Pela primeira vez, cientistas da Universidade de Stanford e do Arc Institute recorreram à Inteligência Artificial (IA) para criar novos tipos de vírus, que não existem na natureza. O objetivo é o desenvolvimento de tratamentos para o combate de bactérias resistentes ou superbactérias.
“A nossa abordagem amplia o que a genómica sintética pode alcançar juntamente com métodos como evolução dirigida e engenharia racional, traça um caminho para gerar terapias com bacteriófagos adaptativos e resilientes contra agentes patogénicos em rápida evolução e estabelece uma base para o projeto generativo de genomas maiores e mais complexos”, referem os investigadores no estudo publicado na quinta-feira na revista Science.
Apesar de a biologia sintética não ser novidade, sobretudo em relação à reprodução de genomas conhecidos, os investigadores ensinaram o modelo de IA Evo 2 a “reconhecer padrões de estrutura de ADN na natureza e, em seguida, a usar esses dados para escrever receitas para vírus inteiramente novos”, refere o The New York Times. As receitas foram usadas para criar bacteriófagos, para serem inseridos em bactérias E. coli resistentes ao PhiX174. Estes micro-organismos apenas infetam e destroem bactérias e não afetam humanos.
O Evo 2 foi treinado a aprender estruturas de sequências genéticas dos genomas PhiX174 e cerca de 15 mil parentes próximos, e criar novas. No total, foram analisados nove biliões de nucleótidos. O modelo gerou 700 mil novos vírus, tendo sido selecionadas 285 sequências de moléculas, que foram sintetizadas quimicamente e testadas. Destas, foram gerados 16 bacteriófagos com possibilidade de infetar bactérias e que se mostraram tão resistentes quanto os vírus naturais.
Estes vírus não representam uma ameaça para os humanos, pois “são todos semelhantes a um vírus natural chamado PhiX174, que só consegue infetar bactérias”, sublinha o jornal norte-americano. No entanto, o estudo aumenta as preocupações em relação à criação de vírus em laboratório para serem usados como armas biológicas. Por essa razão, o modelo de IA foi treinado para produzir receitas de vírus que apenas infetassem bactérias, e não humanos, animais ou fungos.
“Acho isso muito louvável, porque [os investigadores] não recebem nenhuma orientação de lugar nenhum sobre o que deveriam estar a fazer”, afirmou ao The New York Times Moritz Hanke, investigador do Centro Johns Hopkins para Segurança da Saúde, que não participou no estudo. O académico alerta que os governos e organizações científicas têm demorado a implementar medidas de proteção para impedir a geração de um vírus mortal.
Na semana passada, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) implementaram uma nova política para interromper investigações de alto risco que envolvem o desenvolvimento da nocividade de agentes biológicos.
“Só queríamos ser extremamente cautelosos”, sublinhou Brian Hie, biólogo computacional da Universidade de Stanford e um dos autores do estudo, em relação à investigação.