Nesta altura, não há soluções perfeitas — há soluções possíveis. No Governo, ninguém ignora a situação inusitada de haver ministro a investigar ministro. Mas o contrário — passar a imagem de que o Executivo estaria a fazer de tudo para proteger Luís Neves ou, pior ainda, dar o sinal de que o ministro da Administração Interna terá de facto algo a esconder — seria pior ainda.
Entre o deve e o haver, portanto, a decisão era só uma: dar ordens para que fosse feita uma avaliação interna à Polícia Judiciária (PJ) e para que avançasse em paralelo uma outra investigação àquela polícia por parte da Inspeção-Geral dos Serviços de Justiça (IGSJ), correspondendo a um pedido da atual direção de Carlos Cabreiro. “Se não fizéssemos esta auditoria, iam dizer que não fazíamos nada…”, aponta fonte do Governo da AD. Preso por ter cão e por não ter.
Esta decisão foi naturalmente articulada entre primeiro-ministro, ministra da Justiça e ministro da Administração Interna. Aliás, até na forma como o Ministério da Justiça comunicou a abertura da auditoria a Luís Neves se nota o cuidado com que o tema foi apresentado. “Foi determinada a realização de uma avaliação interna, destinada a enquadrar as questões que têm vindo a ser divulgadas pelos meios de comunicação social”, escreveu o gabinete de Rita Alarcão Júdice. A expressão “enquadrar” não surge ali ao acaso — importava não atribuir qualquer grau de culpabilidade a Neves.
Até ao momento, de resto, a solidariedade entre os dois ministros mantém-se intacta. Na primeira reação que teve ao caso, quando Neves estava ainda no seu prolongado silêncio, Rita Júdice saiu em defesa do seu colega de Governo, dizendo que o ministro estava a “gerir o processo da melhor forma” que sabia. Na quinta-feira, conhecida a abertura do inquérito, Luís Neves agradeceu a Rita Júdice. “A ministra ordenou, e bem, a abertura de uma auditoria. Estou totalmente tranquilo. Ainda bem que todas essas auditorias, averiguações e audições se façam, para que no final a verdade venha ao de cima”, defendeu o ministro da Administração Interna.
Quanto ao primeiro-ministro, continuam a valer as declarações que fez sobre Luís Neves. “Estou muito tranquilo e muito confiante no trabalho do ministro da Administração Interna e, naturalmente, sobre as explicações que ele tem sobre as imputações que lhe têm sido dirigidas. Estou absolutamente confiante de que continuará a ser, como tem sido, um ministro muitíssimo competente e muitíssimo ligado às tarefas que cabem à sua magistratura”, atravessou-se Luís Montenegro.
“Sair pelo próprio pé? Vocês não o conhecem”
A abertura destas duas auditorias, que se juntam ao inquérito que está a ser conduzido pelo Ministério Público (deslocação do atrelado), à averiguação da Procuradoria Europeia (contratos feitos entre a PJ e Construbarcelos) e ao processo com o Tribunal de Contas (gastos com combustível, viagens e utilização de telemóveis na polícia), vem, naturalmente, trazer camadas adicionais de pressão a Luís Neves. Ao mesmo tempo, o outrora contido José Luís Carneiro juntou-se a André Ventura no tiro ao alvo ao ministro. António José Seguro, antes discreto, também já pediu por duas vezes que se apurem todos os factos com rapidez e que se preserve, acima de tudo, a dignidade das instituições. O cerco (judicial e político) está-se a apertar em torno de Neves.
O futuro do ministro depende muito de notícias comprometedoras que possam ainda surgir e do desfecho destas múltiplas investigações em curso. No Governo, trabalha-se, claro, com o melhor dos cenários — ninguém acredita que venham a ser apurados factos de tal forma graves que tornem insustentável a continuidade do ministro da Administração Interna. Se Neves saísse apenas chamuscado destes inquéritos, tal teria uma enorme vantagem: poderia ajudar a esvaziar a comissão parlamentar de inquérito pedida por André Ventura, reforçando a defesa de Luís Neves.
O líder do Chega antecipou que será precisamente essa a intenção de Luís Montenegro. No comunicado em que reagia ao anúncio destas duas auditorias, André Ventura tentou destrunfar o adversário. “Desconhecemos se o objetivo do Governo foi ou não o de condicionar uma futura comissão de inquérito parlamentar, ou até anulá-la. Mas uma averiguação do Governo não pode de maneira nenhuma substituir uma investigação parlamentar independente, sobretudo num caso gravíssimo como este”, defendeu o Chega. É tempo de marcação homem a homem.
O PS não deixou de aproveitar a decisão da ministra para atacar diretamente Luís Montenegro, exigindo, nas entrelinhas, a cabeça de Luís Neves. “O assunto em torno do ministro da Administração Interna atingiu o limite do admissível no quadro do normal funcionamento das instituições. Já temos o Governo a investigar o Governo, a ministra da Justiça a promover o inquérito das atividades do seu colega de Governo. Exortamos o primeiro-ministro a pôr ordem no Governo e a defender o respeito pelas instituições, que é aquilo que neste momento está em causa. O caminho central é o primeiro-ministro exercer as funções de primeiro-ministro e colocar ordem no Governo. Isso passa por tomar seguramente decisões difíceis”, defendeu o líder parlamentar socialista, Eurico Brilhante Dias.
Luís Montenegro sabe que a oposição não desistirá até afundar o porta-aviões chamado Luís Neves — seria o terceiro ministro da Administração Interna a cair e haverá no ‘mercado’ pouca gente com a competência política e operacional de Neves. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro também sabe que a paciência de António José Seguro não será infinita — nem de propósito, o Presidente da República insistiu na importância de serem conhecidos os resultados das várias investigações em curso.
Os tropeções de Luís Neves, as notícias a conta-gotas, as investigações em curso, tudo isto custa e traz desgaste político a um Governo que dispensava uma crise depois de um ciclo penoso — comboio de tempestades, reforma laboral chumbada à 25.ª hora, caos nos exames nacionais. No entanto, no final do dia, acreditam os homens de Montenegro, será impossível acusar Neves de outra coisa que não um ‘homem que pega no telefone e faz coisas acontecer’. Se a época de combate aos incêndios correr bem, a chancela da competência dará uma proteção especial ao ministro.
Por isso mesmo, e até ver, o ministro da Administração Interna, com o devido respaldo do primeiro-ministro, não se tem afastado da sua principal linha de argumentação: alegar que tudo o que fez enquanto diretor da Polícia Judiciária serviu, mesmo que com algumas infrações, para defender superiores interesses da Polícia Judiciária e do Estado. O tempo, o cansaço das pessoas no geral e o eventual desinteresse da comunicação social farão o resto — como Montenegro já conseguiu provar uma vez. E quem aposta que Neves sairá pelo próprio pé está muito enganado, avisa fonte próxima: “Vocês não o conhecem.”
https://observador.pt/especiais/licoes-da-spinumviva-confortam-governo-e-dao-forca-a-luis-neves/
[A investigação ao espião português suspeito de vender segredos à Rússia é inesperadamente confrontada com uma vida dupla. Tem relações com várias mulheres do leste, é frequentador de bares de alterne e striptease e é ainda presença habitual em reuniões da maçonaria. Ao mesmo tempo, os serviços secretos norte-americanos querem montar uma armadilha à “toupeira” no interior do SIS. Já pode ouvir o segundo episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]