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O Cónego Jeremias e o Chega

Ainda a propósito do artigo “Padre do Opus Dei defende voto em Ventura” (Sábado, 18-1-2021)

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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Em arrumações de fim de ano lectivo, encontrei uma notícia publicada há já bastante tempo, com o escandaloso título “Padre do Opus Dei defende voto em Ventura” (Sábado, 18-1-2021), que levei ao Cónego Jeremias, que está a descansar nas termas.

Isso deve ter sido por ocasião da crónica “O voto dos católicos na eleição presidencial” (Observador, 16-1-2021). Nessa crónica, ao comparar as declarações de todos os candidatos presidenciais, disse-se que só o presidente do Chega tinha expressamente declarado que se opunha à legalização da eutanásia.

– Ao excluir os candidatos que eram favoráveis à legalização da eutanásia, não se estava a propor o voto no único que disse que a ela se opunha?!

De modo nenhum, porque, para além do presidente do Chega, havia mais dois candidatos em circunstâncias análogas: o então Presidente da República (PR), que se recandidatava; e o candidato do PCP. Como este último, embora o seu partido fosse contrário à eutanásia, não era elegível para um cristão, por razões óbvias, restavam os outros dois. Afirmar isto não era propaganda política a favor de ninguém, mas uma mera constatação de facto. Aliás, nessa crónica até se denunciou expressamente “o clericalismo dos que, em nome da fé, querem impor aos católicos o voto da sua preferência”!

– Mas, pelo menos implicitamente, não se estava a favorecer a única candidatura que se declarara contrária à legalização da eutanásia?!

Pelo contrário porque, apesar de o então PR ter eludido a questão, o autor da crónica supôs que, afirmando-se católico, seria também contra a legalização da eutanásia, o que prova a sua boa-fé e ingenuidade. Disse-o de propósito, precisamente para que ninguém se sentisse obrigado a votar no único candidato que afirmara ser contra a legalização da ‘morte assistida’ ou, melhor dizendo, da ‘morte provocada’.

– Quer então dizer que o autor dessa crónica não só não aconselhou o voto no candidato do Chega como, baseado numa suposição que não se realizou, lhe retirou a exclusividade do voto contra a legalização da eutanásia?!

Exacto! Por isso, em vez de ser falsamente acusado de ter aconselhado o voto no candidato do Chega, deveria ter sido criticado por o ter prejudicado, em benefício do que já era PR, com a agravante de o ter feito com base numa hipótese que nem sequer se confirmou! Como é sabido, o anterior PR, não obstante dizer-se católico, e o nº 1 do art.º 24.º da Constituição declarar que “a vida humana é inviolável”, promulgou a lei que legalizou a eutanásia no nosso país.

– Essa crónica teve repercussão?

Sim, alguma, em parte devido a um comunicado do Gabinete de Imprensa do Opus Dei, no próprio dia 16-1-2021. Mas, o mesmo Gabinete se viu obrigado a emitir, a 26-2-2021, uma “nota suplementar”, onde reconheceu “ter-se exposto e ofendido” o autor da crónica, na qual, por sinal, o Gabinete não detectou nenhuma imprecisão doutrinal. Tendo aquele comunicado “magoado não poucas pessoas”, que “leem com agrado e proveito” os textos do autor dessa crónica, o Gabinete apresentou, por via dessa nota suplementar, “um pedido de desculpas” ao seu autor que, como expressamente reconheceu, ofendera, “e às pessoas que o comunicado magoou”.

– E qual foi a reação da imprensa?

– A Sábado publicou, a 18-1-2021, o tal artigo intitulado “Padre do Opus Dei defende voto em Ventura”! Ora, este título é falso, porque contradiz, de forma grosseira, a crónica a que se refere. Como o seu autor não é leitor dessa revista, só agora dela tomou conhecimento.

– Este artigo da Sábado tem alguma coisa a ver com o dito comunicado?

