentimentais, o melhor e o pior Verão da minha vida foi o de 1992. Não sei se me apeteceria voltar, ainda que pensasse vinte vezes.
26. Ar condicionado no máximo ou ventoinha à antiga?
Ar condicionado, claro. As ventoinhas constipam-me.
27. Qual é a peça de roupa do seu armário que só ganha vida durante estes meses?
Os calções de banho, para estar no meu tanque disfarçado de piscina, e nas piscinas disfarçadas de tanques dos motéis em que pernoito na América. E para nadar no Lago Powell e no rio Colorado. Ou no primeiro charco com água tépida que me aparecer à frente.
28. Dorme melhor no Verão ou o calor tira-lhe o sono?
Durmo bem o ano todo. E tenho ar condicionado no quarto. Para me tirar o sono, só criaturas que dizem “tipo” como muleta, “eu sinto que” em vez de “acho que” ou “julgo que”, e o verbo “entregar” sem se referirem a uma encomenda porque traduziram mal do inglês.
29. É daquelas pessoas que ama o Verão e o calor ou conta os dias para o regresso do Outono?
Conto os dias. Conto literal e minuciosamente os dias para o regresso do Outono, mas com um negrume na alma que nem vos digo.
30. Qual é o artigo mais inútil que continua a meter na sua mala de praia ano após ano?
Não sei o que é uma “mala de praia”, não vou à praia e, tirando situações raras em que a temperatura da água ultrapassava os 25 graus, não nado no mar há 30 anos. Quando ia a praias, levava uma toalha.
E pronto. A ironia disto é que ainda não vou de férias. Prometo voltar para a semana com novas e profundas reflexões, mas não tão novas nem tão profundas quanto as de hoje.