Suponho que era este tipo de comentários que aquele infeliz comunicado quis evitar, mas que, de facto, provocou. A referida crónica, em si mesma, não permitia uma interpretação enviesada e, portanto, bastava citá-la literalmente para reconhecer que era absolutamente coerente com a Doutrina Social da Igreja. Mas, como o Gabinete erroneamente supôs que a crónica apoiava um candidato, induziu em erro alguma imprensa, que a interpretou nesse sentido, apesar de contrário à sua letra e espírito. O Gabinete, ao pressupor que a crónica dizia o que não dizia, não só foi desleal para com o seu autor, que nem sequer teve o cuidado de contactar, como fez crer à comunicação social que esse texto afirmava o que, de facto, não afirmava e até condenava.

– Acha que foi intencional essa atitude do Gabinete de Imprensa?

Quero supor que não procedeu deste modo por má-fé, mas por precipitação e subserviência ao ‘politicamente correcto’. Como o comunicado, a nota suplementar e o artigo da Sábado estão on line, ainda se justifica este esclarecimento.

– Mas a relação com o Chega resume-se a este episódio?

Não há nenhuma relação entre o autor dessa crónica e o Chega, nem com nenhum outro partido político. Pontualmente, pode concordar com algumas das suas propostas, como concordou com o PCP, quando votou contra a legalização da eutanásia, sem que por esse motivo seja comunista, nem próximo desse partido.

– De todos os modos, o Senhor Cónego não nega que ele é de direita …

Não é de direita, nem de esquerda, como Jesus Cristo, ou a Doutrina Social da Igreja também não são de direita, nem de esquerda. É muito amigo da liberdade de todos, também dos cristãos, desde que sejam coerentes com a fé. Sempre defendeu a liberdade e, por isso, abomina todos os totalitarismos, mas também é pela justiça social e contra a exclusão dos mais desfavorecidos. Aliás, já elogiou publicamente vários políticos de esquerda.

– Pode exemplificar?

Sim, até com a referência às crónicas aqui publicadas ao longo da última década e que continuam acessíveis, para comprovação, no ‘site’ do Observador.

Por ocasião do falecimento da Dr.ª Maria Barroso, evocou-a com apreço, a 11-7-2015, em “Excelente Senhora”. Também se referiu, em termos muito positivos, ao seu marido, histórico fundador do Partido Socialista, em “Mário Soares e a Igreja em Portugal” (14-1-2017). Em “RIP pelo RAP” (29-6-2019), tendo em conta dois comovedores episódios familiares do conhecido humorista Ricardo Araújo Pereira, elogiou-o, apesar do seu ateísmo e da sua militância, ou simpatia, pelo PCP. Mais ainda: chegou ao extremo de ‘canonizar’ o líder histórico do Bloco de Esquerda, a propósito de uma sua deliciosa crónica, que transcreveu, quase na íntegra, em “Valha-me ‘são’ Francisco Louçã!” (6-10-2018).

– Afinal, parece ter mais afinidades com a esquerda do que com a direita …

Este conjunto de testemunhos a favor de personalidades da esquerda e, até, da esquerda radical, deveria levar a Sábado a desdizer-se e a afirmar que o padre que essa revista falsamente disse defender o voto em Ventura, afinal apoiou personalidades do PS, do PCP e do Bloco de Esquerda, ou seja, parece ser mais partidário da geringonça do que do Chega!

– E o autor da crónica mantém igual independência em relação à direita?

Claro que sim, pois foi muito crítico do anterior PR, na questão da legalização da eutanásia, como dos PR, também de direita, que promulgaram as leis do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

– Por último, que desejaria dizer aos leitores do dito cronista?

Aos que são católicos, que façam o favor de rezar por ele, para que seja um “servo bom e fiel” (Mt 25, 21.23). Sei que por todos reza habitualmente e agradece os comentários, privados ou públicos, que lhe fazem, sejam eles positivos ou negativos. Deus detesta os tíbios (Ap 3, 16), e Sá de Miranda dizia que era de “antes quebrar que torcer”: é preciso que os padres, com presença na comunicação social, não se envergonhem da fé que professam e, proclamando “a verdade na caridade” (Ef 4, 15), dêem sempre um bom testemunho da verdade que nos faz livres (Jo 8, 32).